Crônica para uma saudade

Ele era tão antigo que dava até para praticar medicina sem ser médico, nem ser preso. Não era bioquímico, tampouco. Mas fabricava remédios, com água de chuva, em objetos tão antigos quanto ele. E curava doentes, aliviava dores. Jornalista… Bem, algumas vezes inventou de escrever e imprimir jornais. Uma vez, um desses jornais foi empastelado, outra vez ele foi preso, isso em 1932, quando o chefe de polícia era Café Filho. Depois, virou conservador, ficou do lado do governo na época da ditadura, o pior momento da história para se ficar do lado de algum governo.

Era padrinho de uma procissão de afilhados. Penso que quando eu vivia ao lado dele, a palavra que mais se escutava em casa era benção. Sua benção, sua benção, sua benção. Ele tinha abençoado muitos com saúde, por causa dessa história de ser médico, mesmo sem ser. Naquelas eras de desamparo, a cura representava muitas vezes um quase milagre e os herdeiros dos pajés, como ele, eram reverenciados.

Ele tinha uns tantos desafetos, porque, além dessas atividades, inventou de ser político. Mas faço questão de dizer que era honesto, ora se faço. Antigamente, tinha uns políticos que ficavam mais pobres depois da ilusão da politicagem. Meninos, ele chegou a perder um imóvel. Eu vi!

Mas não quero dizer que era santo. Anjo, ele virou depois. Em vida, era alguém com alguns defeitos e insuperáveis qualidades. Para mim, naquela era antiqüíssima, ele era um paletó com gravata borboleta de bolinhas, dois bolsos cheios de confeitos que eu alcançava erguendo os braços e um colosso que brincava comigo.

Foi a primeira pessoa amada que eu vi morrer e porque senti eu mesma o bafo da morte essa semana, aferrei-me à lembrança dele. Hoje eu poderia estar morta, porque fiz o que ninguém jamais deve fazer: reagi a um assalto. Quando se faz isso sem querer (a reação foi absolutamente involuntária), a sensação posterior de horror é algo indescritível. A noite gótica desperta todos os temores, a quase morte amedronta os ossos. Para acalmar os pavores, eu busquei em mim a lembrança desse anjo.

Enquanto escrevo, ele me olha por trás dos óculos. E pensar que já se vão quase trinta anos sem ele… Nos seus últimos dias, passava o tempo a bordo de um pijama, deitado numa rede, entre balanço e pigarros. Queria talvez uma morte cultuada e prolixa, vivia a se despedir de toda a sua linhagem, dos que haviam passado e dos que passariam. Mas a morte, a dona das trapaças, uma noite meteu-se no sono dele e lhe arrastou a consciência. Ele não teve tempo nem lucidez para dizer adeus. Durante anos, arrastei uma mágoa por ele não me ter reconhecido no meio do ataque súbito da fatalidade. Olhou-me e não me viu. Agonizava, já, eu não sabia.

Foi a primeira pessoa amada que eu vi descer à terra e até hoje acredito que essa visão desencadeie um ritual de passagem. Um instinto com natureza de repentes nos dá a dor dilacerante quando alguém amado desce à terra. Outro instinto sem controle nos faz reagir sem querer a um assalto, por exemplo. Enquanto eu cá vivo na primariedade dos instintos, ele conquistou a natureza dos anjos. Dos anjos da guarda, para a minha sorte.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

ao topo