CyberJulian

Por Hermano Vianna
O GLOBO

Julian Dibbell (foto), segundo Caetano Veloso, é jornalista “que sabe muito sobre música popular brasileira e tem uma visão muitas vezes original e Julian Dibbell, segundo Caetano Veloso, é jornalista “que sabe muito sobre música popular brasileira sempre inteligente sobre o tema”.

O elogio, em “Verdade tropical”, se referia especificamente ao artigo de 1988 e do “Village Voice”, onde Julian caracterizava João Gilberto como “o Elvis do Brasil”. A afirmação, feita “quase em tom de brincadeira”, se revelava como “imediatamente rica de estímulos para uma mente brasileira”. Minha amizade de quase três décadas com Julian sempre teve este efeito sobre minha mente: incentivo poderoso para enxergar o Brasil e o mundo de forma renovada. Minhas descobertas são sempre mais alegres quando compartilhadas com (ou estimuladas pelo) Julian. Para mim, nada de melhor se pode viver com um amigo.

Aquele Julian que comparou João Gilberto a Elvis parece personagem de outra encarnação, na qual poderia ter sido importante brasilianista ou crítico musical. Eu o conheci quando era um daqueles estudantes estrangeiros que a PUC recebe no Rio. Impressionava seu português (costumo dizer, sem brincadeira, que meu português é pior que o dele), aprendido por acaso com professor mórmon que deu aula de graça na sua high school. Causava também espanto seu conhecimento sobre a música brasileira dos anos 1960, muito antes de o tropicalismo virar moda mundial com o empurrão de David Byrne (que, levado por Arto Lindsay, apareceu uma vez na minha casa, quando Julian era meu hóspede. Byrne, pouco depois de ser capa da “Time”, estava lançando “True stories” no Rio. Arto me apresentou Byrne e Caetano. Julian e Beth Nolasco me apresentaram Arto — eu era fã de sua banda, DNA, mas não sabia de suas conexões brasileiras, descobertas quando Julian o entrevistou para seu — e de Joe Levy, que depois foi editor da “Rolling Stone” — fanzine “Nadine”, publicado em Yale. Como já repetiu Caetano: este mundo é um pandeiro).

Descobrimos, eu e Julian, o cyberpunk ao mesmo tempo. Ele leu meu exemplar de “Neuromancer”. Julian voltou para os EUA no final dos anos 1980 e, por cartas, começou a me falar sobre as maravilhas da internet. Encontrei o Alternex, do Ibase, que era a única porta de acesso — fora de governo e poucas universidades — à internet no Brasil. Deixamos o papel de lado para trocar mensagens por email, que naquela época exigia a memorização de dezenas de comandos Unix.

Também nos encontrávamos virtualmente no LambdaMoo, um bisavô do Second Life que funcionava só com texto, pois a web ainda não fora inventada. Apesar do novo tipo de proximidade, senti que os computadores podiam nos afastar. Julian trocou de avatar: parou de escrever sobre música e o Brasil e virou pensador/desbravador da vida on-line.

Em 1993, ainda no “Village Voice”, apareceu “Rape in cyberspace”, artigo hoje clássico para os estudos sobre a internet, falando sobre a confusão virtual/real no LambdaMoo. Esse texto se tornou o primeiro capítulo do seu livro “My tiny life” e mote para muita coisa que publicou nos anos pioneiros da revista “Wired”. Julian foi mergulhando cada vez mais no mundo ciberespacial, e chegou a se tornar — na vida real — comerciante de itens de games on-line, com os quais ganhou quase tanto dinheiro quanto como jornalista, experiência narrada no livro “Play money”, cuja sequência foi reportagem na China — para o “New York Times” — sobre as gold farms, lugares onde garotos trabalham em regime de semiescravidão produzindo dinheiro de jogos virtuais, depois convertido em dinheiro real.

O feitiço brasileiro não deixaria Julian escondido em algum lugar obscuro da rede, fora do nosso alcance. Há até uma lenda de que ele teria sido um dos maiores responsáveis pela disseminação do Orkut no Brasil. Não foi bem assim: entrei no Orkut a convite do pessoal da Insite paulistana (que tinha algum contato interno no Google — acho que foi ali que a onda brasileira do Orkut começou). Não sei se mandei convite para o Julian ou se o encontrei depois por lá. Sua contribuição para o ciberespaço brasileiro foi menos apoteótica, mas talvez mais decisiva. Gil iria fazer sua primeira viagem como ministro para a Midem, feira da indústria fonográfica. Descobri que John Perry Barlow, autor da “Declaração de independência do ciberespaço”, faria palestra no evento. Pedi ajuda a Julian, que colocou Gil em contato com Barlow.

Na época, Julian dava aula com Lawrence Lessig, do Creative Commons, em Stanford. Pouco tempo depois, os dois, mais Barlow e Gil, participaram de um seminário sobre direito e internet organizado no Rio por Ronaldo Lemos e pela FGV.

Meses adiante, eu estava com Julian em São Paulo, entrevistando José Serra sobre patentes e genéricos e, em seguida, ciceroneados por Sérgio Amadeu e João Cassino, visitando telecentros, para uma matéria da “Wired” que foi lançada com show pró-Creative Commons, de Gil e Byrne, em Nova York.

Lembrei de tudo isso ao ver a palestra (vimeo.com/21964000) que Julian deu em Copenhague na semana passada, sobre games e morte. Reflexão mais uma vez original e estimulante, complexificando a relação entre computadores (a metafísica/máquina de Alan Turing) e violência. Devemos aproveitar suas últimas incursões nessa área. Ainda este ano, Julian vai abandonar o tecnojornalismo por uma pós-graduação em Direito. Nova mutação em sua carreira. Tomara que o Brasil o encontre novamente, logo mais, à frente.

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