Cuidado. Silas Malafaia pode “arrombar” você

Por Eduardo Sakamoto
UOL

Criei, anos atrás, o humorado Troféu Frango para premiar bizarrices em geral – quem é leitor deste blog já está acostumado com ele. Hoje, o Frango vai para o pastor Silas Malafaia:

Pensei muito antes de ofertar o Troféu Frango ao líder da Igreja Vitória em Cristo. Dois colegas jornalistas de grandes redações que acompanham a sua trajetória me perguntaram se isso não seria redundante, chover no molhado. Sim, o polêmico líder religioso é conhecido por declarações bizarras na defesa de uma visão conservadora, para dizer o mínimo. Seus discursos, não raras vezes, ultrapassam o limite da responsabilidade, confundindo liberdade religiosa e de expressão com uma guerra intolerante de ódio à diferença.

Desta vez, ele (novamente) passou dos limites. Em entrevista à revista Época, disse que iria “funicar” (sic), “arrombar” e “arrebentar” Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT).

Malafaia ameaçou processar Toni por conta de um vídeo em que o pastor aparece dizendo: “É para a Igreja Católica entrar de pau em cima desses caras, baixar o porrete em cima”. Malafaia estaria se referindo ao um grupo de homossexuais que, segundo ele, teriam ridicularizado símbolos católicos na Parada Gay de São Paulo. Na sequência, o vídeo traz uma reportagem a respeito das agressões contra um casal gay que sofreu na avenida Paulista, em São Paulo.

Sobre o caso, disse: “Eu vou arrebentar o Toni Reis. Eu não tenho advogado de porta de xadrez. A minha banca aqui de advogados é uma das maiores que tem. Eu vou funicar (sic) esse bandido, esse safado.” E completou: “baixaria do movimento gay” é “coisa de bandido” e de “mau caráter”. E depois de falar da queixa crime, completou: “Eu vou arrombar com esses…” No final da matéria no site da revista, é possível ouvir o áudio da entrevista.

Toni e a associacão encaminharam o material ao Ministério Público Federal para checar se o caso configura incentivo à violência e à discriminação.

Em nota oficial, a ABGLT afirmou que: “É notória a incitação da violência contra homossexuais perpetrada por Silas Malafaia em seu programa televisivo. Boa parte de suas intervenções extrapolam o limite razoável, porque constituem-se em violações dos direitos humanos, notadamente os princípios da igualdade, da dignidade da pessoa humana e do pluralismo. A liberdade de expressão e a liberdade religiosa devem ser respeitadas. Porém, não devem estar acima dos demais direitos fundamentais consagrados na Constituição Federal. Canais de televisão são concessões públicas. Não podem dar guarida a conteúdos discriminatórios”.

Também disse que “o que o pastor Malafaia faz é agredir milhões de brasileiros, desqualificar seus estilos de vidas, seu modo de amar, sua afetividade e sexualidade. Trata-se de uma verdadeira cruzada que destila ódio. Discursos discriminatórios são dispositivos que alimentam cada agressão homofóbica, cada assassinato, cada violação de direitos que acontece no Brasil”.

De tempos em tempos, homossexuais são espancados e assassinados nas ruas só porque ousaram ser diferentes da maioria. Enquanto isso, seguidores de uma pretensa verdade divina taxam o comportamento alheio de pecado e condenam os diferentes a uma vida de inferno aqui na Terra.

Pessoas como Malafaia dizem que não incitam a violência (“E o senhor Tony Reis que me aguarde. Vai ter que provar na justiça que sou homofóbico”, afirmou em nota). Não é a sua mão que segura a faca, o revólver ou a lâmpada fluorescente, mas é a sobreposicão de seus argumentos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna o ato de esfaquear, atirar e atacar banais. Ou, melhor dizendo, “necessários”, quase um pedido do céu. São pessoas como Silas que alimentam lentamente a intolerância, que depois será consumida pelos malucos que fazem o serviço sujo.

Afinal, fundamentalismo não é monopólio de determinada religião.

Coloquemos a culpa na herança do patriarcalismo português, no Jardim do Éden e por aí vai. É mais fácil justificar que somos determinados pelo passado do que tentar romper com uma inércia que mantém homens, ricos, brancos, heterossexuais em cima e mulheres, pobres, negras e índias, homossexuais em baixo. A reflexão, aceitar conhecer o outro e entendê-lo, que é o caminho para a tolerância, é difícil para alguns. É mais fácil seguir a manada e dar porrada.

Arrebentar, funicar (sic), arrombar… Enfim, expressões de um homem de Deus.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Anchieta Rolim 14 de novembro de 2011 11:08

    Eu acredito que há um Deus, uma inteligência cósmica que comanda o universo. Tenho vários amigos que são ateus e nem por isso fazem pouco caso desse Deus que acredito, são pessoas de bom coração e de atitudes dignas. Porém, a grande maioria dos que pregam DEUS através de uma religião (seja ela qual for) pra defender a existência de um Ser único, justo e verdadeiro estão na realidade é interessados em fazer fortuna às custas dos fiéis que são facilmente manipulados pela pregação hipócrita , cínica e sem responsabilidade desses falsos profetas. Usam os livros sagrados e interpretam da maneira que melhor cabe em seus bolsos. Discriminam, julgam e punem os que não se adequam as sua barbáries e assim vão julgando, perseguindo…sempre contra os princípios básicos dos ensinamentos de Jesus que diz: “ame o seu próximo como a si mesmo”. Eu mesmo já fiz uma exposição na Capitania das Artes chamada “A Industrialização do Santo Cristo”, que critica justamente essas atitudes tomadas por esse tipo de gente. Pra finalizar, em minha opinião, nenhum desses falsos pregadores acreditam em Deus e sim no dinheiro e poder que pode ser gerado através do Seu Nome.

  2. Marcos Silva 13 de novembro de 2011 22:15

    Os comentários críticos de Eduardo Sakamoto são corretos. Faltou acrescentar que a gramática passou longe das falas reproduzidas. E que seu emissor evidencia projeções agressivas sobre os outros – querer fazer isso e aquilo… É perigoso mas também preocupante, ninguém da família (ou amigos e confrades de igreja) toma nenhuma providência?

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