Cultura da auto-destruição: Lobinho e o extremo-centro

O cantor Lobinho escreveu boas músicas no passado. Isso não o autoriza a falar asneiras graves como:

“O que eu quis dizer (…) é que a direita torturadora e a esquerda vítima eram iguais porque eram retrógadas e nacionalistas. Eram pessoas que gostavam de tirania. Ninguém ali estava lutando por uma democracia. A gente estava com Che Guevara, uma ditadura do proletariado”.
Lobinho, Folha de S Paulo, 2/6/2011.

Para quem diz ter lido Nietzsche, é bobagem demais! Como eram iguais se uns torturavam e outros eram torturados? E mais: Eduardo Portela (direita!) nunca foi igual a Erasmo Dias (direita!). Por que os esquerdistas seriam todos iguais?

Eu já era adulto nessa época. Acompanhei como o que se chamava esquerda viveu  mudanças – e entre os torturadores e os torturados, minha solidariedade ia e continua a ir para os últimos. Lia-se Reich, Marcuse: stalinistas? Goldmann refletia sobre Piaget e o Nouveau Roman, comentava Resnais. Althusser dialogava com Lacan. Nise Silveira combatia os tratamentos convencionais dispensados aos loucos, apelando para a tradição junguiana e demonstrando a grande capacidade artística de muitos daqueles internos em instituições psiquiátricas. Os stalinistas, no Brasil daquela época, eram assassinados pela ditadura. Denunciá-los como stalinistas, numa ditadura, era delatá-los para os assassinos. Setores de esquerda viveram mudanças – hoje em dia, muitos deles mudam para as direitas. Não sei se as direitas passaram pelo mesmo processo. Mas penso que o mundo é mais complicado do que Lobinho diz.

Lobinho não tem obrigação de conhecer História. Mas tem a obrigação de não falar asneiras, apoiado em sua credibilidade musical.

By the way, o que é mesmo direita e esquerda no mundo atual? Tudo igual a tudo? Ou esquerda pode não ser mais aquilo – havia mais de um aquilo? Quem inventou a crítica ao stalinismo não foi o neo-liberalismo. Lobinho é extremo-centro?

Ele declara que não será simonalizado, auto-vitimização inadmissível em quem deveria conhecer o conceito nietzscheano moral do ressentimento. Certamente, não precisará ser simonalizado porque já se simonalizou. Embora cante menos que seu antecessor político.

Politicamente, Cely Campelo era melhor.

Recuso-me a comentar as referências de Lobinho às unhas dos torturados. Considero essa fala baixa pornografia no sentido que Claude Lanzman usou o conceito para definir usos politicamente parasitários de imagens do Holocausto. Não é admissível fazer piada estúpida com a dor alheia.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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