Crianças em tempo de guerra

Amigos e amigas:

Não assisti ao filme “O menino do pijama listrado”, de Mark Herman (baseado no livro homônimo, de John Boyne), quando de seu lançamento (2008). Vi o filme apenas ontem, num canal de tv.

É um bonito drama sobre a amizade de Bruno, um menino filho de militar nazista e dirigente de um campo de concentração, com Schmuel, criança judia, de sua idade, prisioneira no mesmo campo. Trata-se de afeição que nasceu apesar da barreira de arame farpado e eletrificado do campo de concentração que separa fisicamente aquelas crianças – e, mais genericamente, alemães “arianos” e judeus, ciganos, homossexuais, deficientes…

Tal amizade é marcada pela estupefação infantil diante da brutal realidade, sentimento transfigurado em fantasia, difícil compreensão, medo, gestos de solidariedade e identificação, negação (Bruno diz a um jovem oficial nunca ter visto Schmuel e depois se arrepende: parece Pedro e Jesus) e reencontro.

Junto com essa bela amostra da sobrevivência de alguma condição humana em meio ao caos, o filme apresenta alemães não-judeus que se chocam com o horror do holocausto: a mãe e a avó de Bruno (duas mulheres, abrigos de vida se fazendo) e o pai daquele jovem bonito e violento oficial nazista (um homem maduro, professor de literatura, guardião do sensível e do intelecto). Mais ainda: no final da narrativa, quando o grupo de prisioneiros é encaminhado para a câmara de gás – Bruno entre eles, usando o pijama listrado que ganhara de Schmuel -, aparecem guardas que os escoltam e espancam, também vestidos com aqueles uniformes: prisioneiros judeus aliciados para serviços auxiliares de extermínio nos campos de concentração, como o barbeiro do grande documentário “Shoah”, de Claude Lanzmann (1985)? Hannah Arendt indica, no brilhante ensaio “Eichmann em Jerusalém”, que lideranças judias serviram de consultores para a indicação de nomes de seu povo que podiam migrar para a Palestina ou permanecer em território sob controle nazista – com grandes chances de serem encaminhados aos campos de exterminíno.

O desfecho do filme é trágico: o filho do comandante do campo de concentração é confundido com os prisioneiros e morto na câmara de gás, de mãos dadas com o pequeno amigo, num grupo de seres humanos nus e humilhados – a tocante amizade dos meninos metaforiza os resquícios de humanidade sendo destruídos, a condição humana se revelou plenamente para Bruno quando ele conseguiu ser o outro, vestindo o uniforme de prisioneiro e transitando pelos espaços do campo de concentração como um igual aos judeus. A mãe de Bruno, compreendendo o que ocorrera, chora em desespero.

Clichê melodramático? Memória repisada?

O horror daquele holocausto exige discussão permanente para melhor entendermos suas versões posteriores mais “elegantes”, de Hiroshima e Vietnã aos bairros pobres nas metrópoles contemporâneas.

“A dor da gente não sai no jornal” (“Notícia de jornal”, de Luís Reis e Haroldo Barbosa): sabemos que o jornal indicado na poesia não é jornal ao pé da letra. É preciso que a dor da gente se faça visível em diferentes suportes para que menos dor seja produzida ao nosso redor.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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