A cultura brota da terra

Falar de cultura já é algo que transcende os limites das poucas palavras. Se precisamos segmentá-la em uma classificação arbitrária (oficial, popular e de massa) tropeçamos em complicações acima das cogitações amenas e de teorias apressadas.

Fotografia de capa: Meysa Medeiros

A cultura, em linhas gerais, tem sido associada à expressão, por diversas formas, de uma sabedoria acumulada.

Entretanto é preciso remontar às origens dessa concepção para que de fato ela assuma as devidas e justas proporções.

Do contrário, circunscreve-se a esfera dos centros de turismos e da admiração infundada de comportamentos primitivos ou excêntricos.

A ideia de cultura remonta ao verbo latino colo, que por sua vez gerou a forma cultura, conforme a compreendeu a Idade Média, no sentido de cultivare, cultivar, ou seja, uma complexa ação de preparação, fertilização, semeadura da terra, para dela extrair o fruto.

É de nodal importância que a terra seja tomada primeiro em sua maternidade que oferece o colo ao homem, e depois pela fertilidade que deve ser cultivada.

O conceito de cultura migra de sua relação com a terra para a concepção intelectual, do conhecimento empírico, ao longo da Idade Média até a Renascença, devido ao crescimento do pensamento nominalista franciscano, em tudo oposto aos dominicanos, de cunho aristotélico.

Para aqueles, o pensamento do homem está intrinsecamente ligado a terra, à natureza, aos influxos naturais, ao calor, ao frio.

O solo e o intelecto se unem nesse princípio e daí funda-se a idéia da cultura como resultado do arar, fertilizar, regar, podar e colher pragmaticamente os frutos da terra-mente.


A cultura de massa impinge uma forma pronta, tirando proveito das lacunas criadas pela falta de incentivo cultural às minorias e da educação formal.

Ser orgânico

Essa concepção franciscana ressalta e dá novo sentido ao conhecimento empírico dos povos antes ditos incultos.

Nesse sentido é que nasce o pressuposto da cultura popular, que muitas vezes se afasta da cultura oficial e intelectual de raízes aristotélicas, cujo centro ideológico era o preconceito de que o saber do homem da terra, do homem do povo (poderíamos chamá-lo homem orgânico), era inferior ao saber mental e intelectual.

Assim, a cultura popular consiste exatamente no saber do homem orgânico, que nasce das relações empíricas, posto em prática no dia-a-dia tanto pelo trabalho, quanto pelo lazer (que se inclua nesse rol também as diversas formas de arte).

A Renascença e o Barroco foram os momentos ápices e lapidares do que se chamaria a cultura popular.

Toda a arte da época se volta para esse signo que liga o homem ao solo com todos os seus matizes, simbologias, e cultos provindos do universo do homem comum e orgânico, apropriando-se de rituais primitivos, arcaicos, do velho e do novo mundo, além de provocarem a sua simbiose com as formas orientais.

Nesse momento, os artistas se voltaram para o que dizia respeito ao corpo e especialmente ao baixo ventre e aos baixos instintos.

Expoentes desse período foram Cervantes entre os hispânicos, Rabelais para os francos e Shakespeare revelando o povo saxão.

Dom Quixote e Gargântua tornaram-se arquétipos dessa nova forma de cultura, em que o corpo se liga ao cosmos e é ele mesmo um mundo fértil e protuberante.


Obra “Speculum historiale”, de Vicente de Beauvais (c. 1184-1264).

Das entranhas para fora

É importante que não se confunda (como se faz, em tempos de mídia) cultura popular com cultura de massa.

A primeira é espontânea e tem uma lógica intrínseca, vem das entranhas para fora, transpira do seio dessas sociedades, enquanto que a segunda tem fundamento extrínseco.

É semeada maliciosamente de fora para dentro nivelando todos em só forma de expressão, em detrimento das diferenças de grupos, de raças, de cores, de sentimentos e de culturas.

A cultura de massa impinge uma forma pronta à grande massa (não necessariamente popular), tirando proveito das lacunas criadas pela falta de incentivo cultural às minorias e dos deslizes da educação formal.

Por outro lado, também é da cultura de massa o processo de aculturação que consiste na apropriação da linguagem popular para fins massificantes.

É fenômeno comum nos depararmos com gêneros populares desvirtuados pela indústria de massa com o fim de torná-lo simplório e acessível.

É bom frisar que o intercruzamento de várias linguagens e culturas é fenômeno natural, todavia isso não se faz de modo a esvaziar as diferenças sem gerar uma outra forma com mesmo valor e sentido.

Neste caso não há uma desvirtuação, mas a simbiose ou semiose natural às linguagens.

Professor, poeta e contador de histórias [ Ver todos os artigos ]

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP