Cortázar em transe

Por José Castello
O GLOBO 

Tive um amigo, que perdi de vista, que se viciou em “O jogo da amarelinha” _ o mais importante livro do argentino Julio Cortázar (Civilização Brasileira, tradução de Fernando de Castro Ferro). Seguindo o roteiro de leitura “aos saltos” proposto pelo autor _ em que se pula para trás e para frente, seguindo uma tabela apresentada na abertura do romance _ ele nunca mais terminou de lê-lo e posso dizer, sem exagerar, que foi engolido pelo livro. Esse amigo chamava o romance de a “Amarela” _ preferindo uma tradução sonora e poética à tradução literal. “Rayuela” _ denominação em espanhol do jogo da amarelinha _ é o título original do livro.

De tal modo meu amigo se perdeu dentro do romance de Cortázar, que já não pensava em mais nada. O livro se transformou, aos poucos, em sua realidade pessoal. E nós, aqui de fora, não passávamos de apagados personagens de ficção. Como não sei onde anda, prefiro, por respeito, ocultar seu nome. Sua aventura, porém, ficou como uma prova definitiva da grandeza do livro. Lançado em 1963, “O jogo da amarelinha” é composto de 155 capítulos, que podem ser lidos de duas maneiras: ou de forma direta _ e nesse caso, começando pelo capítulo 1, o romance “termina” no capítulo 56 _ ou alternando-se os capítulos, numa dança louca que inclui, além deles os chamados “capítulos prescindíveis”, que vão do 57 ao 155. Ou, para seguir a ordem sugerida por Cortázar: pulando do 73 ao 131. O escritor induz seus leitores, assim, a uma leitura armada sobre pequenos saltos, exatamente como no jogo que o inspirou.

Em um breve registro guardado em “Papéis inesperados” _ seu livro de dispersos organizado por Aurora Bernárdez e Carles Álvarez Garriga, editado também pela Civilização Brasileira _, Cortázar faz uma revelação que torna seu romance ainda mais enigmático. Relembra o escritor que o primeiro capítulo que escreveu _ que receberia, mais tarde, o número 126 – foi, na organização final, simplesmente suprimido. Em seu lugar, na edição que hoje conhecemos, aparece apenas uma breve citação do “discurso da madrágora”, de “Isabel do Egito”, livro de Achim Von Arnim. A frase final a resume: “Não via nada de mau, pois não tinha olhos; não escutava nada de mau, pois não tinha ouvidos; mas hei de me vingar!” É assim, às cegas e de maneira um tanto surda, que avançamos na leitura de O jogo da amarelinha. É assim também que o livro se vinga de seu leitor e de sua tendência à acomodação. O romance se ergue sobre um grande vazio _ aquele deixado pelo capítulo que o escritor preferiu suprimir. Foi no processo de revisão final do livro que Cortázar se deu conta de que o capítulo 156 “sobrava”, e simplesmente o arrancou.

Cortázar precisou de muita coragem para derrubar a base de seu edifício ficcional. “Sem pensar mais, tirei a pedra fundamental, e pelo que soube depois a casinha não venho abaixo”. Ao contrário, o capítulo ausente exacerbou o caráter giratório da narrativa _ como se ela passasse a rodar em torno do olho cego de um furacão. Talvez tenha sido isso que levou Cortázar a declarar, mais tarde, que “O jogo da amarelinha” guarda “a parte mais profunda do meu ser”. Insistiu, sempre, que escreveu o romance para si mesmo, e que, por isso, ele se transformou em uma obra de ruptura. Com ele, o escritor se despede de um tipo de literatura, mais distante e metafísica, e abraça um segundo caminho, mais engajado e mais real.

O romance de Julio Cortázar tem o indisfarçável caráter de um jogo _ um desafio proposto ao leitor. Nem todos o suportam _ e foi exatamente isso, não suportar e sucumbir, que sucedeu a meu amigo. Também esse amigo perdido, que ficou em minha história pessoal como um rombo, simboliza, de certo modo, o vazio guardado no coração do romance. Ele o “encena”, ele o representa. Além dessa força lúdica, devemos pensar em um segundo elemento que ajuda a definir o romance: a influência do jazz, de que Cortázar foi um apaixonado admirador. Também no jazz a construção musical _ arbitrária e aleatória _ gira em torno de um núcleo central (um “tema”) que, no entanto, com o avançar da interpretação, é expulso de cena. Um terceiro aspecto a destacar é o humor. Admitia Cortázar que não teria escrito um livro como “Amarelinha” se ainda vivesse na Argentina. Precisou mudar-se para Paris: só assim ganhou distância, não só para rir, mas para refletir. Ao escrevê-lo, entendia, lutou contra as deformações que persistiam em sua formação. O livro funciona, assim, como uma grande luz que se descerra sobre sua história pessoal _ espécie de revelação que não só embriaga seu autor, mas também seus leitores.

Sempre entendi que meu amigo desaparecido _ tão enigmático quanto o capítulo 156 do romance _ passou a sofrer de uma espécie de embriaguez. Não um êxtase através do álcool, mas das palavras. O romance de Cortázar se transforma, nesse ponto, em uma armadilha, na qual o leitor se enreda, se atordoa e se perde. Uma cilada que o obriga, deseje isso ou não, a se rever e a se transformar. Admitia Cortázar que o protagonista Oliveira se parece muito com ele mesmo, o que demonstra que a narrativa, de certa forma, devora seu próprio autor. Engoliu-o e o obrigou a se transformar também _ em um escritor engajado politicamente e profundamente apegado à realidade. Há, mais uma vez, algo que desaparece. O que ocorre, também, no paralelo com o jazz, gênero musical no qual o intérprete não “interpreta” uma música anterior, mas se limita a usá-la como um esboço e, assim, se dedica a recriá-la.

A experiência de recriação é muito forte na leitura de “O jogo da amarelinha”. Disse Cortázar, em longa entrevista concedida a Ernesto Bermejo e traduzida no Brasil pela Zahar, que seu romance, ao tirar o leitor de uma situação que é emotiva e o meter em outra, que é cômica, o “despatetiza”, isto é, o arranca de uma hipnose. A embriaguez produzida pela leitura não é uma elevação, mas antes uma queda brutal no chão. Provavelmente, é nessas fraturas reais, e não em elevações do espírito, que devo, eu também, procurar meu amigo desaparecido. Não foi só o romance, foi também o real que o devorou.

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