Crispiniano, imprensa e manipulação

Comecei a pensar neste texto domingo pela manhã, enquanto caminhava na Praia do Meio. Crispiniano Neto ainda não tinha escrito as bobagens que escreveu no Twitter. Verdade elementar que ele esqueceu. Dono de veículo de comunicação é uma coisa. Jornalista é outra. Os maus elementos são minoria na profissão – por enquanto, ninguém sabe onde essa explosão de blogueiros picaretas vai parar. Culpar jornalistas pelas posturas e posições dos jornais é como querer culpar os bancários pelos juros altos e ganância dos banqueiros.

Minha leitura foi que ele não teve intenção de atacar os jornalistas, mas sim os patrões. Expressou-se equivocadamente. Agora é tarde. Não adianta mais dizer que a convocação à violência se dirigia aos meios de comunicação e não aos repórteres. O assunto será explorado à exaustão pelo anti-petismo desvairado. De qualquer modo à incitação contra os veículos seria crime do mesmo jeito. Existem outras maneiras de combater a manipulação e as mentiras recorrentes da grande imprensa, liderada pela Rede Globo.

Comecei falando da pisada na bola de Crispiniano, assunto do dia, e que não posso deixar de abordar, até porque está relacionado com o que escreverei mais adiante. Se faltava munição para detonar o PT e favorecer, de alguma forma, a mobilização do dia 13 em Natal, o presidente da FJA deu-a de graça. Se este texto tivesse sido escrito ontem, ele ficaria de fora porque a ideia original era falar sobre um certo discurso acrítico, idealista, meio sem noção sobre a imprensa. Que fica bem na boca de um foca, mas não de colegas que militam ou militaram em redações e conhecem como as coisas funcionam.

Coisas como venda de manchetes; de páginas inteiras, disfarçadas de material editorial produzido pela redação; coberturas favoráveis a partidos e políticos, com acerto em dinheiro ou favores. Alinhamentos político-ideológicos. Transações tenebrosas que os leitores sequer desconfiam. No entanto, na cabecinha de alguns colegas, trata-se de uma instituição imaculada. Como se Umberto Eco tivesse ido buscar inspiração no além para escrever o seu romance “Número Zero”, que desnuda um tipo de jornalismo que não nos é estranho.

É certo que as pessoas acabam se acostumando e naturalizando certos trabalhos. Por mais insalubres que sejam. Isso implica que a leitura delas sobre esse ofício não corresponderá a de quem está observando de fora. Um exemplo metafórico pode ser o trabalho de um gari. O cara está ali, enfrentando bravamente o fedor, é seu trabalho digno, mas não deve se iludir achando que sente o cheiro de rosas, porque isso se chamaria ingenuidade ou alienação. É importante preservar a consciência do real.

Não existe espaço para romantismo ou idealização com relação à imprensa brasileira. Esse é o ponto. A história mostra que ela sempre esteve politicamente alinhada às classes dominantes. A campanha que levou Getúlio ao suicídio; o apoio ao golpe de 1964; à eleição de Collor; a tentativa de fraudar a eleição de Brizola, no Rio; a defesa da privataria e a postura entreguista são marcas dela.

Apesar de todo esse brilhante histórico, eu confesso que ainda fico surpreendido e enojado com as formas parcial e desonesta como o petrolão é tratado, enquanto outros escândalos não merecem 1% de cobertura. É incrível que somente os maus feitos do PT sejam apurados e punidos, enquanto que os do PSDB sejam todos varridos para baixo do tapete. Felizmente, hoje existe a Internet que faz o contraponto e algumas vezes desmascara essa cobertura viciada e cara de pau.

No caso presente, não interessa de verdade a grande parte da imprensa se o PT cometeu crimes. Não é esse o ponto em questão para ela. Eu acho que cometeu e errou politicamente, se aliando ao que há de pior na política brasileira. Ganhou uma periclitante governabilidade em troca de sua alma. Está pagando o preço dos seus erros, amplificados e massificados por uma imprensa que, com exceções que apenas justificam a regra, está determinada a ir até as últimas conseqüências para destruir qualquer possibilidade presente e futura de um governo popular.

Comentários

Há 8 comentários para esta postagem
  1. Tácito Costa 8 de março de 2016 15:57

    Como comentei em post no Substantivo e chamei no Facebook as polêmicas declarações do poeta Crispiniano Neto, considero meu dever publicar aqui e lá sua nota. Equilibrada e sóbria, encerra com um pedido de desculpas: “Ao retirar as palavras inadequadas e desagradáveis a quem se sentiu ofendido, considero encerrado o assunto.” Por mim, está aceito. Vida que segue.

    ********
    Nota à imprensa sobre postagem no Twitter

    Reconheço que atuei em tom acima do normal nas redes sociais em resposta ao excesso de provocações e de manipulação que ora atingem o partido a que dediquei a minha vida e os meus sonhos desde um ano antes de ser ele oficialmente fundado.

    Minha relação com a imprensa, instituição com que convivo por dentro, há quatro décadas, sempre foi cordial e civilizada, mesmo tendo que exercitar por todas estas décadas, diariamente a mensagem de Evelyn Beatrice Hall, tão confundida como sendo de Voltaire: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você está dizendo, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

    Quero isentar da minha atitude pessoal, a Fundação José Augusto, pois a postagem foi feita do meu computador pessoal, na minha conta pessoal do Twitter, durante um final de semana, da minha residência, portanto, fora do expediente. Nada a ver com a instituição. Todos os profissionais de imprensa que se interessam pelas notícias da cultura são testemunhas de como são bem tratados naquela instituição pública.

    Quero deixar claro, que se carreguei nas tintas foi uma atitude isolada, pessoal, longe, porém do intuito de incitar quem quer que seja à violência. E afirmo peremptoriamente que em momento algum tratou-se de posição partidária, pois estive em reunião do PT na última sexta-feira (04.03.2016) e nada ouvi neste sentido por parte dos dirigentes e demais lideranças da sigla. Tampouco incitei ninguém a nada durante aquela reunião, pois sequer inscrevi-me para falar.

    Tampouco tem sentido querer comprometer o governo Robinson Faria ou a pessoa do governador, pois, dentro deste governo, que é democrático e de coalisão, existem divergências ideológicas naturais e nunca questionamos a postura correta do governador, quando qualquer colega de equipe diverge do PT.

    Espero que a democracia prevaleça para todos e que a verdadeira incitação à violência e agressão à democracia por parte de tantos, todos os dias, seja tão criticada quanto estou sendo.

    Quanto aos que se preocupam com alguma suposta atitude da minha parte em relação aos atos públicos dos adversários do PT no próximo dia 13, que fiquem tranquilos, pois nunca marquei presença em nenhum dos que aconteceram, desde 2013. Meu mau gosto nunca me obrigou a tanto. E não será agora que irei me ocupar de assisti-los. Como das outras vezes, os tratarei com meu mais distanciado respeito.

    Retiro toda e qualquer palavra ou frase que possa parecer incitação à violência e reitero todas as minhas preocupações e repulsa ao momento de agressão e ódio ao PT, ao Governo democrático de Dilma Rousseff, à democracia brasileira em geral e às conquistas dos milhões de brasileiros que melhoraram sensivelmente de vida nos últimos 13 anos.

    Ao retirar as palavras inadequadas e desagradáveis a quem se sentiu ofendido, considero encerrado o assunto.

    Saudações democráticas a tod@s

    Crispiniano Neto

  2. José de Castro 8 de março de 2016 13:50

    Boa reflexão… Gostei…

  3. Wecsley Mariano 8 de março de 2016 10:32

    Muito boa reflexão! Eu acho que o problema do PT na atualidade, é querer ser menos corruPTo. Todos são corruptos, tá na hora de assumir e isso e cobrar que todos sejam punidos iguais e não apenas eles. Mas a a arrogância dos inquebráveis não se dobra, e estamos neste desgaste político.

  4. Marcel Lúcio 8 de março de 2016 6:16

    Em tempos de posturas desequilibradas que beiram o irracional, uma excelente reflexão sobre a imprensa e a política.

  5. Hugo macedo 8 de março de 2016 1:23

    Maravilha de texto.

  6. Anchieta Rolim 8 de março de 2016 1:10

    EU GOSTEI!

  7. Leilton Lima 8 de março de 2016 0:10

    Parabéns colega.

  8. Anna Karlla 7 de março de 2016 23:31

    Disse tudo. Parabéns pela lucidez de sempre

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo