Crônica de um ficcionista anunciado

Por Thiago Gonzaga

Foi bonita a festa.
As cores da tarde emprestaram ao seu rosto
uma tonalidade fulgurante.
Aldo Lopes in Solidão, Nunca Mais

Escrevi recentemente sobre o novo livro de contos do escritor Nelson Patriota, e, no texto, comentei que a literatura potiguar vive atualmente dois momentos: cada vez mais nos afirmamos na seara do conto, criando sustentação para a narrativa ficcional, mas, há um problema, a falta de acesso ou interesse a obras literárias por parte da comunidade local, problema este ocasionado, inclusive, pela precária distribuição das obras editadas. Iniciativas válidas de alguns escritores e editoras locais têm contribuído para maior difusão de determinados livros, mas, o que se faz, ainda é pouco, tendo-se em vista a boa qualidade de obras que foram publicadas apenas nesse primeiro semestre de 2015. Como exemplo cito os livros de ficção, Havana, de Aluísio Azevedo Júnior, Carla Lescaut de Cefas Carvalho,  Perto do Chão de Túlio Andrade e  O Amor Fora de Época de Felipe Flores de Demétrio Vieira Diniz

A literatura potiguar, evidentemente, faz parte do sistema literário brasileiro. Entendemos que, esse sistema é um conjunto de fatores – os autores e obras produzidas dentro de um mesmo código linguístico, o público leitor, etc – que garantem à arte da escrita uma determinada regularidade, uma permanência, gerando a tradição. Sem dúvida, os leitores são o componente essencial do referido sistema, pois sem leitores permanentes, nenhuma literatura pode se desenvolver; através deles, se estabelece uma rede de comunicação de ideias e gostos, surgem debates, estímulos, rejeições, experiências, opiniões e valores estéticos. São esses mesmos leitores que vão criar uma ponte, uma linha de continuidade entre o passado, o presente e o futuro da vida literária de uma cidade, de um Estado, de um país.

Refleti sobre isso após ler o novo livro de contos do escritor Demétrio Vieira Diniz, O Amor Fora de Época de Felipe Flores, (Ed. Bagaço, 2015), (o titulo remete um pouco aos romances de Gabriel Garcia Marques; há inclusive traços de realismo mágico em alguns contos).

O autor soube usar de sua capacidade técnica apurada para obter um melhor resultado literário em seu texto, estimulando, inclusive,  em novos leitores o prazer pela leitura. Assim como ele, outros ficcionistas potiguares vêm mostrando, há muito tempo, potencial para romper os muros provincianos, basta ler obras de ficção de Nei Leandro de Castro, François Silvestre, Bartolomeu Correia de Melo, Aldo Lopes, Francisco Sobreira, Tarcísio Gurgel e Manoel Onofre Jr. O livro de Demétrio é uma bela amostra da representatividade da literatura potiguar, e desperta no leitor o que Freud, o pai da psicanálise, chamou de “constelação mental”, ou seja, ativa a capacidade de fantasiar ao depositar no texto uma alta carga emocional, num verdadeiro momento de catarse literária. Demétrio Vieira Diniz, que, ao lado de Bartolomeu Correia de Melo, está entre os melhores contistas nordestinos da nova safra, brinca com a possibilidade de criar situações, alterando por meio do texto a percepção da realidade do leitor, tornando a narrativa mais intensa através da nossa atividade imaginativa, numa obra para se ler de um folego. Atento às transformações da sociedade, o autor nos leva para o mundo ficcional, a partir da identificação com as  suas personagens. Sorrindo, sofrendo e sentindo as vicissitudes que lhes são impostas.  Todos os contos carregam um vasto repertório de símbolos e imagens, representações de modos de ser, de pensar, permitindo aos leitores entrarem em contato com situações, valores e crenças e até ideologias diversas.

São exemplos de momentos áureos, no livro em foco, Aline, A moça do baile, Bonecos habitáveis, Com açúcar e diabete (Neste conto uma provável, homenagem ao escritor Aldo Lopes, o delegado Rosilvaldo).

Vistos deste modo, o livro de Demétrio e a nossa literatura parecem cumprir com uma manifestação universal comum a todos os homens em todos os tempos. Como já dizia o crítico Antonio Candido, não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. De acordo com Candido, “assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. O sonho assegura durante o sono a presença indispensável deste universo, independente da nossa vontade. E durante a vigília, a criação ficcional ou poética, que é a mola da literatura em todos os seus níveis e modalidades, está presente em cada um de nós, analfabeto ou erudito – como anedota, causo, história em quadrinhos, noticiário policial, canção popular, moda de viola, samba carnavalesco. Ela se manifesta desde o devaneio amoroso ou econômico no ônibus até a atenção fixada na novela de televisão ou na leitura seguida de um romance.

E acrescenta o mestre:

“Ora se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito”.

Thiago Gonzaga é mestrando em literatura potiguar contemporânea .

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 4 de junho de 2015 10:06

    Gostei!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo