D. Salinger: o pecado de ser invisível

Tomás Eloy Martínez
Estadão

Escrito há duas décadas, somente agora este texto de Tomás Eloy Martínez veio a público, após a morte de ambos

Jerome David Salinger (1919- 2010) jamais imaginou, nem mesmo no terreno mágico das suas ficções, o perverso poder da correspondência. Talvez por rejeitar outros meios de comunicação (entrevistas, festas sociais, conferências), ele usou descuidadamente do recurso epistolar que acabaria por destruir seu precioso anonimato de 30 anos.

Na busca do equilíbrio absoluto, distante das maldições da civilização moderna, encerrado numa cabana de Cornish, em New Hampshire, com sua mulher Claire Douglas, sem luz elétrica nem água corrente, em certa manhã de 1984 o escritor acordou e cumpriu religiosamente um ritual rotineiro: descobrir as cartas escondidas na caixa do correio.

Um envelope despertou sua curiosidade, mas ele não abriu imediatamente. Preferiu, antes, tomar sua xícara de café.

Salinger, enfim, abriu aquela carta, que o desviava do seu retiro voluntário em Cornish, e descobriu as pretensões do remetente, Ian Hamilton. Crítico literário e biógrafo profissional, esse interlocutor desconhecido pretendia contar sua vida e obra num livro. Para isso, precisava que Salinger respondesse a várias perguntas, ou num encontro pessoal ou por meio de um questionário por escrito.

“Os poucos dados esquemáticos que foram publicados sobre sua vida”, justificou o escritor britânico Ian Hamilton, na vã tentativa de convencer Salinger, “às vezes são contraditórios e talvez tenha chegado o momento de colocarmos os pingos nos “is”.” Salinger nunca respondeu e, não querendo acumular lixo no seu escritório, destruiu a carta. Contudo, o duro trabalho para proteger sua privacidade começava a se desfazer.

O que todos sabem é que J. D. Salinger saboreou a fama por uns poucos dias na juventude (na agitada vida noturna de Greenwich Village, em Nova York) e achou-a amarga. Daí em diante surgiram rumores. O escritor evitou metodicamente diálogos literários com a imprensa, encontros sociais e acadêmicos e aparições em locais públicos da moda. De tempos em tempos, se deparava com uma realidade tangível, com o surgimento de algum relato que perturbava o sonho dos adolescentes.

PRESUNTO

Depois de se formar numa academia militar na Pensilvânia e fracassar nos estudos, seu pai, esquecendo as decisões democráticas, o leva para a Polônia onde ele deve descobrir os segredos da indústria do presunto.

Poucos poderão imaginar Salinger na neve de Bydgoszcz matando porcos. Mas ele também não achou confortável aquele ofício e regressou aos Estados Unidos, para continuar sendo um fracasso na universidade, antes de seguir adiante, em 1945.

Convocado para a frente de batalha, Salinger teve depressões e surtos de desespero. Seu único confidente era Ernest Hemingway, a quem comentou, por carta, que tinha ido parar com sua tristeza num hospital em Nuremberg. Uma angústia enraivecida, provocada pelo fervor patriótico daqueles momentos, deixou-o prostrado na cama, sem cura.

Dispensado do Exército, Salinger toma uma decisão precipitada: viajar a Paris. Os arroubos de loucura não o deixam em paz. Casa-se com uma francesa que não ama e, oito meses mais tarde, pede o divórcio e retorna aos Estados Unidos.

O ano de 1951 foi inesquecível para Salinger. O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye) é publicado e ele confirma sua suspeita: aquelas páginas encerravam o que muitos jovens desejavam ler sobre o obscuro e incompreensível mundo da adolescência. As edições se esgotaram. O escritor captou a linguagem coloquial dos anos 50 usando-a literalmente na elaboração do livro, sem poses culturais, e o devolveu transmutado em verdades para a rebeldia juvenil em seu país.

Hemingway leu com enorme prazer esta obra inicial. Salinger, mais tarde, se animaria a imortalizar o encontro com seu mentor por meio de algumas frases literárias que distorcem a sua alardeada modéstia: “Num abrir e fechar de olhos, Papá deixou aparecer a sua Luger, fez voar a cabeça de uma galinha e disse: “Deus meu, que talento.””

Se esses elementos não bastam para colocar Salinger no banco de qualquer biógrafo, não há outro recurso senão assinalar seu voluntário afastamento do mundo. Depois da publicação de O Apanhador no Campo de Centeio, ele cai nos braços do misticismo hindu e volta a se casar, desta vez com uma jovem de 19 anos, Claire Douglas, com quem compartilha o ambiente bucólico do campo em New Hampshire, como um “amish” que odeia os avanços técnicos da humanidade.

Qualquer uma dessas circunstâncias poderia despertar a curiosidade desses senhores acostumados a meter o nariz na vida alheia. Se Salinger tivesse procurado aparecer na mídia todos os dias, seu descanso definitivo em Cornish talvez tivesse permanecido virgem. Claro, os intrometidos, do mesmo modo que os arrecadadores de impostos, nascem com um instinto peculiar de achar que as aparências sempre enganam.

Hamilton sabia de antemão que Salinger não responderia à sua carta, mesmo deixando claro que não era um fã enlouquecido de uma revista de fofocas. Ele não estava interessado numa biografia tradicional. Sua intenção se assemelhava mais a uma busca da curva, onde os fracassos e triunfos do projeto seriam igualmente importantes.

E ele também queria saber o que ocorria quando se aplicavam os sistemas biográficos ortodoxos a um personagem que fugia de qualquer notoriedade.

Sem a ajuda do escritor, Ian Hamilton envia uma dezena de cartas a todos os Salingers que encontra no catálogo telefônico de Manhattan.

Quer informações sobre a origem do sobrenome e a relação que essas pessoas podem ter com o escritor. As respostas foram decepcionantes: algumas forneciam dados vagos sobre a genealogia ou desconheciam o nome Holden Caulfield, o narrador e protagonista de O Apanhador no Campo de Centeio.

Mais interessante é a carta de Salinger. Contrariado, porque uma irmã e o filho, ambos residindo em Nova York, tinham recebido o questionário, ele protesta, irado, contra esse cerco à sua vida privada.

Ian Hamilton toma uma decisão: não vai mais incomodar o autor nem sua família. Durante cinco anos, entra e sai de universidades e escolas públicas. Perambula por bibliotecas e livrarias. Necessitava ouvir serenamente a voz, na primeira pessoa, do biografado: soava nervosa, por causa de dúvidas, ou inspirada numa grande segurança? Era pedante ou distante pela sua humildade? Uma das primeiras descobertas surgiu nas cartas enviadas a Whit Burnett, diretor da revista Story (onde Salinger tinha publicado alguns textos). Ali o tom era inverossímil, dominado por uma adulação afetada e presunção de autopromoção. Por intermédio dessas cartas, descobriu-se que o sonho de Salinger, aos 21 anos, era de que uma das publicações de vanguarda dos Estados Unidos, a The New Yorker, aceitasse seus trabalhos. Mas a grande surpresa viria meses depois: o editor londrino Hamish Hamilton (nenhum parentesco) entrega a Ian 30 cartas de Salinger, escritas entre 1951 e 1960.

MANUSCRITO

Em 30 de julho de 1985, o livro In Search of J. D. Salinger: A Writing Life (1935-65) (Em Busca de J. D. Salinger: Uma Vida de Escritor) chega ao seu final. Ian Hamilton envia o manuscrito à Random House. A editora aceita a investigação, dá um cheque de adiantamento pelos direitos de autor e põe em funcionamento a máquina comercial: é fixada uma data para o lançamento do livro, preparado um exemplar para os críticos, desenhada a capa e tirada uma foto do autor. Na Inglaterra, a editora Heinmann compra os direitos e o jornal The Observer decide publicar o texto em capítulos.

Nesta altura, tudo corre bem. Exceto as exigências profissionais de Hamilton. Ele tinha descoberto com certa tristeza que não era esse o livro que ele aspirava. E foi tomado por um enorme respeito e nervosismo. Queria provar a Salinger que não era um oportunista. Mas possuía mais dados do escritor do que qualquer outra biografia ao longo da sua vida. As cartas que obteve permitiram captar o tom de Salinger, sua presença real.

O colapso surgiu com a carta de um escritório de advocacia (Kaye, Collier & Booze) de Nova York, enviada à editora Random House, à Heinmann e ao The Observer. Por ela, os advogados comunicavam que Salinger tinha lido as provas do livro e que não toleraria, sob nenhum aspecto, a publicação de um trabalho que utilizara sua correspondência pessoal. Se essa situação não fosse alterada, ele entraria com uma ação judicial.

Ian Hamilton viajou de Londres para os Estados Unidos sem nem mesmo mudar de roupa e cortou um grande número de citações diretas no livro, restando no final não mais do que dez palavras de cada carta. Os termos originais das correspondências foram eliminados, substituídos por outros, criados pelo crítico. E um novo manuscrito foi enviado para exame do escritor ofendido. O remédio acabou sendo mais nocivo do que a enfermidade inicial.

Salinger apelou à Suprema Corte de Justiça, que lhe deu razão. O original foi destruído definitivamente por Ian Hamilton, que concentrou suas energias e talento num outro livro, In Search of J. D. Salinger (Em Busca de J. D. Salinger), no qual relata o confronto com o segredo mais bem guardado das letras americanas. O texto exala ódio por todos os poros. “Deseja ser um santo, mas o problema dele é o de quem tem um caráter oposto à santidade.”

Excêntrico e impenetrável, Salinger, aos 69 anos, recorreu aos tribunais, e chegou a depor durante seis horas, a conversa mais longa que manteve até então com pessoas estranhas. Desse depoimento existe uma cópia legal à disposição do público.

Em setembro de 1988, 100 trabalhos sobre o escritor se acumulavam na imprensa dos Estados Unidos. Material suficiente para se fazer conjecturas, levantar hipóteses: toda Nova York possuía uma fotocópia do livro destruído de Hamilton e por US$ 10 qualquer curioso podia entrar no U.S. Copyright Office, em Washington, para examinar as cartas que deram origem à disputa.

O que não foi dito até agora é a razão secreta que impeliu Hamilton, notável biógrafo do poeta americano Robert Lowell, a se lançar nessa aventura. Suas palavras são eloquentes. “Embora pareça ridículo afirmar isto, o que mais me instigou foi a paixão, que tomou conta de mim aos 16 anos e nunca cheguei a superar.”

Naquela época, ele tinha lido O Apanhador no Campo de Centeio. Uma leitura sem alento, em que descobriu o efeito sagrado da literatura.

Jamais sonhou, naquele estado de graça, que muitos anos depois acabaria ligado ao nome desse Deus – J. D. Salinger – como seu inimigo implacável.

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