Crônicas pontuais de uma Ribeira submersa

Um novo selo editorial acaba de ser lançado no mercado natalense. Trata-se do “Arquitetura das Letras”, cujo primeiro título foi conhecido em fins do ano passado, quando o escritor Elísio Augusto de Medeiros e Silva lançou seu “Notícias de Hontem – crônicas”. A grafia propositadamente antiquada desse “hontem” que parece mergulhar nos desvãos do passado, dá o tom geral do livro, cujo objetivo é mesmo se demorar em momentos singulares da história natalense, com especial ênfase nas páginas reportadas ao velho bairro da Ribeira, descobrindo-lhe traços de uma singularidade marcante em cada rua, esquina, logradouro que anima sua geografia.

Com efeito, Elísio Medeiros vem se notabilizando como o historiador desse que é um dos primeiros bairros natalenses, ao qual está ligado também por motivos profissionais e outros, vez que dirige a Fundação Amigos da Ribeiro cuja finalidade é essa mesma que o leitor já adivinhou, de tão óbvia: revitalizar o bairro que abrigou, nos primeiros anos do século passado, o Cine Polytheama, a Agência Pernambucana, o Grande Hotel, a Peixada Potengi, a Confeitaria Delícia, nomes que evocam à sua simples menção retalhos da alma natalense. Elísio é também autor de “O Colosso do Seridó” e “Um Fusca na Cidade do Sol”.

As crônicas que fazem “Notícias de Hontem” resultam de um trabalho de seleção que o autor empreendeu sobre os artigos que vem publicando regularmente em jornais natalenses, desde alguns anos. Agora, porém, essas crônicas obedecem a um método que, embora flexível em sua exposição, tem um princípio cronológico situado no ano de 1501, evoluindo rumo aos séculos seguintes sem perder de vista a história, mas exercitando-a de modo pontual, acatando a lenda, desdobrando-a e dando-lhe um forro factual e um argumento histórico.

Para isso, Elísio Medeiros volta o foco dos seus interesses maiores para o pitoresco, o anedótico, o inusitado, o insólito, no afã de capturar eventos que parecem querer fugir ao avanço do cronista, recuando de volta ao tempo em fuga desabalada e imergindo em sombras indistintas. É aí que se distingue o trabalho do pesquisador, reunindo fatos aparentemente desconexos, relacionando uma informação encontrada num anúncio publicitário com outro evento relativo a um costume agora extinto e descobrindo-lhes semelhanças e analogias. Pouco a pouco, esse acúmulo de fatos, alguns de conhecimento geral, outros levantados pela pesquisa paciente na sucessão dos dias, vão produzindo painéis policrômicos, como um mural onde se podem acompanhar as grandes linhas que definem a fisionomia de um bairro e de uma época, a par de outras linhas mais delgadas, mais sutis, contendo informações parciais, que, quando submetidas a novas investigações, podem trazer revelações capazes de mudar um ponto de vista sobre um personagem ou um acontecimento caído no gosto popular.

Em crônicas como “1944 – Festa no Grande Hotel”, “A chegada do primeiro automóvel”, “A cigana da Ribeira”, “As velhinhas da Ribeira”, “No tempo das mnemônicas”, “O encanto da Praça Augusto Severo”, é possível discernir por trás da lente do historiador o filtro do ficcionista, esmerando-se em trazer com o máximo de detalhes o ontem fugidio.

A “Belle Époque” ribeirinha, tema caro ao pesquisador Tarcísio Gurgel, é evocada por Elísio Medeiros na crônica “Ribeira. Os bondes…”. Se a nostalgia dessa bela época salta à vista nessa errância pelo passado, é porque a anima a confiança em dias melhores no seu amanhã: “A Ribeira tem saudade do passado glorioso que viveu e continua viva, na esperança daqueles que nela acreditam, vivem e trabalham, e dos que a conheceram até os finais dos anos 1950”.

Graças a cronistas como Elísio Medeiros, Lenilson Antunes, Procópio Jr. dentre outros, a Ribeira e outros bairros natalenses recuperam pouco a pouco suas histórias cotidianas e deixam finalmente de ser uma indistinta província submersa na memória dos seus habitantes.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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