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Abimael, o homem que amava os livros

Esta é uma história ficcional do personagem Abimael, mais um Silva fodido deste Brasil iletrado. Ora, só na ficção alguém sair do município de Arez para ganhar a vida em Natal – a cidade onde se paga 200 para não se ganhar 20 ou a capital que não consagra nem desconsagra ninguém – com um sebo de livros.

E só na ficção um Silva qualquer sair de Arez, conseguir emprego seguro de bancário em Natal e largar tudo para viver de livros e leitura. Abimael podia estar roubando, matando, mas não, ele escolheria ainda o centro da cidade, já no início da decadência do bairro, no distante 1985, para começar essa história.

Na vida real ou nesta crônica, 1985 foi o ano mais escroto da década: fim da ditadura, Rock in Rio, morte de Tancredo, Bangu campeão, ursinho blau blau, “não se reprima”, figurinos de viúva Porcina e Madonna, chicletes Ploc, new wave, Armação Ilimitada e o sebo de Abimael e seus 20 e poucos, no centro da cidade.

Já naquela década, Natal tinha, em cada esquina um camelô, em cada rua um marginal. E apesar da recente publicação de ‘Marrons Crepons Marfins’, só um doido acreditaria que um Silva de Arez tiraria sustento com um sebo numa cidade analfabeta cuja fundação de cultura era comandada por um advogado macaibense de carreira política.

Só num enredo utópico anti Fahrenheit 451, Abimael transformaria ainda um sebo em editora, numa cidade iletrada, cuja fundação de cultura… e etc. E manteria uma média de 30 livros editados ao ano. E alcançaria centenas de títulos publicados. E superaria qualquer ano de qualquer fundação de cultura de um estado iletrado… etc.

Abimael no País das Maravilhas, vindo de Arez e vivendo de livros, conseguiria espaço nacional no prestigiado Programa do Jô, duas páginas inteiras na revista Carta Capital e três meses em cartaz no teatro Villa Lobos, no Rio de Janeiro, com a peça inspirada no livro editado por ele, chamado 69 Poemas de Chico Doido de Caicó.

Abimael Gump, o Contador de Histórias seria responsável pela publicação de praticamente todos os livros relacionados à participação de Natal na Segunda Guerra e pela história de pelo menos 40 dos 167 municípios potiguares editada em livros. Abimael, o Homem que Copiava, editou e reeditou livros esquecidos e praticamente inacessíveis ao leitor.

image_previewAbimael seria esse personagem impensado nesse cotidiano digital de poucos caracteres. Seria o maior sebista-editor do Brasil e quiçá da América do Sul. E um colecionador de livros possuidor da maior biblioteca particular de literatura potiguar e com títulos os mais raros da bibliografia local.

Abimael seria, pois, de outro mundo. Um mundo anarco-etílico-analógico. Nunca seria real no universo do capital digital. Ou nessa new generation celebrity-feminista. Ou numa cidade de bibliotecas fechando, de mais eventos e menos lançamentos. De mais etiqueta social e menos socialismo.

Por isso, o personagem dessa ficção moraria num globo fechado por um portão de ferro vermelho, cercado de livros, uma cadeira velha de balanço, uma máquina de escrever e algumas cervejas. Um lugar pacato, surreal ao caos do centro da cidade. Ali, Abimael figuraria como um guardião de livros contra a temperatura Fahrenheit do novo século.


Fotos: João Correia Filho

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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