Crônica em duas partes, com um início traumático e um final feliz

Parte I

Qualquer um teria percebido minha mudança de semblante entre o térreo, no momento em que entrei no elevador, e a chegada ao terceiro andar, onde funciona o setor de FGTS, da CEF da João Pessoa. Era a quarta viagem à agência pra tentar resgatar parte do Fundo. Sempre faltavam ou sobravam documentos e carimbos.

Na visita anterior (a terceira, anotem para não se perderem), finalmente, a moça recebeu e carimbou todas as xerox, mais de 50. Meia hora depois, quando eu cheguei ao trabalho ela ligou: os documentos não poderiam ser recebidos. Como ela carimbou todos com o “recebido”, eles tornaram-se nulos. Resultado, teria de refazer todas as xerox para retornar posteriormente. Além da despesa dupla com as cópias eu já tinha gastado R$ 312,00 com um documento no cartório, orientado por outro funcionário, que quando apresentei não era necessário.

Em todas às vezes, fui ‘atendido’ por uma jovem senhora, uma das mais mal humoradas e desatenciosas funcionárias públicas que já peguei pela frente em toda a minha vida. Nesta quarta e última visita, adentrar o terceiro andar e ver que ela não estava me deu um alívio comovente. Aquela energia negativa certamente me faria mal e eu temia uma discussão, embora tenha buscado me preparar psicologicamente no trajeto entre o trabalho e a agência.

Menos mal que ela não está, disse para mim mesmo. Respirei fundo e sentei, pronto para a espera de cerca de três horas, tempo médio em que fui atendido nas demais ocasiões. As duas primeiras horas naveguei na Internet. Cansei e comecei a escrever, apesar de achar um saco fazer isso no celular. Mas sem um livro não tive outra alternativa para passar o tempo.

Na primeira vez, eu minimizei o péssimo atendimento. Pensei: “deve estar num dia daqueles, com algum problema grave, talvez filho doente, que nos tira do sério”. No segundo, já achei que seria coincidência demais aquele mau humor e a essa altura uma barreira de incomunicabilidade que lembrava os filmes de Antonioni.

Na segunda e terceira não havia mais dúvida que estava diante de alguém com sérios problemas de relacionamento humano e sempre bem disposta a espalhar isso em seu entorno. Tem gente assim aos montes nos cercando. E de alguns não podemos escapar. Como foi o caso.

Parte II

“Senha SHC 222”, aponta o painel, reforçado pelo chamamento do meu nome por um rapaz.

Demoro um pouquinho para sair do celular e chegar à mesa onde serei atendido. Quando sento digo ao jovem funcionário: “estava escrevendo uma crônica”.

“O Senhor gosta de crônicas? Quem são seus cronistas preferidos”?

Arregalei os olhos, para ver se não estava diante de um ET disfarçado ou falso terrorista do EL, antes de dizer alguns nomes óbvios, que a pergunta assim de surpresa, quando eu esperava mais aporrinhação, me pegou totalmente desprevenido: “Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Marina Colassanti, Drummond…”.

Com uma deixa dessas não resisti e perguntei: “Você gosta de literatura?”

– Sim, Bukowski (percebam, ele não disse Charles Bukowski, apenas Bukowski, o que sinaliza para uma intimidade com o autor), os Beatniks, Kerouac… Não era o senhor que estava na palestra do escritor Nonato Gurgel na semana passada na Fundação José Augusto sobre a poeta Ana C?”

E eu cada vez mais passado ali na frente ouvindo, enquanto ele dava seguimento ao trabalho. A essa altura eu já tinha pegado meu preconceito e dado um nó cego. Embora tenha me consolado um pouco saber que pegar um burocrata público pela frente com esse nível de interesse e de leitura não seja algo corriqueiro.

Achando tudo aquilo muito estranho para os meus parâmetros e ainda traumatizado com a moça mal humorada, quis saber o que ele estava fazendo ali porque alguma coisa não batia.

Conta-me que concluiu um curso de gestão e passou em um concurso para a CEF. Tem um bar, com uma proposta alternativa, juntando música e arte, que funciona nos finais de semana, o “Acabou Chorare”, em Ponta Negra. Ou seja, não é o burocrata chapado que conhecemos.

“Temos um portal de cultura, o Substantivo Plural, depois acesse”, tem a ver com o projeto do bar”, digo-lhe em tom de despedida e super aliviado, diria mesmo, emocionado, por ter sido bem tratado e ter dado tudo certo desta vez (é a esperança, não me surpreenderei se chegar uma ligação dizendo para refazer tudo).

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 25 de Julho de 2016 15:40

    Só você mesmo, Capitão. Fosse comigo, com certeza tinha perdido a oportunidade de conhecer esse figura massa. E sabe porque? Eu tinha mandado logo de cara a Caixa e seus funcionar se FODEREM rs,rs… Bela crônica. Abraços!!!!

  2. Anchella Monte 25 de Julho de 2016 20:27

    Não entendi a questão dos carimbos. Como ela não recebeu se carimbou? Por que precisou xerocar tudo de novo? Desculpe, Tácito, estou ficando “lenta”… Mas já me aconteceu, acho que com todos nós, situação parecida, parece que mergulhamos em um processo ao estilo Franz Kafka. Tem gente que sente prazer em torturar os que de alguma forma estão em sua dependência. Conheço o Acabou Chorare, Carlos Pontanegra costuma tocar lá aos sábados, artista que admiro muito. Dia desses junto com Pedro Mendes. Valorizam nossos artistas. O espaço é pequeno, quase/ meio na rua. Gostamos de ir lá.

  3. Alex de Souza 1 de Agosto de 2016 11:53

    Eita, achou o Hermes! hahahahaha!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP