Da Alma portuguesa ao Homem português

Por Igara Dantas
Discente de Letras, Língua portuguesa e Literaturas da UFRN {aluna do professor e poeta Márcio Dantas, que gentilmente enviou o texto para publicação}

Uma análise comparativa do ser português, presente em Luís de Camões e Fernando Pessoa.

Os portugueses foram os pioneiros nas grandes navegações, e esse fato não foi somente importante para dar a Portugal um lugar significativo na História Ocidental. Tal acontecimento influenciou todo o sentimento patriótico de seu povo que refletiria consequentemente nas produções artísticas, inclusive na Literatura. E foi assim que nasceu Os Lusíadas, a epopeia que narra os grandes feitos dos portugueses, tendo em seu próprio título “Lusíadas”, a referência ao povo lusitano como os heróis da narrativa.

Os Lusíadas remete às origens da nacionalidade e inclui não só os fatos históricos, mas também lendas como a de Ulisses e a de Viriato. Reforça-se aí a vocação religiosa do povo português e sua origem pagã. Os acontecimentos que marcaram a história de Portugal e antecederam as Grandes Navegações foi um período difícil, de muita luta, sacrifício e incerteza. Nessa época, a alma portuguesa foi toda dinamismo, transformação e mudança. Tais características então permitiram que Portugal evoluísse do nada para o apogeu dos descobrimentos.

Nesse apogeu detém-se, vale dizer, o desbravamento dos oceanos, os Descobrimentos, a posse das terras, a formação de um grande Império. Por isso que o “mar português” não tem subdivisões: nessa altura, à alma portuguesa bastou atingir o ponto máximo de sua evolução e ampliar, horizontalmente, pelos mares, o domínio de Portugal. Esse fator explica a presença gloriosa e harmônica dos dez cantos em Os Lusíadas, um número par, a representar a conquista do equilíbrio e da estabilidade. Acontece que tendo chegado ao seu apogeu, era natural que a nação não o sustentasse por muito tempo e isso é percebido por Luís de Camões ao final de sua narrativa, a qual o poeta se mostra pessimista em relação ao futuro De Portugal. O ponto máximo coincidiu com o começo do fim, a reviravolta negativa, a decadência histórica – que tem início com o desaparecimento de D. Sebastião, em África.

Novamente dominada pelos temores e presságios, pelas tensões e desequilíbrios, pelas esperanças e incertezas, a alma portuguesa nunca mais recobrou a sua altivez, todavia anseia por ela.

Diferentemente de Camões em Os Lusíadas, a intenção de Pessoa em Mensagem não é cantar os feitos gloriosos dos antepassados portugueses – é apresentar a ideia grandiosa que está subjacente à realização dos acontecimentos que engrandeceram a história nacional; a essência da obra “e a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas daquilo que os sonhos são feitos” (In, páginas íntimas e de Auto-interpretação) “para atuar espécie, é necessário saber ser indivíduo.” Assim, Pessoa propõe uma aliança entre a concepção renascentista de Homem e a descoberta romântica do “eu”, isto é, a simbiose entre duas realidades materiais numa que não é material, a Nação. “Há três realidades sociais: o indivíduo, a Nação e a Humanidade. Tudo o mais é fictício (…)” O indivíduo é a realidade suprema porque tem um contorno material e mental – é um corpo e uma alma viva – o indivíduo e a Humanidade são lugares, a nação é o caminho entre eles. Para pessoa, importa acreditar na força propulsora, cujo dinamismo é a própria natureza humana que se projeta sempre que existe um ideal:

“Deus quer, o Homem cria, a obra nasce.” (Mensagem, O Infante)

“O meu intenso sentimento patriótico, o meu intenso desejo de melhorar Portugal, provocam em mim – como exprimir com que ardor, com que intensidade, com que sinceridade! – mil projetos que mesmo se realizáveis por um só homem, exigiriam dele uma característica puramente negativa em mim, força de vontade. (…) E, depois, incompreendido. Ninguém suspeita do amor patriótico, mais intenso do que todos aqueles a quem encontro ou conheço.” (Fernando Pessoa, Páginas íntimas e Auto-interpretação). Pessoa escreveu muito sobre o “Homem Português”, que é a vertente “de fora” da alma portuguesa. Em sua opinião esse homem era (como o próprio Pessoa) múltiplo. Havia o português “número”, trabalhador obscuro, o português “que não é”, estrangeirado e afrancesado e o português “fundador”, o português que cria civilizações. O problema do povo português era para Pessoa, o querer ser tudo e não se adaptar a ser menos do que isso. Aqui ele aproxima-se já do problema da alma portuguesa. O português foi tudo apenas na época das descobertas e conheceu desde então uma repentina e abismal decadência, caindo no ser nada, de fora e de dentro, mas desejando ainda ser tudo. Os portugueses caíram então num provincianismo diletante. Deixou de haver criação original, descoberta. É como se o fim das Descobertas fosse afinal, simbolicamente e realmente, o fim de toda e qualquer descoberta. Nada mais valia talvez a pena, a não ser talvez um novo recomeço. É como se estivesse agora, enquanto raça, indefinidos no tempo e no espaço. Já se completam e viajam ao passado para ir ao futuro. É essa contradição imanente que os distancia de todos os outros povos.

A síntese bela para este paradoxo achou-a Pessoa num artigo que publicou no Diário de Noticias Ilustrado em 1929. Nele compara o fado e a alma portuguesa. Ambos estão num “intervalo”, diz ele. O fado foi formado pela alma portuguesa num intervalo, em que a alma não existia e “desejava tudo sem ter força para desejar”. O fado, cansaço da alma forte, que confia no destino, olhar de desprezo a Deus, é o regresso à natureza original, ao niilismo do homem moderno, à descrença em tudo o que não é pleno de vitalidade.

Enquanto Portugal não se ergue, canta esse fado, lirismo indefinido de quem não deseja nem deixa de desejar. “A alma portuguesa e seus grandes feitos, regressará um dia, e nesse dia futuro será de novo a realidade do mesmo passado”.

Comments

There are 4 comments for this article
  1. Thales Antonio 30 de Novembro de 2011 17:20

    Ótimo texto. Para você ver que já em 1929 quando Pessoa escreveu no diário de notícias já havia essa sensação. O auge dessa sentimento é o que está acontencendo hoje em Portugal, com a crise européia, que na minha opinião é o ponto máximo desse niilismo pós-grandes navegações ( que já dura séculos). Quanto a idéia de nação, de alcançar um objetivo, saiba que por muito tempo havia um ditado no exterior que dizia “O Brasil é o país do futuro….E sempre será” . Felizmente hoje temos perspectivas bem melhores do que nossos antigos colonizadores. Ainda esperamos nosso real “momentum”, como Portugal viveu nas grandes navegações,e isso me lembra esse objetivo de sucesso como Nação que é inerente ao ser humano…Só espero que que após esse momentum nosso não haja uma ressaca tão longa como está havendo para Portugal.

  2. Fábio 30 de Novembro de 2011 22:11

    Não conheço bem a obra de Pessoa, Achei o texto bem escrito; a idéia aparenta estar em sintonia com as palavras dele.

    Parabéns Igara!

  3. Thatyane 1 de Dezembro de 2011 14:26

    Valeu Igara, Deus te abençoe.

  4. jheferson lima 5 de Dezembro de 2011 0:47

    Parabéns Igara! vc soube realmente expor o paradoxo da problemática, determinando, assim um denominador comum, com muita nitidez e coerência.
    Sucesso…

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