De cultura se faz uma nação

A polêmica questão da expressão “cultura do estupro” reacendida a cada nova violência sexual contra mulheres, quando esta ganha expressão na mídia, uma vez que há os estupros diários que muitas vezes sequer chegam às estatísticas policiais, me levou a fazer uma série de reflexões nos últimos dias.

Naturalmente, como muitos ou todos, movi-me igualmente pelo caso da adolescente abusada por trinta inumanos, que abalou os noticiários e as redes sociais.

Moveu-me justamente os pensamentos antitéticos sobre a expressão: de um lado os que afirmam a existência dessa cultura e de outro os oponentes a essa terminologia. Haverá uma cultura do estupro? Será ela um nefasto patrimônio nacional?

Assaltado por estas questões, fiquei a confabular comigo. Refletindo sobre justamente os dois lados desta moeda: o sentido de cultura e o fenômeno do estupro. O primeiro ativou-me cogitações intelectuais; o segundo exigiu-me um exercício de anamnese.

Ora, da perspectiva intelectual e antropológica, a cultura se manifesta pelos aspectos aprendidos em contato social, os quais muitas vezes distanciam-se dos instintos adquiridos naturalmente.

Leia “Boa noite, Cinderela!”, de Edilberto Cleutom

A língua, a matemática, as artes, os jogos, como também a agricultura, pecuária, e tantas outras formas de produções do engenho humano, que acabam por interferir no ciclo natural, calham bem no conceito de cultura.

Vejo aí um dos motivos por que certas mentalidades reacionárias se apressam em negar a existência da cultura do estupro: afirmar sua existência seria retirar dos estupradores o álibi de um comportamento instintivo e natural do macho.

É fato que algumas pesquisas mostram que, no reino animal, alguns comportamentos se assemelham a estupros, como entre algumas espécies de patos selvagens, peixes, elefantes marinhos, orangotangos, e até insetos.

Todavia, nivelar o comportamento humano a instintos animalescos, desconsiderando-se a força civilizadora da cultura, não deveria parecer algo passível de atenuantes a um evidente ato de violência.

“Ela tem suas obrigações de mulher casada”

“[…] esquivar-se dava direitos ao marido de cobrar, exigir, impor.”

Quanto ao fenômeno do estupro, precisei associar uma das concepções de cultura, qual seja a de que a cultura consistiria também em costumes e valores transmitidos hereditariamente e reforçados simbolicamente pelas mais diversas formas de expressão da linguagem (ditos, provérbios, conselhos, imitações de gestos, atitudes e ações imbuídas de significações ideológicas), a um exercício de anamnese.

Relembrei-me, por exemplo, minha avó quando de forma velada, cheia de subterfúgios faciais, cochichava em encontros familiares que tivera 18 filhos porque seu marido não lhe respeitava o recato e considerava um absurdo suas esquivas por medo de engravidar.

Adulto, compreendi ali uma forma de impor a ela seu desejo. Ouvira inclusive expressões do tipo “ela tem suas obrigações de mulher casada”. O ato sexual naquela concepção era uma obrigação e um dever, esquivar-se dava direitos ao marido de cobrar, exigir, impor.

Não se esconderia ali uma certa “cultura do estupro”? De onde viera esse direito, em muitas circunstâncias reforçadas por apelo ao discurso religioso, tagarelado por sacerdotes nas mais diversas igrejas, sobre as obrigações conjugais das esposas e os direitos dos maridos? Não reforçaria toda esta sabatina religiosa a cultura do coito obrigatório como uma dádiva divina aos meritíssimos esposos?

Correu-me a memória em busca do tempo perdido e veio-me então um tempo em que, ainda muito criança, fui levado por mãos de uma tia-avó à festa de Santos Reis no bairro de mesmo nome em Natal, cuja abertura religiosa se dava, para a glória de uma imensidão de fiéis, com o sermão de Frei Damião.

Então, ouvi da voz do monge peregrino, embora minhas atenções estivessem voltadas à maçã do amor que se vendia às dezenas e encantava-me mais pela beleza que pela doçura, da sacralidade do matrimônio e do divino direito dos maridos, a quem deviam as esposas subserviência e obediência. Palavras lacradas pelo selo divino a centenas de homens, reforçando a cultura da supremacia masculina e da servilidade feminina.

Cultura de uma supremacia

Avançando em meu exercício de anamnese, ocorreram-me à memória velhas histórias ouvidas em família de moças acolhidas como domésticas e expulsas posteriormente por esposas furiosas por vê-las exploradas sexualmente por ilibados maridos.

Muitas delas devolvidas a suas famílias pobres e indigentes maculadas então pela vergonha e herdeiras de filhos ilegítimos, que lhes empurrariam mais ainda à degradação e à miséria moral e material. Vi-me então percorrendo os séculos que erigiram esse imenso Brasil, cada vez mais misturado e cada vez mais brasileiro.

E como não ver por trás de nossa tez mestiça as marcas de infinidades de abusos senhoris de brancos e machos contra negras escravas e contra índias roubadas, perpetrando em nossa história o selo indelével do abuso sexual junto ao da escravidão que erigiram e solidificaram em nossa nação, se não a cultura do estupro, ao menos a cultura de uma supremacia de raças sobre raças, de homens sobre mulheres, de fortes sobre fracos.

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