Quando os vírus acordam

Já escrevi artigos em que afirmei que o Brasil de hoje está enfrentando dois vírus: o SARS-CoV-2, responsável pelas doenças respiratórias mundo afora, e que vem ceifando milhares de vidas por aqui; e um outro que é o vírus do desgoverno, representado pelo atual ocupante do Palácio do Planalto que, no fundo, acaba sendo um aliado do primeiro vírus. Trabalha em conluio com ele, aproveitando-se para instaurar a sua necropolítica.

Hoje, tomo conhecimento de que O Estado de S. Paulo publicou matéria sobre estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), o qual foi coordenado pelo virologista Thiago Moreno, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde. O estudo em questão revelou que  o SARS-CoV-2 tem servido para despertar, no organismo de pessoas infectadas, um vírus ancestral residente na cadeia evolutiva dos humanos há milhões de anos. 

O pesquisador Thiago Moreno afirmou que essa descoberta aconteceu a partir do momento em que  investigaram casos de pessoas de altíssima gravidade infecciosa, com o objetivo de averiguar se havia no organismo delas algum outro vírus contribuindo com esse quadro clínico. A partir daí,  encontraram nelas o retrovírus endógeno HERV-K, antiquíssimo na linhagem humana. Se não fosse o  SARS-CoV-2, esse retrovírus continuaria adormecido sem afetar a saúde dos seus portadores. Mas, desperto, passa a agir em parceria com o vírus da Covid-19 e  contribui, de maneira significativa, para o agravamento da doença, podendo levar  as pessoas precocemente a óbito.

Leia o artigo “O que vale a pena”, de José de Castro

Então, creio que nós podemos estabelecer um paralelo, uma analogia, entre essa descoberta científica e o que vem acontecendo nos tecidos do organismo social e político brasileiro.

O atual despresidente – sim, despresidente, porque sua tarefa é a de desconstruir tudo, desde a cultura, a educação, a saúde, as conquistas sociais e as instituições democráticas em geral – desde a sua campanha eleitoral, começou a despertar nos seus seguidores o vírus da violência, do descaso e do desprezo pela vida. Fez acordar todo o ódio represado em certa parcela da sociedade brasileira, que enxerga como ameaça qualquer governo situado do centro para a esquerda.

Essa capacidade de despertar o que há de pior nas camadas infectadas pelo vírus que destilava em sua campanha, resultou no recrudescimento da violência contra os homoafetivos, contra a mulher, contra os trabalhadores, contra os pretos, contra os povos indígenas, dentre tantos outros segmentos que viraram alvo de sua metralhadora virulenta. O gesto da mão, como se empunhasse uma arma, virou símbolo de sua campanha. Gestos, palavras e atitudes, aos poucos, foram despertando a bestialidade  adormecida em muitos dos seus fiéis seguidores. Houve a contaminação de rebanho pelo vírus desgovernante que despertou outros vírus adormecidos em pessoas que se viram, de uma hora para a outra, contemplados naquilo que havia escondido dentre delas. Acordou-se o perigoso vírus do fascismo, da barbárie e do desprezo pela vida. Tais pessoas sentiram-se encorajadas a  se exibirem aos olhos da sociedade em manifestações descabidas, afrontosas às instituições democráticas, debochando da vida humana, pisoteando os mais fracos e silenciando os contrários com armas.

Poderíamos citar vários casos, mas apontemos apenas o de Marielle Franco, que foi brutalmente assassinada por manter uma postura em defesa da mulher, dos seus direitos e os de muitos que não tinham vez e nem voz. Foi silenciada pelo ódio que dormia e foi despertado pelo vírus da inconsequência que libera armas e quer taxar os livros. Foi sacrificada por representar tudo aquilo que os seguidores cegos do seu líder odeiam: uma feminista, negra e favelada que saía em defesa das mulheres pretas e faveladas iguais a ela, que lutava pelos direitos do segmento LGBTI e pelos direitos de outros segmentos marginalizados pela sociedade.

Mentira, cinismo e deboche

Com milhares de mortos no país, Presidente Jair Bolsonaro zomba da situação e reforça a tese da cloroquina mostrando a caixa do remédio para as emas. Fotografia: Sérgio Lima/Poder360. 23.07.2020.

Não sei qual dos dois vírus é o pior: se o SARS-CoV-2, que desperta o retrovírus HERV-K, ancestral de 5 milhões de anos, ou o vírus do ódio despertado pelo desgoverno e pela insanidade instalada no país. Que triste despertar é esse que mais parece fazer emergir zumbis, como aqueles mortos-vivos dos seriados da Netflix, que querem sugar a alma brasileira e expropriá-la de toda a sua dignidade e respeito?

Parece-me que o primeiro vírus, apesar de ser letal em muitos casos, perde de goleada para esse segundo que tem várias cepas: negacionismo da ciência;  culto à mentira, ao cinismo e ao deboche; louvação ao falso messianismo, travestido numa religiosidade duvidosa e conveniente; elogio ao golpe militar havido no Brasil e à militarização;  acordos com facções milicianas; celebração da tortura; tentativa de ressuscitar órgãos de inteligência para espionar e intimidar estados e municípios; e uma cepa dominante, que é a da necropolítica como forma de governo; além de outras manifestações virulentas gestadas nos laboratórios do ódio que poderiam ser apontadas.

O vírus da intolerância e do ódio, quando despertado, pode gerar uma pandemia difícil de ser contida, pois conduz a mais violência; provoca o caos; a desordem; o desrespeito às leis e às instituições democráticas; defende a justiça pelas próprias mãos; ameaça as garantias individuais; e traz no seu âmago  a prepotência  que apregoa a tirania. Sua arma principal é a ameaça, a intimidação e o controle pelo medo. É um vírus corrosivo que aposta no estado de exceção, pois o seu objetivo é silenciar as vozes contrárias, pela força.  Democracia, direitos humanos, defesa do meio ambiente, luta pela vida, tudo isso para ele é “mimimi”.

A Fiocruz, a partir da descoberta de que o SARS-CoV-2 é o gatilho que dispara esse despertamento do vírus ancestral, acredita que poderá encontrar novas formas de tratamento das pessoas infectadas em suas formas mais graves. Ou seja, há esperanças.

Será que existe alguma vacina contra esse vírus?

Aí, eu pergunto: e nós, que sabemos que o vírus que nos (des)governa tem esse poder de despertar os instintos mais sombrios em certos humanos, que lições podemos tirar disso? Será que existe alguma vacina contra esse vírus? Será que conseguiremos  prescrever algum tipo de tratamento a todas essas pessoas infectadas por esse mal?

Talvez balancemos a cabeça de um lado para o outro, ao perceber que as pessoas acometidas por esse estranho vírus não querem ser curadas. Não querem porque não se sentem doentes.  Sabemos que quando um doente aspira à sua cura, ela costuma vir mais rápido. Mas quando pessoas cultivam a doença como algo que elas prezam, admiram e veem como qualidade  – e ainda pensam que os outros à sua volta é que estão doentes –, creio que não existirá vacina que os curem. Até mesmo porque, em relação ao vírus da Covid-19, negam-se a ser vacinadas, desprezam a máscara e zombam do distanciamento social. Querem aglomerações festivas e volta às atividades normais, em favor da economia e do mercado. Como sairmos dessa?

Se o  leitor tem alguma resposta para essa questão, um alerta: não procure o Ministério da Saúde, pois há tempos ele transformou-se em ministério da doença. Mesmo assim, é urgente que consigamos inocular país afora um grau de consciência mais elevado, que incentive as pessoas a pensar, refletir e se posicionar sem receio.

Noutras palavras, precisa-se do imunógeno da esperança, que nos permita fortalecer as nossas defesas contra esse brutal despertar das maldades em massa. Torcer para que ainda exista algum remédio oculto no coração de todas as pessoas do bem e de bom senso, que nos assegure boas doses de discernimento e coragem para  acordarmos desse pesadelo e virar o jogo. Apesar de tudo, é vencer ou se deixar sucumbir.

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Lílian Maial 26 de maio de 2021 22:24

    Querido, ótimo texto! Mas o ódio também é ancestral. Na nossa história, ele se iniciou em 22/04/1500. Beijo

  2. José de Castro 26 de maio de 2021 20:54

    Gostei de ver meu texto disponibilizado aqui.

  3. Maria Conceição 26 de maio de 2021 20:04

    Concordo plenamente com seu ponto de vista, precisamos mesmo acordar para o desserviço que este governo represta. um ignorante desses, não nem um pouco apto para governar nosso país. Parabéns, ótimo texto!

  4. Diana Pilatti 26 de maio de 2021 19:25

    Sei que FIOCRUZ e Butantã estão fazendo de tudo para nos salvar do coronavírus… mas será que as próximas eleições poderão nos salvar do outro? Espero que sim… não sobreviveremos a outro mandato…

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