Curso interdisciplinar de crítica destrutiva pt. 1

Em quase tudo o que escrevo, eu deliberadamente agrido até onde posso o discurso arbitrário reinante nas relações sociais. Para quem ainda não havia entendido, aí está dito: eu deliberadamente agrido o discurso arbitrário reinante nas relações sociais.

Quando falo em discurso arbitrário eu me refiro (para este caso, de maneira bem específica e direcionada) ao discurso da casa, ao da família, da escola, dos políticos como a face podre da sociedade brasileira, o discurso sustentável, o discurso da crítica construtiva entre capuccinos e sedas rasgadas. Eu estou falando nesse papo bonzinho instituído, limpinho, de só errar até o limite do “humano”, da regrinha de etiqueta, dessa afirmação desesperada de bordas éticas sobre o que se deve ou não se deve fazer. Afinal, que são bons modos senão um dever-ser social, uma instituição inventada sabe-se lá por que processos (não me cabe aqui traçar uma genealogia), um paradigma ideológico que tem através dos tempos agido de modo a pré-fabricar comportamentos segundo padrões que se impõem aos indivíduos que os exercem.

Eu também preciso dizer que esse discurso ao qual me refiro não fica restrito ao campo da linguagem, mas invade a experiência, implica uma pragmática. Ou seja, o discurso não diz respeito apenas ao que escrevemos ou falamos, não se trata de uma superficialidade. O discurso entranha-se, ou melhor: é entranhado pelo processo de socialização (a saber, aquele através do qual somos integrados à realidade pré-existente, submetidos a ela). O discurso arbitrário, que tem implicações em todos os campos (inclusive nos mais íntimos) da vida, então, faz-se valer através de nossa servidão voluntária, de nosso apego à segurança ontológica que ele oferece. Todos sabemos o quão confortável é estar do lado “certo”. O discurso arbitrário está – como já disse aqui antes – carregado de um dever-ser, incubido de operar domesticações, e disposto a dificultar a vida de quem ousar desafiar-lhe.

Avante, mas devemos tomar cuidado para que não entendamos o arbitrário como um robô que nos direciona usando uma geringonça eletrônica qualquer. Anote-se: o discurso arbitrário opera de modo a dissimular o seu caráter artificial, de fabricação, a idéia de que foi construído. O discurso arbitrário opera de modo a mentir-se como natureza irreversível, imutável, eterna. Mas é dado antropológico que a idéia de natureza humana é um equívoco, que o animal humano, graças ao fato de não possuir especialização biológica, gera uma falta estruturante que o faz desesperadamente necessitado da cultura que ele mesmo engendra. Então se te dizem que é da “natureza humana” eleger líderes, escolher mártires, adorar santos e cobiçar heróis, é bom desconfiar: cobiçar líderes, eleger mártires, escolher santos e adorar heróis são construções carregadas de relações de poder e dominação imbricadas.

[este link te levará a um artigo sobre (des)construcionismo crítico: http://bit.ly/muXq8R e este outro servirá para o caso de você querer sacar algo sobre o poder enquanto relação e não mais como uma coisa que se adquire, conquista ou usurpa: http://bit.ly/bsDdwZ]

A esta altura do texto, tendo falado sobre o discurso arbitrário social cultural, mencionado a forma como ele opera, afirmado o seu caráter de construção por meio de um descontrucionismo crítico, falta-me apenas encaixar uma peça fundamental desta exposição: a ideologia. Pois bem, a ideologia: o pensamento marxista sugere a ideologia como a representação de um modo de vida criado pelas classes dominantes e mantido por ela para fins de preservar a dominação. Ou seja, a ideologia consistiria numa ferramenta de opressão às classes dominadas, uma das bombas da luta de classes. Alípio, foucaultiano, alarga essa noção e sugere a ideologia como “fenômeno ligado aos efeitos de sentido de toda estruturação social, ao cada uma delas buscar sua ratificação no simbólico como ordens de caráter natural, universal, necessário, eterno, divino. Portanto, um fenômeno que não é exclusivo da sociedade fundada na divisão de classes e na separação entre sociedade e poder do Estado, sociedades capitalistas ou outras.”¹ A ideologia é o modo pelo qual o cultural realiza sua naturalização, a ideologia outorga ao arbitrário (construído, histórico, falível) seu status de realidade-toda, de coisa natural, intransformável, estática.

[este link te levará a um artigo de Alípio quanto à Ideologia: http://bit.ly/jqTKY4]

Mas é claro que a ideologia falha e produz pequenas transgressões sem as quais a vida seria impossível. Hoje em dia até já é sabido: esse delírio de retidão não tá com nada, a vida é curva. Decido por não abordar a transgressão aqui (apesar de ser um tema de que gosto), que este texto já muito se alonga e eu quero logo arrematá-lo. Avancemos…

Garcia-Canclini observa o consumo porque sabe que ele se trata de um dos principais processos de identificação contemporâneos, que ele consiste um dos meios pelos quais a subjetividade contemporânea é formada. Então isso esbarra no fato de que esse discurso arbitrário sobre o qual falei é encucado através de um processo de invenção cultural que, por meio da ideologia, traveste-se de natureza, e faz uso desses aparatos de subjetivação (a tevê, o cursinho, o consumo) para instituir suas rédeas simbólicas, suas cadeias, para se apossar molecularmente dos corpos. Eis que então surge a proposta de remodular o consumo, instaurar novos fluxos que possam levar a lugares insuspeitados, friccionar a ordem em si mesma. Desse modo, pode-se perceber que isola-se o consumo, e é contra o discurso que reveste esse consumo que se investe, interfere-se no material simbólico partilhado e não no consumo enquanto prática isolada. O ataque se concentra não no consumo, mas em seu discurso.

¹ cit. do Ideologia e Transgressão, de Alípio Sousa Filho, cujo link eu já copiei aqui.

*Aliás, esse texto contém milhares de apropriações e estupros não demarcad@s de autores.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois − 1 =

ao topo