Crônica para o início do ano

O primeiro dia do ano é propício para você estabelecer propósitos e metas. Pensar em projetos que sejam essenciais para marcar a sua passagem aqui na face da Terra. Principalmente estabelecer acordos entre o seu eu mais profundo e o que mostra aos outros na superfície. Que exista um equilíbrio entre a sua face verdadeira, sua essência, e o que consegue evidenciar na casca da aparência.  E sentir-se satisfeito consigo por não mascarar um jeito de ser que não corresponda ao seu eu real. Esse é o acordo entre o que é verdadeiro e o que pode soar falso. Precisamos olharmo-nos no espelho e sentir que estamos vivendo conforme o que determina nossa alma. Ser verdadeiro é tudo o que a vida nos pede. Sob pena de estarmos trapaceando conosco e nos iludindo.

Avancemos um pouco mais acerca de projetos. Um deles pode ser o de dar mais atenção aos nossos sonhos. Principalmente aqueles que acontecem quando estamos despertos. Esses são os melhores, os que andam de mãos dadas com as utopias. Sonhos e utopias são diferentes da ilusão. Utopias nos levam a vislumbrar para além da mesmice que tenta nos subjugar no dia a dia. Fazem-nos avançar. Ilusão é viver se enganando, num faz de conta, e tomando isso como verdade.

O sonhar acordado é diferente. É a busca de algo que sabemos que ainda não existe, mas que queremos alcançar em algum momento da jornada. Sonhos, assim como as utopias, nos mostram um cenário que almejamos como ideal para nós, para o outro e para o mundo que nos cerca.

A utopia é a antevisão dos mundos improváveis, mas que podem ser alcançados a partir de uma coleção de atitudes coerentes com esse projeto de realizar o impossível. Parece coisa de louco? Sim. E o que é normal nesse mundo tão contraditório e cheio de paradoxos? Transitar no mundo dos sonhos e das utopias é algo que nos leva a pensar e a repensar o mundo. Uma tentativa de se enxergar uma brecha pela qual o universo poderá ser convocado como nosso aliado para realizar uma transmutação de tudo o que precisa ser transcendido e ultrapassado.

ilustração: Francesca Da Sacco

O novo poderá surgir de um corolário de vibrações e atitudes desencadeadas a partir de uma somatória de energias que se condensam e depois, feito nuvens de chuva, despencam sobre a superfície, fazendo brotar algo que seja diferente.

O mundo, com a configuração que hoje nos é apresentada, surgiu do sonho de pessoas que assim o projetaram num passado remoto. E muitas dessas “profecias” como, por exemplo, do pensador canadense Marshall McLuhan, já aconteceram, como a “aldeia  global” de que ele nos falava nos anos 1960.  O “grande irmão”, big brother,  de Orwell aí está diante dos nossos olhos. Algumas das viagens espaciais antevistas na ficção já se prenunciam, ainda tímidas, mas vêm acontecendo. A medicina avançou e hoje possibilita uma sobrevida impensável em épocas da humanidade, em que a expectativa de vida era, no máximo, de 45 anos. Os códigos do DNA vêm sendo desvendados a cada dia. Doenças tidas como incuráveis, muitas delas, já foram vencidas.

O maior mistério de todos, porém, essa ocorrência aparentemente simples, chamada “vida”, continua desafiando todos os cérebros do mundo sem que consiga ser desvendado. Até hoje, nunca se criou, do nada, um ser vivente. Sempre se parte de um resquício, de alguma fração de vida antecedente para se criar outra. Os clones são um exemplo claro disso.

Então, dentre os sonhos e das utopias, nesse caso “ucronia”, existe o de “ser eterno”. O que significa a existência que ultrapassa todos os limites do tempo e permanece inalterável, com o mesmo viço de sempre, em cada célula do corpo ao longo das eras. E sem passar pelo ritual de experimentar o sopro inevitável do “último inimigo”, que é a morte.

Este seria um bom sonho, uma utopia desejável a nós mortais? Fica a pergunta, devendo existir os que são favoráveis e os que são radicalmente contra.

A verdade é que vimos sendo modelados para uma existência em que tudo tem começo,  meio e fim. Nada é eterno. Tudo é transitório. Não conseguimos, ainda, abarcar a ideia de perenidade e de infinitude. São conceitos, meros conceitos. Nossa mente não consegue ultrapassar as barreiras que os delimitam. Além, paira o incognoscível, o improvável.

Contudo, posso arriscar que o sonho de todo o ser humano é exatamente esse. Viver eternamente, perdurar ao longo das eras e experimentar de tudo. A vida é muito curta para se conhecer todos os países, explorar todas as geografias e desfrutar as maravilhas que se apresentam.  Mal  conhecemos o Planeta Terra, quanto mais as milhares de galáxias que se estendem universo afora. Enfim, é provável que exista o desejo de viver o quanto necessário para descobrir – e quem sabe – interagir e usufruir do conhecimento de civilizações e culturas mais avançadas que a nossa.

E então? Esse pequeno grande sonho pode ser colocado em seu menu de desejos para o Ano Novo que se inicia? Colher a eternidade num cálice de cristal de sonho, sorvê-la avidamente, e deixá-la imbuir todo o seu ser? Fica a pergunta no ar.

Falar nisso, na última compra que fiz, na antevéspera do novo ano, recebi uma folhinha, um calendário de 2021. Hoje é o primeiro dia do ano. As compras foram para a virada. Tudo indica que amanhã, novamente, será dia de feira. Mais um dia na eterna cantilena do consumo. Um quilo de feijão dura cerca de quinze dias. Um de arroz, quase isso. Um espumante, da melhor marca, dura entre a primeira badalada da meia-noite e os cinco minutos seguintes.

Percebo que um grama de poesia, – um haicai, um poetrix –  um aforismo  ou uma fração de crônica podem durar muito mais. Imagino que isso deva ser a tal eternidade. Afinal, utopia em nosso país, para muitos, pode significar ter o arroz com feijão no prato todos os dias. Alcançar o direito de ser gay ou lésbica. Obter a marca de um feminicídio a menos por minuto. Vencer o preconceito de cor. Respeitar a natureza. O menino, avião de favela, saber que estará vivo no próximo minuto. Ou recolocar o Brasil nos trilhos, depois de 2022, via urnas. Utopias? Talvez.

Por enquanto, meu desejo é o de voltar a abraçar amigas e amigos, filhos e filha, netos e netas e sair flanando por aí, caminhar na praça, pela praia, tomar um café ali na esquina. Mas, para isso, imprescindível a vacina – contra o vírus invisível e contra os visíveis também.

Anotei isso e soprei numa haste de pétalas de dente-de-leão junto com os votos de mais solidariedade e poesia no coração de cada ser vivente. Que voem longe e voltem na asa de outros ventos trazendo a semente da cura dos males que ainda hoje amargamos. Talvez, isso sim, seja um bom sonho para todos nós.

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

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