Cunicultura literária brasileira

A FSP publicou no caderno Ilustrissima longa matéria sobre Paulo Coelho (Para ler PC) – {leia em post abaixo}. O título é paráfrase dos clássicos Lire le Capital (Althusser et al.), Para leer el Pato Donald (Mattelart e Dorfman) e Ler a Capitu (Luiz Felipe Baeta Beves). O articulista deixa para dizer que Coelho pertence à Academia Brasileira de Letras apenas no final de seu texto, o que reforça o caráter de mártir atribuído àquele escritor, vítima do silêncio acadêmico. Atribui especial importância à vendagem que o autor alcança mundialmente. Procura salientar um campo temático central em sua obra, com destaque para a igualdade entre mestre (escritor) e discípulos (leitores), esquecendo de dizer que apenas o primeiro é pago pela relação. Salienta o tema dos sonhos abandonados da juventude, esquecendo de comentar a metamorfose do parceiro de Raul Seixas em guru da renovação carismática do esoterismo. Aproveita para desqualificar o pessoal da universidade (alvo de 9 entre 10 jornalistas nacionais), que não valoriza Coelho. Cita, em clave de discordância, o comentário de João Alexandre Barbosa, que legitimou o trabalho de Flaubert e Baudelaire com o lugar comum e considerou Paulo Coelho apenas lugar comum irrefletido – confesso que eu também considero Flaubert e Baudelaire melhores que Coelho. Ignora os escritos de Marlyse Meyer sobre folhetins. Silencia sobre a desqualificação, há décadas, de Jorge Amado (que vendeu muito e foi traduzido em não sei quantas línguas) mas evoca carinhosamente José Mauro Vasconcelos e Malba Tahan, na trilha do Coelho. Tudo leva a crer que o autor do artigo reserva para o crítico a função de coonestar os leitores de Coelho e outros escritores similares. Se fosse assim, Rimbaud, que quase não teve leitores em vida, seria apenas um idiota a mais. Apesar disso, é bom discutir Coelho, J.  G. de Araújo Jorge , Adelaide Carraro, Cassandra Rios e outros de nossos autores de best-sellers. É necessário refletir sobre seu sucesso. Sem ser paternal com seus leitores.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comments

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  1. Anchieta Rolim 20 de Janeiro de 2013 21:39

    Marcos, o livro esotérico “O Adepto” de Hans Arnold (1909), um dos primeiros do gênero a ser traduzido no Brasil, dá uma boa ideia sobre a fonte inspiradora de certos trabalhos de Paulo Coelho. Li ” O Adepto ” muito antes do ” O Alquimista ” ( o único livro de Paulo Coelho que cheguei a ler ) e fiquei impressionado como são parecidos. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

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