Croniqueta agônica

Antes que arde(ss)em começo difícil:
artes funerAlecrins
cortam frontais de louças destampam
bonecas que viram os olhos os cílios
mentes perturbas no tempo o sereno provado eis
a máquina de costura e a agulha inglesa
…que ingressa…
nas unhas das mãos minha mãe
a casa e a mangueira
e o meu berço molhado.

As outras casas da rua úmida
minhas tias meus tios avós e a
prima no jantar tar(dio)
e o escuro do poste apagado
a vela acesa derrete queima
provocassombros provocassonos
os muros e os barros tijolos caídos
o olho encharcado de piche de peixe
a cioba del Canto Del Mangue
o canto sereno dos barcos no cais
moleques que juntam caranguejos nos sacos
o homem do saco o homem.

Selosseios picotes de infância
o guichê cerrado e o medo
do corpo solto no ar
a queda do telhado dos galhos vetusta árvore
e a bicicleta quebrada do meu irmão:
barra-circular ampulheta cheia de areias
e a caminhada na praia do Forte
as pernas andam do pai.

Fotos esmaecidas venenos não brincam os dias
outras línguas hoje me beijam me dizem
meus óleos sobre telarames gritam em vermelhopaco
percebo no co(r)po o sofrimento das (v)u(l)vas pisadas
a transparência cristal me transtorna
me entorna o gole à boca aberta bocarra
escarra nessa barca nossais Nassau que ficou pelo norte
minha cidade NA CAL virgem na pedra do rosário.

Vinho mais doce desses teimarei?
improvisa, Ella, um jazz pro meu sono inquieto
meus santos e meu tempo Chet e Miles
e o éter torneira ainda no jardim
donde a professora castigava todos
(só eu?)
e o que vim fazer agosto?

O café-com-leite na lancheira
as quedas no parque invisível
(tia deixou não!)
e as notas altas da música
minha tabuada meu brinquedo
proibidíssimo:
os seios de Ekberg sob o olhar rude de Mastroianni.

Meu palco e meu chão
desestrelas as mesmas daqueles ventos
costume brechar moças belas por entre portassaias
– entrepernas? –
os meus riscos fósforos de sol nas nuvens
meus rasgos cetins de lua interna
meus tragos bêbados de mar no estômago
e as rinhas de galo
que sempre (voltei) a assistir
contando as patacas de prata do meu avô.

Comments

There are 6 comments for this article
  1. Marcos Silva 14 de Outubro de 2013 9:21

    O título é muito adequado, trata-se de um poema que rememora a vida em crônica – sem deixar de ser poesia. Tece um panorama muito bonito. Sugere um acúmulo de poemas – isso não é defeito, é acúmulo de qualidade. Gostei muito de na cal, não entendi o destaque em caixa alta – a sonoridade já destaca a expressão e seu eco em Natal. Os parên teses são janelas de múltiplos significados. Parabens.

  2. Lívio Oliveira 14 de Outubro de 2013 11:46

    Grato, Marcos.

  3. Oreny Júnior 14 de Outubro de 2013 12:27

    Parabens, Lívio
    .em polígonos, trancei as avenidas 8, 9 e 10, em saltos, feito macunaíma, nos cipós. Um belo texto,
    Abração!

  4. Lívio Oliveira 14 de Outubro de 2013 16:17

    Valeu, Oreny, pela força! Abraços!

  5. ANCHIETA ROLIM 15 de Outubro de 2013 10:11

    Que beleza, Lívio. Eu ando meio “desinspirado ” ultimamente. Parece que o livro Contagem Regressiva, esvaziou meu pequeno e pobre estoque poético que me restava. Parabéns, poeta!

  6. Lívio Oliveira 15 de Outubro de 2013 14:34

    Valeu, Anchieta. Esse poema é do meu último livro, “O Teorema da Feira”. Precisei vê-lo nesse espaço bem melhorado do SPlural. Abraços.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP