A crise é deles

Por Adriano de Sousa
NA TRIBUNA DO NORTE

No blablablês das modernas técnicas de gestão, um clichê onipresente associa crise a oportunidade – de crescer, de mudar, de reinventar-se. Para enrolar a trolha em seda erudita, cita-se ideograma oriental que significaria as duas cousas. Como sou analfabeto no javanês da autoajuda, leio o manual com olhos cínicos. Crise é oportunidade de constatar pela enésima vez a mediocridade dos nossos gestores e gestoras. Federais, estaduais, municipais. De esquerda ou de direita. Da política ao futebol. Quem puder apontar exceções, levante a mão direita decepada.

A gestão pública no Brasil é um deserto de ideias, um paraíso de más e um inferno de boas intenções. A crise econômica e sua expressão política – a crise fiscal – revelam quão evoluídos somos na arte do ludíbrio. Dribles da vaca, pedaladas, chaleiras, chilenas, trivelas, bicicletas e voleios retóricos são triviais no repertório de pelezões e pelezinhas que reinam sobre nós. À falta de talento para a boa governança, de aplicação para aprendê-la e coragem para praticá-la, eles se jogam na feitiçaria da comunicação, crendo que somos todos uns trouxas siderados pela varinha de Mr. Potter. Preferem aprender a falar (quando o conseguem, porque há poucos suplícios maiores do que ouvir a maioria deles declarando algo) do que aprender a pensar. Crise fiscal? Aumente-se os impostos. Ou, quando tacho houver, raspe-se o tacho do futuro. E o cidadão, rebaixado a mero contribuinte, que se réie pra lá.

Assim é em tempos de bonança, é assim em quadras de crise. Mesmo os que pareciam diferentes quando estavam no poder, escorrem para a vala comum se avaliados em retrospecção. Vivemos de pires na mão, mendigando uns tostões de inteligência. Alguém poderia citar algum presidente ou, no caso do Rio Grande Sem Sorte, algum governador ou prefeito que tenha deixado saudades no coração dos queridos leitores? Quem puder, levante a mão direita decepada.

A crise de competência não é privilégio da gestão pública. Os gênios do ideograma tem a manha de estender seu toque de merda a qualquer quadrante da aldeia. O que tocam, degenera. Se já é atrasado, regride ainda mais. Se poderia crescer, é submetido a choques de gestão que eletrocutam qualquer possibilidade de evoluir. Veja-se o que os boleiros da política, convertidos em políticos da bola, fazem com o futebol, um negócio que dá certo até na China.

Submetidos ao padrão vigente na gestão pública, nossos clubes definham na terceira divisão. Se os gestores vem do setor empresarial não conseguem, por algum mistério que escapa ao ramerrão dos manuais, imprimir aos clubes o sucesso e os lucros que, até em tempos de crise, parecem abundar nos seus negócios privados. Mas, não nos precipitemos. Pode haver aí uma lógica que, atordoados pela sucessão de fiascos, não percebemos.

Quem sabe se não é uma estratégia de marketing fazer do ABC o maior saco de pancadas das quatro séries do campeonato brasileiro, batendo o recorde de jogos sem vitória? Assim tomaremos o lugar do Íbis de Recife como o pior time do Brasil, fazendo dessa legenda o elemento central na imagem no clube, atraindo torcedores e multiplicando convites para jogar pelo mundo afora. Os pernambucanos não vão gostar. Mas, já é uma ideia.

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