Da arte de dizer o que penso

Não pense que sou humilde, eu sou sincero, e honesto. Não suporto os dissimulados nem os que só sabem falar “por trás”; os que preferem mentir a dizer a verdade, mesmo que esta verdade fira como o espeto infernal das quartas-feiras de cinza. Sou do interior e no interior é comum a falsidade, mas comigo não funciona, talvez, por isso, me confundam com os ranzinzas ou mal-humorados. Não sei como alguém prefere ser simpático a ser verdadeiro; viver permitindo que uma mentira vire uma verdade.

Não posso confiar numa nação que prefere o medo à verdade, que passe a mão na cabeça quando o certo é cortar a carne. Somos um povo feliz, é o que dizem, pelo menos pela frente. Ouço dizer, porque nunca fui lá, que os europeus são desse tipo de gente que prefere perder a amizade a agradar pela aparência, sobretudo os alemães, ingleses e franceses. Não teria medo em afirmar que talvez isso seja mais um fator que os tornam mais progressistas e desenvolvidos, ainda que toda essa sinceridade remeta às guerras históricas e inaceitáveis. Mas se Nietzsche estava certo, mais vale um campo de guerreiros do que uma academia de fariseus.

Disseram-me, na última semana, que para conviver é preciso engolir sapos, deixar para lá e sorrir sempre. Concordei em me esforçar para ser assim, mas sei que não consigo, e consigo, se desconsiderar as caras, abandonar os princípios das relações e tratar o outro como qualquer outro. Se uma coisa não tem importância para mim, para que perder tempo com ela? Melhor passar por cima, deixar como estar e cometer o pecado da individualidade e da autodefesa. Como profissional posso ser dissimulado, mas não me peça isso dentro da minha casa ou nos momentos de folga porque não vai rolar.

Suponho que sendo assim pense que afasto as pessoas de mim, pois digo que, ao contrário, encontro gente em que posso confiar sempre. As pessoas não me toleram, elas me compreendem e confiam que não medindo as palavras nunca as enganarei. Não faço tipos, tento viver melhor como sou e com o que tenho de ser. Viver não é cumprir um protocolo nem apenas ser social, é fazer parte deste social contribuindo com a sua própria transformação e não dá para ser assim apenas concordando ou aderindo a tudo que se diz. O senso-comum não significa democracia, afinal de contas, se a massa fosse a voz de deus não precisávamos sonhar tanto com o céu.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 4 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 19 de Junho de 2012 20:04

    Vixiiii… botou lascando!

  2. feique 20 de Junho de 2012 7:31

    Qual a opinião do vizinho?

  3. feique 20 de Junho de 2012 7:58

    “genuínos poetas”…ah! os adjetivos…

  4. Danclads Lins de Andrade 22 de Junho de 2012 9:36

    Franco e forte!

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