A cultura do golpe

Por François Silvestre

O Brasil formou-se, ao longo da sua experiência institucional, sob a penumbra dos golpes.

Sem falar que a mesma formação institucional sustenta-se muito mais com vistas nas vantagens pessoais, seja da ascensão ao poder ou da remuneração, do que na motivação vocacional.

O Brasil não conhece transformação de regime ou forma de governo por via revolucionária. Jamais fizemos revolução. Nossa vocação é de natureza golpista. E essa prática é de natureza conspiratória.

Isso não que dizer que sejamos pacíficos ou medrosos. A maioria desses golpes deságua em muita violência e sangue derramado. E como é da natureza da covardia, a mutilação dos derrotados dá-se sem a chance do esperneio.

A “proclamação da independência” não foi um gesto de revolta nascido da insatisfação nativa. Foi um golpe combinado entre a cúpula da regência, na Colônia, com as Cortes de Lisboa, sob a coordenação do Rei de lá, pai do Príncipe daqui. Tudo acertado, “antes que um aventureiro lance mão”, mediante pagamento indenizatório; o roubado indenizou o ladrão.

A abdicação foi outro golpe, negociado com a condição de preservar a dinastia Bragança. As Regências que se seguiram foram constantemente atropeladas por conspirações, tramas e golpes.

A República nasce de um golpe. E segue cumprindo o ritual da nossa cultura golpista. Floriano golpeia Deodoro, Prudente evita o golpe seguinte e escanteia Floriano. E por ai veio. Os golpes das convenções, nas eleições presidenciais. O golpe sangrento de 1930. O golpe no golpe do Estado Novo. O golpe da queda de Vargas. Até o mais sangrento e covarde de todos, o golpe civil-militar de 1964. Que produziu um golpe logo no início, ao emparedar os aliados civis e manter as rédeas com os militares. Quatro anos depois, novo golpe; com AI-5.

Tivemos até um golpe para evitar outro golpe. Foi na sucessão de Café Filho (foto).

Houvera eleições, com a vitória da coligação PSD/PTB, com Juscelino Kubistchek e João Goulart, em 1955. A UDN derrotada e os militares de direita queriam anular a eleição.

No enterro do Gen. Canronbert Pereira da Costa, líder da ala direita do Exército, o Coronel Bizarria Mamede faz um discurso propondo não se dar posse aos eleitos. Na presença do Ministro da Guerra, Gen. Teixeira Lott.

O Ministro exigiu do Presidente Café a punição do coronel. A UDN conspirou junto ao Presidente. Café Filho “adoeceu”, pelo vírus do golpe, e o Presidente da Câmara, Carlos Luz, assumiu interinamente a Presidência. Ao assumir, Luz negou-se a punir Mamede.

Orientado pelo Gen. Odílio Denys, Lott pôs os tanques na rua e depôs Carlos Luz. Café Filho quis voltar, mas foi impedido. Agora, “adoecera” pelo retrovírus do contragolpe.

Assumiu a Presidência o Pres. Do Senado, Nereu Ramos, que deu posse aos eleitos. Esse episódio foi um ensaio de 64. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo