Da arte de vanguarda

Vou pegar carona nos artigos postados no blog do jornalista Tácito Costa (Substantivo Plural – link ao lado) sobre algumas polêmicas de obras de arte ditas de vanguarda. Saiu publicado no UOL e Tácito abriu discussão sobre o assunto:

“O artista plástico alemão Gregor Schneider está procurando um paciente terminal para participar de uma instalação na qual o doente morreria na galeria de arte. Segundo o artista, o doente passaria suas últimas horas de vida no centro de uma instalação aberta ao público”. Tudo sob consentimento de familiares. A intenção de Schneider é diminuir o medo da morte nas pessoas.

Em outro artigo, o poeta Ferreira Gullar criticou o artista plástico Guillermo Habacuc Vargas, por ter amarrado um cão vira-lata numa corda e prendido à parede de uma galeria de arte, onde o animal ficou definhando até morrer de fome. Tratava-se, segundo ele, de uma “instalação perecível”, uma obra de vanguarda.

Imagino que o amigo leitor tenha achado um absurdo, a priori, tais intervenções. Concordo em parte, mas deixo meus pormenores:

Achei tanto a “obra de arte” de Schneider e Habacuc, quanto a própria opinião de Gullar demasiado radicais. Gullar usa argumentos superficiais. Ora, dizer que um cachorro morrer pendurado numa parede de galeria de arte e num galpão qualquer é a mesma coisa, acho radicalismo demais, e sem embasamento.

Se sou contra a tortura “quase” gratuita de um animal para deleite de alguns, também preciso reconhecer que há uma intervenção do artista na morte do cão. E mais: a imagem grotesca da morte lenta e sofrida do cachorro – repito: por intermédio da imaginação do artista – desperta questionamentos, reflexões no público. Então não é a mesma coisa de um vira-lata morrer naturalmente em um galpão qualquer

Claro, não é por estar necessariamente em uma galeria de arte. Se o artista pregasse o cachorro no galpão acredito também no despertar de conceitos nas pessoas que o vissem.

A arte para ser vanguardista, em minha pobre opinião, precisa da busca deliberada pela originalidade; pelo inusitado. Não é o que interessa ao público, mas como interessa. É a procura de novas estéticas. Algo que rompa totalmente as convenções.

Dessa forma, acho que a “obra de arte” de Schneider não seria de todo uma porcaria. No entanto, cabe a pergunta: afora a idéia original da coisa, onde está a arte em si? Claro, imagino que o paciente terminal não deva estar pura e simplesmente deitado em uma cama na galeria, a espera da morte. Alguns floreios artísticos hão de existir. Mas, floreios são floreios…

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