Crônicas do Sertão I

De repente, ali mesmo, no final da ribanceira, os aguapés refletidos no sol do açude refaziam-me a mesma imagem dos Jardins de Monet. O sertão, aquele instante, amostrava-se enquanto universo físico inexplorado pela própria visão do sertanejo urbano aculturado.
Eu bem que poderia estar em qualquer lugar, na própria França, procurando as imagens que me construíram. Mas eu estava lá, subindo sem pressa, a serra do Cuité em busca da Sertanília. Não é viagem quando se vai a lugares próximos, já me dizia um amigo, mas ele só observava a dinâmica da mecânica e esquecia-se que quando se vai, visitam-se dimensões que não estão no plano da matéria. Comer a carne de sol com cuscuz e leite de vaca do Seridó, é uma possibilidade, mas comer esta mesma carne em Florânia na bodega de seu João é degustar uma parte do Seridó e ser Seridó também.
Em Acari, minutos atrás, uma dessas dimensões se abrira em forma de história. O Museu do Homem Sertanejo mostrou-me, em parcelas, a fundição de um estrangeiro agreste, que se parece comigo, mas que não sou mais eu. Nunca mais sonhei em ser vaqueiro e até tinha me esquecido da feitura do queijo nas Campinas do Apodi. Se não há cuidado com as memórias, a gente vira do avesso e torna-se forasteiro do próprio chão, me disse Kydelmir Dantas, meu condutor na estrada.
Guardar o tempo é uma função sertaneja dos que ainda restaram. Pois se assim não fosse, pensaria ser louco o Filgueiras, o guardador de histórias do Casarão de Ibiapinópoles, por preservar, em sua Soledade, a solidão do passado.
Estando em Campina Grande, quem precisa de Calle Florida, proclamou Regiane, minha esposa, fazendo-me mergulhar em novas indagações: Ora, se continuamos na sertania, a quem atribuir a unificação do sol rachando os buchos de fome? É como se falássemos de um país distante, mas com a rapsódia adstrita dos teleológicos. Esta abnóxia inconsciência, em que dormimos.
Campina Grande, bem maior que a palma de minha mão. O açude velho, a praça do baião o museu fonográfico Luiz Gonzaga; o caminho para Alagoa Grande: o memorial Jackson do Pandeiro. As serras, os canaviais, a Bagaceira: Soledade, Lúcio, Dagoberto, Margarida Alves. A história recontada na subida da serra até desembocar em Areia, no sertão almeidiano de José Américo. E lá, nas construções do passado, a réstia de um tempo que teima em persistir; o clássico barrococó quebrando as eiras e as beiras e sumindo por paredes nuas. Velho progresso sem dentes que nunca sorri. A estética redundante do nada.
Vejo-me livre nos olhos pequenos de um velho tão pequeno quanto seus próprios olhos. Seu Né. Disse-me a sua graça e o seu refrão. Eu menino não o respondo sem antes por na frente o tratamento de cerimônia e respeito dispensado aos mais velhos. Bem que percebi que esse era carregado, disse dona Angelita quebrando a barra da cerimônia e abrindo a porta debaixo para eu entrar em sua cozinha. Em Sertânia, sempre nos reconhecemos e é para sempre.
Por essa hora, o frio de Nova Floresta já era duas vezes o anterior e dava dois Martins. Era de novo a voz sertânica em minhas cercanias. O abraço inviolável do espelho que por pouco não quebrara em minha memória gasta. O sertão tem cores, dizia-me o vento que me fez adormecer no mundo estrangeiro em que nasci.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

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  1. Eliana Klas 31 de outubro de 2011 14:56

    Abraços!

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