Cultura e ímpeto pessoal

Por Paulo Werneck
FSP

O episódio da nomeação e da subsequente queda de Emir Sader na presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa pode inaugurar um novo momento na reflexão sobre as políticas culturais no país.

Não é novidade que o Ministério da Cultura tornou-se palco de conchavos e cobiça partidária desmedida. Também não é de hoje que, no campo cultural, enfrentam-se os marxistas “old fashioned” (ou “marxistas parnasianos”, na expressão do crítico literário Luiz Costa Lima) e os defensores de uma visão mais abrangente da atividade cultural.

O que é novo na disputa pela Casa de Rui Barbosa é a “transcendência” -para usar uma palavra que se consagrou na polêmica- do clima partidário-paroquial para uma discussão mais madura sobre as políticas culturais no país.

Com a “desnomeação” de Emir Sader afirmou-se a singularidade, o caráter público e a história de uma instituição que, pela perenidade inerente a suas atividades, não pode ficar ao sabor de ventos ideológicos personalistas.

O episódio poderá ajudar a afastar o mal da descontinuidade nas instituições culturais, especialmente pernicioso em atividades que só rendem frutos no médio e no longo prazo, como a catalogação e o estudo de acervos de intelectuais. É de esperar que, a partir de agora, partidos e governantes pensem duas vezes antes de indicar gestores culturais que desconheçam as instituições de que vão cuidar.

O episódio mostra que dos gestores públicos não se espera apenas decoro administrativo, mas também verbal. Se alguém derrubou Sader, foi o próprio sociólogo e suas infelizes palavras, inaceitáveis na boca de qualquer dirigente, de esquerda ou de direita.

A falta de tato de Sader ao lidar com o público por meio da imprensa deixou solitário um homem que, há poucos anos, viu pipocarem manifestos e mobilizações em seu favor.

Ontem, não se via uma única personalidade pública se manifestando pela permanência de Emir Sader na Fundação Casa de Rui Barbosa.

Embora política cultural não se faça com personalismos, ela depende de uma boa dose de ímpeto pessoal, o que é muito diferente. Paris não estaria tombada como patrimônio histórico se não fosse a atuação de um indivíduo, André Malraux, à cabeça do Ministério da Cultura francês. O mesmo se poderia dizer do parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, fruto da obstinação pessoal de Lota de Macedo Soares, ou do sistema de bibliotecas públicas em São Paulo, criado por Mário de Andrade nos anos 1930.

Superado o episódio, a “Casa Rui” tem, na gestão Dilma/ Ana de Hollanda, o desafio de se modernizar -e, por que não, de ganhar boa dose de ímpeto pessoal, para que se faça conhecer de maneira mais efetiva pelo país cuja memória ajuda a preservar.

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