Crise e literatura

Por Cristovão Tezza
Gazeta do Povo

Uma velha pergunta: o que leva alguém a es­­crever? Parece que es­­crever é sempre a manifestação de uma crise. Talvez seja preciso inverter a equação, da crise mundial (como todas, em todos os tempos, e essa não foi sequer a pior), para a crise da literatura, hoje quase um patinho feio da cultura. E penso que nem de longe ela voltará à glória com que explodiu no século 19, quando se criaram enfim as suas condições modernas – o leitor, o la­­zer, o império da escrita, a circulação espetacular do livro, a valorização do indivíduo e a sem­­pre importante separação política entre Igreja e Estado, mar­ca registrada do Ocidente (sem essa separação crucial, aban­­donemos toda esperança).

Por um bom tempo a literatura foi a arena em que se discutiam, pela simples representação ficcional do mundo, praticamente todos os grandes temas das humanidades. Leia-se Dos­­toiévski, Dickens, Tolstói, Bal­­zac, e é isso que se encontra. Mas a ficção foi perdendo terreno para outros meios da cultura po­­pular, começando pelo cinema, avançando pela televisão e hoje chegando à internet (o que é outro momento e outra história). A primeira “vítima” (se é lícito falar assim) desse avanço foi o tempo de lazer – ingrediente indispensável de quem lê – agora repartido entre mil outras atividades, quem sabe muito mais atraentes, cantos da sereia tecnológica que ao mesmo tempo colocou o mundo inteiro à disposição e nos tirou a paz e as condições de desfrutá-lo. Não tenho nada contra os novos meios, é bom deixar claro. Escrevo esse texto num computador de última geração, sou viciado em Google e me encanta o infinito potencial informativo desses novos tempos – não sofro de nenhuma nostalgia da máquina de escrever.

O que me interessa é localizar o espaço da literatura que restou nesse mundo novo. Não vou falar em “função” da literatura porque isso seria lhe dar uma direção e um sentido a priori; melhor pensar em “espaço” mesmo, o lugar em que ela surge, cria forma e se move. Pelo menos num ponto, estamos melhor do que há 30 anos: da era da televisão, um lugar de pura oralidade, passamos à internet, que é basicamente escrita. Sem­­pre bato nessa tecla: a palavra escrita reconquistou um espaço avassalador no ambiente da vi­­da. Hoje parece que tudo provoca curiosamente uma compulsão de ler e escrever.

Certo, todas são palavras “prag­­máticas” – nesse mundo de utilidades, o escritor respira em solidão, afirmando uma contra palavra. Não é a crise do mundo que faz nascer romancistas e poetas. Eles escrevem porque são eles mesmos que estão em crise – um poderoso sentimento de inadequação, que é a alma da arte, sopra-lhes a primeira palavra, com a qual eles tentam redesenhar o mundo.

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