A cova dos anjos

Acordou com os primeiros tiros de sol dardejando seu rosto, por entre as ramagens da Barriguda, no tronco da qual se achava estranhamente. Ali, onde ninguém se atrevia parar, por ser o lugar onde se enterravam os natimortos da comunidade. O cemitério dos não-nascidos. Jurava que tinha voltado para casa, saído do barracão de Aristides e cruzado a vereda de dois quilômetros que separava o dever de patriarca do boêmio contador de causos, para quem todos voltavam a atenção, sobretudo quando o terceiro gole de pinga começava a descarregar os demônios do escárnio e da memória de fanfarrão, que faziam sua fama no povoado.

Limpou a vista tentando encarar a claridade com a normalidade das madrugadas, quando levantava para ir ao roçado, empunhando as armas que defloravam a terra e forçavam-na a dar o que ele precisava para sobreviver com suas cinco filhas, e Lindalva, a mulher que escolheu para companheira.

Estranhou as dores no rosto, mais precisamente nos lábios. Se houvesse um espelho para mirar-se teria um susto com o estado deformado dos lábios inflamados e o rosto inchado. Dormiu a noite inteira? Que noite? Saiu de Aristides ainda com o sol em cima do céu, deixou uma legião de pândegos se torrando de rir… Será que ainda era o mesmo dia? Morreu por duas poucas horas naquela sombra? A última lembrança? No barracão de Aristides, atirou uma bola de sinuca na parede para mostrar como havia desacuado com uma pedra uma assombração que o atacou na volta para casa no dia anterior, na Grota Funda. Descreveu a façanha com fundo musical de algazarra, narrando freneticamente como o bicho havia se retorcido com a pedrada e saltara noite adentro. E o matou? Claro que sim! Ele nunca mais deu o ar da graça!

Pensou em si. Quem sou? Antônio Gomes. Mas ninguém me conhece por esse nome. Sou Carai. Todo mundo sabe. Ou sou Tuíco também. Mas sou mais conhecido mesmo é como Carai.

Lembrou do jovem da comunidade que começou um arranha-fogo com Cleone, a sua caçula, a mais bonita. Do que o rapaz enfrentou com o pai, quando, indo cortejá-la, o pai o inquiriu: pra onde vai? E o rapaz tremendo respondeu: vou pra casa de Carai. O pai desafivelou o cinto e ensaiou uma surra pelo desrespeito, até que a mãe interferiu e explicou: Carai é Antôim Gome, homi! Dêxe o minino ir vê a minina! Era mesmo tão desqualificado assim?

Não se incomodava com esse apelido. Gostava, porque foi ele mesmo quem o cunhara, quando se recusava a chamar todo mundo pelo nome e só tratava todos por carai, principalmente os companheiros de esbórnia.

Aquele não tinha sido o primeiro destempero etílico de sua vida. Ao contrário. Já era escolado em bebedeiras, algumas que o tiravam, inclusive, da roça, para onde levava um frasquinho de pinga e, às vezes, nem voltava para casa no final da jornada. Por lá dormia até a meia noite.

Mas naquele manhã algo estava errado, diferente. Nunca tinha acordado com a boca tão dolorida e torta. Não tinha obrigação de falar, pois não havia uma só alma por perto. Um Cancão pulava de galho em galho da Barriguda, e trinava na sua cabeça como se troçasse de sua desgraça. Ainda não tinha movido nenhum músculo além das pálpebras, mas sentia uma terrível dor nos lábios, como se os tivessem queimado.

Virou de lado e o céu rodou. Pensou: eu devia era estar em casa! Reequilibrou o mundo que vazava pelas folhagens da Barriguda e passou a língua por cima dos dentes que ainda restavam, tentando instigar saliva, na vã esperança de que isso aliviasse a secura da boca.

Mas as dores nos lábios o atormentavam.

Pensou em Zenon, seu compadre, sereno, “essa hora devia tá cum a mão cheia duma teta fresca de vaca, tirando o leite, e assuviano”.

Pensou na casa, nas filhas, em Lindalva… Não fazia ideia de como elas o haviam procurado por toda a noite, desde Aristides, fuçando o povoado, sem notícia nenhuma de seu paradeiro.
Estranhou a areia na boca, crepitando entre os dentes.

“Tô no inferno”, murmurou para si mesmo. A cabeça latejava.

Ficou imóvel por horas……. Não tinha força suficiente para esboçar nenhuma atitude que o tirasse daquele estado de moribundo.

Voltou a dormir e acordou trinta minutos depois com uma rajada de sol mais quente e um imbróglio estomacal que o fez saltar da horizontal e lançar nas próprias pernas uma gosma verde, aquilo que ele julgou ser sua própria indecência.

Foi então que se deu conta de que dormira na Cova dos Anjos e sua boca ferida provava que os natimortos enterrados no pé da barriguda tinham invadido seu corpo pela boca, disputando, cada um deles, um espaço de entrada, rasgando sem zelo as suas bochechas, ferindo suas gengivas, fazendo algazarra nos restos dos dentes e deslizando pelo esôfago, como se fosse um tobogã, para depois caírem numa poça de álcool e suco gástrico, transformando suas entranhas em parque de diversão.

No salto, sem saber ainda porque caíra e ficara ali, naquela noite, levantou atordoado, bateu a areia da roupa e descobriu que tinha dormido sobre um formigueiro. Na cabeça inchada, a imagem de seu corpo invadido pelos natimortos enterrados no pé da Barriguda era mais nítida do que sua própria condição.

Apanhou o chapéu, bateu a terra dele, cravou-o na cabeça, refez-se da confusão geográfica de todo bêbado recém-acordado, mirou com os olhos semicerrados o Cancão que continuava a trinar no olho da Barriguda, como uma marreta na bigorna, baixou a cabeça, cuspiu seco e soltou:

Carai!
Parnamirim, 25/09/2015

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