‘Crise está redimensionando o poder político’

O Globo

NOVA YORK – O historiador e economista britânico Niall Ferguson, 46 anos, é hoje um dos críticos mais insistentes do governo Obama. Professor de economia, de mercado financeiro e de história econômica na Universidade de Harvard, com formação na Universidade de Oxford, no Reino Unido, Ferguson é autor de dois livros que analisam as crises financeiras globais como consequências da expansão do crédito fácil: “The cash nexus”, de 2001, e “The ascent of money”, de 2008. Em entrevista exclusiva, Ferguson fala sobre como a queda do euro vai impactar o Brasil e como a crise está redimensionando o poder político no mundo, incentivando o multilateralismo, tendo como exemplo o debate sobre o programa nuclear iraniano e o desafio de aliviar tensões no Oriente Médio.

O GLOBO: Como a crise econômica global está remodelando o mundo em que vivemos? Quais as grandes tendências atuais?

FERGUSON: A primeira grande tendência é o reequilíbrio de poder entre Ocidente e Oriente. A crise nos EUA e na Europa, a ascensão da China e da India como potências econômicas na Ásia, e o ótimo desempenho da economia brasileira são fatores novos decisivos para este reequilíbrio mundial. A segunda grande tendência é a crise de credibilidade e de crédito nas grandes economias ocidentais. Esta é uma crise que está no coração do sistema financeiro e que não vai ser resolvida rapidamente. Qualquer solução vai exigir grandes mudanças no mercado financeiro para recuperar a confiança de clientes e de investidores e a oferta de crédito que havia antes.

Como o senhor analisa a crise na Europa?

FERGUSON:A situação é grave e sera solucionada muito lentamente. Trata-se sobretudo de uma crise fiscal. Os problemas na Grécia mostraram que todas as economias européias estão interligadas e são de certo modo interdependentes. Os problemas em Portugal e Espanha também precisam ser acompanhados de perto. Mas o maior desafio vai ser, sem dúvida, encontrar soluções para reestabelecer o equilíbrio fiscal nos países europeus. Não vai ser fácil. Vai levar um longo tempo e exigir um duro processo de negociação, tanto dentro dos países quanto entre os países europeus, já que uma economia depende da outra.

Como o senhor analisa a economia brasileira e como esta crise européia vai afetar o Brasil?

FERGUSON:A economia brasileira é um caso muito interessante. O seu ponto mais forte hoje é o fato de que ela tornou-se muito diversificada, não apenas do ponto de vista de sua composição _ já que o Brasil tem uma agricultura poderosa, uma produção industrial considerável, um sistema financeiro em expansão e um crescimento baseado na demanda interna _ como também do ponto de vista de suas exportações, porque o país tem relações comerciais com os mais diferentes países, sem depender excessivamente de nenhum deles. O Brasil tem sido fortemente beneficiado pelo crescimento das economias asiáticas, em especial por suas relações com a China. Com a crise na Europa, vai haver certamente redução das exportações brasileiras para a região. Mas a economia brasileira tem alternativas para compensar esta queda. A forte demanda interna é um trunfo. Os maiores problemas são a tendência de alta da inflação, que leva a juros elevados. E o país também precisa de fortes investimentos em infraestrutura. Os grandes desafios serão manter os programas sociais e conseguir vencer os altos índices de criminalidade que ainda preocupam e que são incompatíveis com um país que pretende ter respeitabilidade internacional.

O senhor acredita que o reequilíbrio global vai tornar o Brasil mais influente politicamente? Como o senhor analisa por exemplo a atuação brasileira no caso do programa nuclear do Irã?

FERGUSON:Não há dúvida de que o Brasil está ganhando dimensão no cenário internacional. E o caso das sanções contra o Irã é exemplar disto. Para o governo Obama foi certamente muito irritante ver que o Brasil e a Turquia conseguiram um acordo para oferecer uma alternativa para o caminho das sanções. Ficou evidente que o governo Obama já tinha negociado um acordo sobre o esboço de sanções e que estava apostando no fracasso das conversas de última hora. O governo Obama não quer admitir novos jogadores no cenário internacional

O senhor considera deficiente a política externa do governo Obama?

FERGUSON: Rússia e China estão apoiando sanções evidentemente a contragosto e tendem a atrasar ao máximo a aprovação de qualquer texto. Ficou também evidente que o governo Obama não tem uma estratégia política consistente. Os americanos falam numa via dupla de “pressão e negociação” e na verdade apenas oscilam de um polo ao outro. O presidente Obama fez um discurso no Cairo, prometendo uma nova política americana para o Oriente Médio e até agora não cumpriu sua promessa. Ele prometeu que seria um cara melhor (“a nicer guy”). Mas precisa ser mais do que ser apenas melhor do que George W. Bush. Precisa ter uma política distinta. Russia e China claramente estavam relutantes no apoio ao rascunho das novas sanções. A China está se movendo noutra direção, o mundo está ficando mais e mais multilateral e a política externa do governo Obama precisa responder a isto. Talvez seja questão de tempo, mas até agora o que se viu foi um desempenho fraco da diplomacia americana para o Oriente Médio.

O desempenho de Obama tem sido melhor quanto à economia americana?

FERGUSON:O presidente Obama foi eficiente no primeiro momento, em evitar um desastre, o que seria uma recessão profunda e sem precedentes. Mas tem hoje um deficit monumental para administrar e precisa reencontrar o equilíbrio fiscal. A recuperação da economia americana é frágil e a crise do euro apenas agrava este quadro pela possibilidade de contágio. Há uma crise de confiança nos mercados mundiais e em Wall Street. Ainda é cedo para falar-se em double dip recession, ou seja, numa recessão seguida de uma recuperação leve e seguida de outra recessão. Mas a verdade é que esta hipótese não está afastada.

O senhor acredita que há chances reais de a proposta de Obama para a regulamentação do mercado seja aprovada ainda este ano?

FERGUSON: Alguma lei vai ser aprovada, mas resta saber qual. A crise de credibilidade do sistema bancário americano é real e incontornável sem mudança nas regras do jogo. O depoimento dos executivos do Goldman Sachs no Congresso revelou que eles tinham mais compromisso com os acionistas do que com seus clientes e que tudo o que fizeram foi perfeitamente legal. Ou seja, os executivos podem vender papéis aos seus clientes que eles sabem que vai dar prejuízo e tanto assim que investem em apostas contra aqueles papéis. E ainda assim estão dentro da lei.

O Goldman Sachs não é exceção em Wall Street.

FERGUSON:Claro, O problema é exatamente o fato de que eles agiram como costumam agir todos os executivos de banco em Wall Street. O que o Goldman fez não é exceção e nem é novidade. Ficou evidente que o Goldman Sachs foi o grande vencedor da crise de 2008, mas o depoimento dos executivos danificou a reputação do banco. O problema agora é saber se os contribuintes vão continuar dispostos a pagar pelos prejuízos de uma nova quebradeira de bancos. Do jeito que está, a diferença entre executivos de bancos e brokers é que, quando o jogo dá errado, os executivos ganham ainda assim e os brokers não contam com o dinheiro dos impostos para cobrir seus prejuízos. Isto tem que mudar. Os contribuintes não aceitam isto.

O senhor acha que a solução seria a criação de uma agência para defender os direitos dos clientes?

FERGUSON: Não acredito em agências governamentais. Existem tantas agências. E ainda assim a confiança no mercado está em queda. O problema é como conseguir que as agências sejam eficientes. Ou seja, a pergunta é: quem é que regula os reguladores? A solução virá pelo mercado, pela pressão dos investidores, clientes e contribuintes: quais são os investimentos que devem ser garantidos pelo dinheiro dos contribuintes e quais são os que não devem ser garantidos? Qual a margem de risco aceitável para investidores? Qual a margem de risco aceitável para uma instituição financeira? Quais as diferenças entre bancos, corretoras e hedge funds no que se refere ao risco? Esta diferença é fundamental. Este é um debate profundo que precisa ser feito urgentemente, a fim de restalecer a confiança dos clientes nos bancos e dos investidores nos mercados globais. É hora de discutir as regras do jogo. A crise de credibilidade atual já demonstrou que as regras precisam ser mudadas.

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