Cuba, sonho que virou pesadelo

Por Clóvis Rossi

Silêncio cúmplice da esquerda brasileira mostra como é difícil desfazer-se de uma lembrança sentimental

A CÚPULA ibero-americana de 1998, na cidade do Porto, coincidiu com o aniversário do então chanceler Luiz Felipe Lampreia. A comitiva brasileira, sob a chefia de Fernando Henrique Cardoso, foi, à noite, a um restaurante para comemorar. Mas o que mais se festejou mesmo foi o elogio que um certo Fidel Castro havia feito a FHC, horas antes, na sessão plenária.

“Audaz e inteligente”, disse o ditador cubano do presidente brasileiro, que, vaidoso, comemorou: “Mostra que Fidel está acompanhando a evolução do mundo e percebendo o fato de o Brasil estar tendo uma participação ativa no mundo” (sim, você já ouviu algo parecido muito recentemente, de outra boca).

Conto esse miniepisódio, do qual fui testemunha, por dois motivos: primeiro, para deixar claro que é seletiva a indignação de personalidades do governo anterior, como a manifestada por Lampreia à Folha com o silêncio do governo Lula sobre as violações aos direitos humanos na ilha caribenha.

Segundo, para dar algumas pistas sobre esse silêncio, antes como agora. No fundo, é simples: a revolução cubana faz parte da memória sentimental da esquerda brasileira. E a esquerda brasileira, em seus mais variados matizes, está no poder desde a queda de Fernando Collor de Mello, no já remoto ano de 1992.

Afinal, Castro e seus companheiros de certa forma fizeram a Revolução Francesa que a América Latina jamais fez nem antes nem depois. E não há nada mais sedutor do que o brado de “liberdade/igualdade/fraternidade”.

De mais a mais, a América Latina e o Brasil foram, a partir de 1959, o ano do triunfo da revolução, uma sequência de ditaduras militares fincadas a pretexto de evitar a expansão da ditadura de signo oposto.

Quem não gosta de ditaduras -e as pesquisas do Latinobarómetro revelam um suporte majoritário, embora oscilante, à democracia- ficou emparedado entre criticar a cubana, o exercício favorito da maioria das ditaduras latino-americanas, ou apoiá-la, por ser contra as demais. Ou calar.

Ademais, é evidente que Fidel Castro sempre foi, visualmente, mais simpático que, por exemplo, Augusto Pinochet, além de ter uma aura romântica, já remota, é verdade, mas presente na memória sentimental do subcontinente.

Conto a propósito um episódio que mostra como o presidente cubano é capaz de seduzir as plateias mais heterogêneas: na comemoração dos 50 anos do Gatt (Acordo Geral de Tarifas e Comércio, antecessor da Organização Mundial do Comércio), Fidel foi a Genebra, junto com muitos outros chefes de governo/Estado. Foi aquele festival de oratória típico de cerimônias do gênero, o que levou uma grande parte dos delegados (e quase todos os jornalistas) a descerem para a cafeteria, no subsolo. Ninguém prestava atenção ao telão em que apareciam os oradores. Até que se anunciou a fala de Fidel.

Fez-se súbito silêncio na cafeteria, todos se voltaram para o telão e Fidel atacou de Calderón de la Barca e seu “la vida es sueño, y los sueños sueños son”.

O auditório lá em cima e a cafeteria, lá embaixo, vibraram, alguns em silêncio, outros nem tanto.

Pena que a Revolução Cubana tenha jogado no lixo a sua parte, digamos, francesa: a liberdade inexiste, a igualdade (que era um nivelamento por baixo) está sendo devastada e a morte de Orlando Zapata mostra que fraternidade não é bem o espírito da coisa.

Pode ser difícil para a maioria dos mortais jogar ao mar os sonhos que a memória guardou, mas não dá para negar o fato: a revolução virou um pesadelo. Silenciar sobre ele não traz de volta o sonho. (FSP)

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