Cultura, o que fazer?

Por Marcus Faustini
O GLOBO

Duas ideias centrais invadem não só a bestialidade das redes sociais mas também artigos de jornais e revistas semanais com circulação nacional, nunca se falou tanto sobre o Ministério da Cultura (MinC) como no último mês. A defesa da extinção do MinC, foco dos ataques, segue duas premissas. O ministério seria um antro de petistas que são contra os valores nacionais e mantém com financiamento um conjunto de artistas que mamam nas tetas do governo. Ou seja: uma estrutura que não cumpriria sua missão republicana de garantir direitos e promover desenvolvimento de expressões, territórios e arranjos de criação e produção. Um senso comum, que estava escondido, ruminando pelos cantos por conta de políticas de inclusão nos últimos anos, vem à tona e se aplica de forma arbitrária ao campo da cultura: Estamos sustentando vagabundos! Só faltou ler, nestas semanas, uma citação a Ronald Reagan dizendo que “não estava disposto a financiar a curiosidade intelectual de ninguém”.

Enquanto isso, o complexo campo de realizadores culturais, dos alternativos aos comunitários, do mercado à chamada alta cultura, se divide em relação a posições de crítica e diálogo com a atual gestão do Ministério da Cultura, depois do recuo de extinção por conta do presidente interino. De outro lado, políticos do DEM, representantes da bancada evangélica, protocolaram uma CPI da Lei Rouanet — não para colaborar na superação de erros da lei, mas para perseguir os tais artistas que mamam nas tetas. Porém, o que se diz, é que ficam surpresos, confusos e revoltados ao perceberem que defendem a mesma crítica à lei, em retórica ao menos, que o ministro anterior, Juca Ferreira. E já não sabem mais como se posicionar. Enquanto isso, na internet, segue a difusão, não são poucos, de ataques generalizados à cultura.

O que fazer?

É claro que o governo interino é fruto de forças parlamentares golpistas, que desejavam estar à frente do governo para proteger suas redes de manutenção do poder. É claro que é também fruto de um arranjo de forças econômicas que pretendem aumentar sua produtividade diminuindo direitos trabalhistas apenas. Por outro lado, impossível não reconhecer que o governo atual se viabilizou pelo arranjo do governo anterior.

Mesmo assim, frente a um governo ilegítimo, a volta do Ministério da Cultura não é pouca coisa diante do atual cenário depreciativo de opiniões sobre cultura, artistas e realizações. O recuo do presidente interino pode ser atribuído às ações e articulações por dentro e por fora, de posicionamentos firmes de artistas com grande visibilidade, articulação de entidades representativas e das ocupações de espaços do MinC. Mesmo que essas ações não tenham acontecido de forma conjunta.

Num momento desses não é possível se dar ao capricho de não estar perto do Ministério da Cultura, dos debates, na pressão e no diálogo. Em nossa opinião, vale tanto ocupação mas também diálogo para garantir conquistas e avançar direitos. Foi durante o governo de Getúlio Vargas que surgiu o Serviço Nacional de Teatro e instituições de políticas para o patrimônio. Foi durante a ditadura militar que foi criada a Fundação Nacional de Artes (Funarte), que nascia a partir de uma demanda de circulação nacional da produção cultural. Na história da cultura moderna brasileira é de fácil identificação notar que artistas do campo da esquerda e progressistas foram determinantes para que, mesmo em momentos autoritários, existissem esses avanços institucionais. Foram frutos de pressão, diálogos, conflitos etc.

A chegada de Marcelo Calero ao comando do MinC é a chegada de alguém que inaugura um novo momento. Independentemente de qualquer avaliação sobre a gestão que começa ou até sua aceitação do cargo, estamos diante do primeiro ministro “pós-participantes da geração de resistência à ditadura, pós-tropicalismo, pós-hegemonia de sociólogos no comando da cultura”. Isso significa uma mudança importante.

Não será fácil pra ninguém reposicionar a cultura na imaginação social. Temos muito a fazer ainda no campo do direito cultural, da diminuição de desigualdades regionais, no desenvolvimentos das artes, dos arranjos produtivos etc. Porém, algo de valioso para a cultura é a possibilidade de ela tornar-se o lugar da expressão das diferenças e da curiosidade sobre elas. Acredito na cultura como sendo campo dessa possibilidade e ainda que o país precisa da expressão de suas diferenças mais do que de sua identidade consensual. Isso não será feito sem consenso e sem diálogo, o importante é a cultura se manter viva em nossa imaginação — uma boa contribuição à permanência da democracia.

O lugar da produção cultural e da criação artística na imaginação brasileira está envolvido por nuvens carregadas, chove canivetes. O clima hostil exige, além de urgência de mobilização, uma inteligência coletiva que possa religar a importância dessa produção na esfera pública.

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