Cortázar inédito

Por Sylvia Colombo
FSP

Conheci Aurora Bernárdez, a viúva do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), em Madri, em 2005. Eu estava de férias, mas acompanhava uma amiga jornalista espanhola na apresentação de uma coletânea de textos póstumos do autor.

Achei que Bernárdez era um tanto diferente de outras viúvas célebres. Discreta e prática, não se apresentava como musa do morto, como tantas, muito menos o infantilizava, como faz a de Jorge Luis Borges, Maria Kodama.Lá pelas tantas, um colega perguntou-lhe se ainda havia algo “grande” para vir à tona do espólio deixado por Cortázar. Ela respondeu simplesmente: “Há alguma coisa sim, esperem mais um pouco”.

E eis que, passeando semana passada por uma das incríveis livrarias de Santiago (Chile), topei com “Cartas a los Jonquières” (Alfaguara), livro lançado no meio do ano passado em Buenos Aires e só agora no restante do mundo hispano-americano.

Editado por Bernárdez, hoje com 90 anos, é composto por um conjunto de 126 cartas e 13 cartões-postais que Julio Cortázar enviou ao amigo Eduardo Jonquières e sua família entre fevereiro de 1950 e fevereiro de 1983. Estavam com a viúva deste, María Rocchi, que só algum tempo depois da morte do marido (em 2000) os encontrou e os entregou a Bernárdez. Foram escritas à mão ou à máquina e correspondem ao período que vai desde a primeira viagem de Cortázar à Europa, seguido de sua instalação definitiva em Paris (1951), até poucos meses antes de sua morte.

Cortázar havia conhecido Jonquières, que era quatro anos mais jovem que ele, em meados dos anos 1930, na Escuela Normal Mariano Acosta, em Buenos Aires. Este também era escritor, além disso pintava, embora nunca tenha atingido a fama. Por conta disso as artes estão tão presentes nesses diálogos epistolares que duraram mais de 30 anos. Em 1959, Jonquières e a família também se mudam a Paris, o que causa uma diminuição repentina da correspondência, uma vez que esta já não era tão necessária.

Diferentemente de Jorge Luis Borges, que deu muitas entrevistas e deixou revelar mais sua vida pessoal, de Cortázar sempre se soube pouco a esse respeito, tanto que afirmava dele o peruano Mario Vargas Llosa: “um homem eminentemente privado, com um mundo interior construído e preservado como uma obra de arte”, como bem lembra o co-editor do livro, Carlos Álvarez Garriga.

Bem, as “Cartas” desfazem um pouco desse mito. Mostram um Cortázar amoroso com os amigos e expondo-se bastante. O que primeiro surge no início da correspondência são as dificuldades de mudar de Buenos Aires para Paris. Desde a adaptação às novas língua e cultura, até o desconforto material, de quem partiu sem levar muitos recursos. Reclama do apartamento apertado, da pouca luz elétrica que há no prédio em que passa a viver e de não poder comprar suficientes livros –e de nem mesmo possuir estantes para colocá-los. Nada disso, porém, o impedia de consumir novelas “como um louco”.

Em uma das missivas, chega a pedir ao amigo que lhe mande alguma revista literária, que em Paris vê nas bancas mas que não pode comprá-las, e enumera desejar, entre tantas, “La Nef”, “Temps Modernes” e “Cahiers du Sud”.

Também fala da depressão de partir, ainda que demonstre isso com certo bom humor. “Ir-se não é nada, a coisa é dar-se conta de que há uma mecânica de chiclete no processo, pois é como se você ficasse aderido e aos poucos vai-se estirando”. Ou quando diz: “apenas a contemplação de um envelope, ou o cheiro do papel, me devolvem a chicotadas a Buenos Aires.”

É também comum referir-se ao fato de dormir pouco, e de não estar contente. É de se imaginar que os amigos do lado de cá do Atlântico escrevessem estimulando-o a alegrar-se (perdeu-se toda a correspondência do lado dos Jonquières), porque Cortázar responde sempre agradecendo a compreensão dos amigos.

Também Eduardo demonstra sua infelicidade mais de uma vez, e Cortázar o aconselha a ir ver um psicanalista. A recomendação para buscar essa verdadeira instituição portenha aproxima Cortázar de seus conterrâneos, que muitas vezes o tomam como alguém que se “europeizou” desde muito cedo em sua vida literária e costumes.

Mas boa parte das cartas dedicam-se mesmo a mostrar as impressões de Cortázar sobre um mundo que vai descobrindo a partir de inúmeras viagens, pela Europa, África, América e Ásia. Cada novo lugar que descobre surge como um enorme feito, devido à intensa curiosidade do escritor e seus poucos recursos. “É muito curioso que os ´grandes passos´ costumo dar são como se, no fundo, não se tratassem disso. Penso que o desejo acumulado termina por arrancar a verdadeira realidade das coisas”, escreve.

Há cartas assinadas de diversos lugares, França, Argentina, Uganda, Áustria, Cuba, Suíça, Nicarágua, Índia, Dinamarca, Brasil, Itália, Inglaterra e México, entre outros. Das visitas ao Brasil, não é muito o que relata. A carta assinada desde o Rio de Janeiro, em 1954, é um pedido de ajuda ao amigo para que o auxilie a resolver um problema com a compra de uma passagem de navio.

Já o postal enviado desde Brasília, em 1973, traz mais detalhes de seu passeio: “vou conhecendo este Brasil (Ouro Preto, Congonhas, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília) e amanhã estarei na Bahia com Caetano Veloso e os outros cronópios da música. Faz um calor `del quinto carajo´, mas Niemeyer, que grande tipo! Volto a São Paulo onde os poetas (milhares) me levarão a seus países concretistas, com Haroldo de Campos e Décio Pignatari à frente.”

A correspondência mostra como o escritor vai surgindo a partir do rapaz de 30 e poucos anos que emigra das margens do Prata sem ter muito mais do que ilusões em conhecer o Velho Mundo e tornar-se, quiçá, um escritor. Do encantamento com as novas leituras, passa-se à descrição das dificuldades em publicar, a vinda à tona dos primeiros livros, como lidou com outros autores e editores.

O que não muda nunca é o carinho e o interesse pelas coisas do amigo que ficou para trás. Dedica parágrafos inteiros e às vezes páginas de suas cartas à sua mulher, María, e aos filhos do casal, daí a opção dos editores por deixar o título no plural, ainda que o destinatário principal das cartas seja sempre Eduardo.

A indústria de obras póstumas está espalhada pelas diversas áreas da cultura e nem sempre lança no mercado coisas boas. Não é o caso de “Cartas a los Jonquières”, que acaba se transformando na autobiografia que o autor nunca escreveu.

Fica a dica para que algum editor brasileiro se anime a publicar o volume no Brasil.

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Dica do editor: Leia texto curto de Cortázar aqui

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