Criticar ou não criticar, eis a questão

Por José de Castro

Ultimamente tenho presenciado várias discussões em rodas literárias que vêm questionando a questão da existência ou não de uma crítica literária aqui no estado do Rio Grande do Norte. Trata-se de uma questão delicada que tem implicações com o ofício de um universo de pessoas que se dedica à arte literária em seus diversos gêneros.

Fala-se, inclusive, que o RN é mais rico em poetas do que em prosadores. Dentre os que se dedicam à prosa, os romancistas estão em número menor, destacando-se mais os contistas e os cronistas, com uma certa prevalência destes últimos. Acontece que a crônica é um gênero muito utilizado em jornais e em blogs, com uma boa estirpe a representar essa vertente literária.

Desde a época em que existiam apenas as edições feitas pela Livraria Clima, do livreiro Carlos Lima, a produção literária no Rio Grande do Norte cresceu muito. Houve um incremento de publicações, por exemplo da Editora Universitária – EDUFRN. Surgiu o selo edições Sebo Vermelho, criado pelo sebista Abimael Silva, por volta de 1985. Apareceram novas editoras, como a Sarau das Letras, a CJA Edições, a Jovens Escribas, a editora Tribo, a Fortunela, dentre outras, inclusive alguns selos menores que também lançaram e lançam livros de forma independente.

A verdade é que hoje está muito mais fácil de se publicar um livro aqui no Rio Grande do Norte do do que há vinte anos.

O Sebo Vermelho, do sebista Abimael Silva, nos seus 30 anos de existência, contabiliza cerca de 420 obras lançadas, com previsão de mais uns 15 títulos até o final desse ano. Diga-se de passagem que este é um dos poucos sebos, senão o único, que se dedica também ao campo editorial no Brasil.

A CJA Edições, dirigida por Cleudivan Jânio, completando 3 anos agora em agosto de 2015, conta com 60 livros impressos e 12 livros digitais, e tem uma meta de publicar cerca de 20 livros até o final desse ano.

A editora Sarau das Letras, tendo à frente os escritores David de Medeiros Leite e Clauder Arcanjo, com 10 anos de existência, já publicou 118 títulos, com uma previsão de mais 10 livros até o final de 2015.

A Jovens Escribas, liderada pelo publicitário Carlos Fialho, comemorou 11 anos em março de 2015. Em 10 anos de existência, publicou 60 livros e está com a meta ousada de publicar 60 livros até o final de 2015, ou seja, publicar em um ano a mesma quantidade de livros que levou 10 anos para publicar até agora.

É claro que existem, além destas, outras alternativas de publicação de livros, autores independentes, o que tem contribuído para o aquecimento desse mercado editorial,

Então, a pergunta que se faz é a seguinte: se hoje há um volume maior em quantidade de livros publicados, como é que está a qualidade do que se vem publicando?

Aí é que entra a questão da crítica literária. A partir do olhar de uma crítica especializada, não se pode dizer com precisão e nem se pode entrar em maiores detalhes sobre a qualidade da literatura praticada aqui nas terras de Poti. Porque, na verdade, a crítica literária é algo hoje colocado “sub judice”. Quem é o crítico literário hoje? Existe? Qual é o seu perfil? Quem ousaria ser denominado hoje um crítico literário?

Na verdade, segundo o escritor e jornalista José Castelo (Curitiba, PR, autor do romance Ribamar), a crítica literária é algo que foi praticado no século XX. Hoje, segundo ele, não mais existe. Teria sido sepultada junto com grandes nomes que se dedicaram a essa lide no passado, como Wilson Martins, Álvaro Lins, Sérgio Milliet, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Buarque de Holanda, Tristão de Athayde, dentre outros que já se foram.

E aqui no Rio Grande do Norte? Chegou a existir uma crítica literária dessa magnitude, mesmo no passado? Ouso dizer que não. Sempre tivemos, aqui e ali, alguns nomes com mais respeitabilidade no meio intelectual que fizeram ou fazem resenhas, ensaios, crônicas, e publicaram/publicam algum inventário sobre a produção potiguar. Mas nada que possa ser chamado de crítica literária, uma atividade que muitos olham com desconfiança quando se pensa em avaliações, aprovações/reprovações, que podem ser catalogadas mais como atitudes de julgamento do que de interpretação e análise literária. Muitas vezes, fruto de vieses de um grupo ou outro que pode destilar ironias, sarcasmos, rancores ou maledicências, de acordo com as suas preferências, pobreza, inveja ou mesquinhez intelectual. Que nos seja afastado esse cálice!

No RN, como nos demais estados da federação, sabe-se que existem resenhistas, especialistas em teoria literária, cronistas e leitores com maior ou menor formação/informação na área das letras, e que se guiam pela paixão de ler. Há muitos jornalistas que fazem da leitura de obras literárias uma de suas praias da informação, pois têm um compromisso com os leitores de suas colunas, sejam elas impressas ou digitais. E colocam notas sobre esse ou aquele livro que leram ou que estão lendo. Passam aos leitores uma informação que se aprofunda um pouco mais sobre o livro e enveredam pelo encantamento ou não que a obra lhes despertou. Indicam outras leituras que a obra lhes suscitou. Estabelecem analogias com autores de outros tempos ou de outras geografias. Muitos desses resenhistas/cronistas/articulistas são também autores. E desfrutam da mesma paixão pelo livro e pelo ato da leitura como qualquer leitor, seja amador ou profissional.

Finalmente, pode-se dizer que o rigor da análise literária, a precisão teórica com que uma obra poderá ser analisada ainda está longe de uma imparcialidade que nós humanos ainda não sabemos ou ainda não estamos preparados para exercer. Então, à luz disso, só nos resta agradecer a bênção de, felizmente, saber que a crítica literária está morta, que é algo do passado. E que poderemos continuar publicando livros, indo a saraus, a lançamentos e a outros eventos literários para abençoar este ou aquele livro, deste ou daquele gênero, desta ou daquela editora, deste ou daquele autor ou autora.

Arriscaria dizer que a verdadeira crítica literária é o filtro do tempo alimentado pelos olhos do leitor, pelos olhos dos que ainda têm a paixão pela leitura e que se encantam em visitar uma livraria, que frequentam os lançamentos literários e que gostam de conhecer bibliotecas e eventos lítero- culturais em geral, inclusive saraus e similares. As obras de qualidade resistirão ao fator tempo. Essas são as que serão lembradas, que serão procuradas nas livrarias e nos sebos, que estarão nas bibliotecas, nos espaços de leitura e, principalmente, na mente e no coração dos leitores.

E, o melhor de tudo: não serei eu a dizer que obras são essas. Cabe a você, leitor, diligentemente, com paciência, descobrir com seus próprios olhos as obras-primas que se produzem por aqui e pelo Brasil afora. Afinal, nunca se publicou tanto como agora por essas terras potiguares. Aproveite a onda e surfe na publicação e na leitura. Navegar é preciso. Ler é necessário. Criticar é para quem não tem juízo.

 

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. thiago gonzaga 18 de junho de 2015 14:57

    Muito obg pelo link do texto caro João Batista.
    Caro José de Castro eu voltei pra comentar seu texto, mas , esse texto que o Joao Batista mandou realmente é uma especie de complemento do seu texto e da nossa visão.

    • Tácito Costa 19 de junho de 2015 9:44

      Grato João Batista. Como disse Thiago os dois se complementam. Gostei de ambos.

  2. Tácito Costa 16 de junho de 2015 10:07

    Considerações pertinentes de Castro. A crítica é importante. Claro. Mas, se não existe a literatura segue em frente. Para quem escreve por paixão isso é irrelevante.

  3. thiago gonzaga 15 de junho de 2015 22:17

    Gostei muito do seu texto José de Castro.
    Voltarei aqui para tecer alguns comentários sobre ele.

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