Da alma do Centro

Sempre achei o Centro da Cidade de uma alma riquíssima. Se não tem a pujança cultural do bairro das Rocas, o charme da Ribeira ou o a simplicidade das redes artesanais e grupos folclóricos da Vila de Ponta Negra, o Centro é um pólo irradiador da riqueza rústica das ruas. E as ruas, amigo leitor, são as palmas dos saltimbancos; o abrigo dos desgraçados, boêmios e artistas de toda sorte.

A rua é generosa, como bem frisou um dia o catedrático das cenas cotidianas, João do Rio. É de um sentimento imperturbável, mesmo às nuances das épocas ou da própria vida. Se os séculos deslizam sob alicerces incertos; se hoje o riso é mais solto e amanhã as dores são mais amargas, as ruas permanecem receptivas a toda sorte de sentimentos; coisas fúteis ou acontecimentos notáveis.

Coisa assim sinto apenas nas ruas do Centro. Camelôs, ambulantes, pedintes passeiam nas mesmas calçadas que empresários e homens de negócios. Bancos, centros comerciais, redes de lojas dividem ruas com pequenas lanchonetes, funcionários oferecendo empréstimos, panfletos e sanfoneiros propagandistas. O Centro é uma miscelânea de rostos, histórias, mazelas e cultura.

Hoje mesmo conversei com o jornalista José Airton de Lima, o popular Risadinha e autor do livro Lembranças de Outono. Ele disse que está diariamente na Rua João Pessoa –coração da cidade – em frente ao Unibanco, com uma sacola cheia de livros seus para vender. Da tiragem de 500 cópias (produção independente), Risadinha vendeu 200. Quase todas no período de dezembro.

O trabalho de Airton foi pesado. Digo porque acompanhei, mesmo que de longe, suas pesquisas no Instituto Histórico que resultaram em um livro de personagens fictícios intercalados na história viva de Natal, desde 1932 até os dias confusos de hoje. Na oportunidade, eu coletava informações para meu livro-reportagem sobre a Redinha Velha. Conversávamos muito sobre um dos maiores e mais obscuros crimes da história de Natal, ocorrido em 1952 – tema de matéria que fiz.

Dei uma folheada em Lembranças de Outono. Achei um trabalho bem feito. Relutei em dar os R$ 25 cobrados. Os tempos são difíceis e estou com uma pilha de livros em casa para ler. Prometi a propaganda merecida ao livro neste espaço esquecido e me despedi de mais um personagem do Centro. À noite, quero ir ao Bardalos e provar do cheio do Beco da Lama; embriagar-me da marginalidade sugada das ruas e beber um pouco da solidão de cada rosto.

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