Da Caixa Postal

Por Joaquim Ferreira dos Santos
O GLOBO

Quem é a melhor cantora do Brasil desta semana?

De José Américo Mendes: “Chamar Gal Costa de melhor cantora brasileira de todos os tempos é um pecado só explicado pelo fanatismo, ignorando alguém do brilho de Elizete Cardoso, essa sim, uma diva da nossa música.” • Zé Américo, por uma necessidade de espaço foi cortado um trecho da afirmação. No texto original, ceifado pelo maldito copidesque, estava “Gal Costa é a maior cantora brasileira de todos os tempos desta semana”. Emoção é coisa muito fluida e eu tinha me precavido. Cortaram. Hoje, nesta semana, tantos os dissabores que me acometem, eu já cravaria em Nana Caymmi ou Aracy de Almeida. Melhor gravação de todos os tempos da MPB hoje? Aracy Cortes cantando “Flor do lodo”, no LP “Rosa de Ouro”. Nem procura. Não tem no YouTube.

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De Flávio Mattos: “Se bem entendi, meu cronista das segundas pisou num cacófato no finzinho do texto quando escreve ‘fica graficamente’. Vamos concordar, pegou mal para quem floreia na cabeça e faz embaixadinhas com a língua pátria.”

• Flávio, a lingua pátria é uma senhora gorda, velha patusca que não se dá ao respeito, o dia inteiro a olhar pela gelosia o estrago das cascas de banana que espalhou na calçada. Escorrego, reconheço a queda e, outrossim, não desanimo. Quem me dera apenas a humilhação de novo cacófato, Flávio. Mas, e as crases, e os hífens, e o tempo que se gasta procurando no dicionário o significado de gelosia? O “outrossim” foi-lhe ao gosto?

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De Beto Ferreira: “Precisamos lembrar marchinhas que ficaram no esquecimento, mas a da ‘baratinha’ foi gravada pelo Jorge Veiga e não pelo Orlando Silva. A propósito, você lembra fisicamente e estilisticamente o grande Carlinhos de Oliveira.” • Beto, esses cantores da antiga eram da pesada. Não se mete nisso. Um andava na baratinha do outro sem constrangimento ou pundonor. Os dois gravaram a marcha (“bota esse motor em movimento, filhinha, e vamos passear”), mas se estamos falando da mesma baratinha, outros tantos devem tê-lo feito. O Carlinhos de Oliveira, se parecido comigo, adoraria também ter andado por ali. Uma vez eu perguntei ao Nelson Gonçalves a razão de tanta música, mais de cem LPs. Ele me foi sincero. Era pelo mesmo motivo que eu fazia tantas perguntas. Ele precisava pagar a baratinha. O finado Millôr foi mais fino: “O dinheiro não dá felicidade, mas paga tudo que ela gasta.” E elas gastam muito, Beto.

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De Laerte Gomes: “O ‘dedo duro’ surgiu em 1960 quando o Diário da Noite virou tabloide sob o comando do Dines. Era parecido com os ingleses, manchetão. Tinha muitas páginas para o assunto principal e então o Dines pediu ao Ézio Speranza que criasse uma marca para orientar o leitor. O Ézio fez um quadro de fio fino com a mão preta apontando para fora. O Raul Giudicelli, no copy, batizou de dedo duro.”

• Laerte, um revisor de jornal me contou que foi o repórter Otávio Ribeiro, vulgo Pena Branca, o primeiro a chamar de presunto o corpo estendido no chão. Verdade? Otávio estaria regando um sanduíche com Brahma na Praça da Bandeira enquanto esperava a chegada, sempre dramática, ótima para fotos, dos familiares de um atropelado. Ali ele teria feito a relação do presunto no sanduba com o defunto já ensanduichado dentro de um lençolvelho. É isso, Laerte? Ou é só mais um erro na vida do revisor?

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De João Carlos Chagas: “Você precisa conhecer o bife de fígado acebolado que tem todas as terças na Puleiro do Galeto no corredor central do Cadeg, em Benfica. Do balaco.” • João Carlos, eu preciso conhecer tanta coisa que se avoluma, o endereço da Luma, um LP perdido do Roberto Luna, que mistério tem Clarice, onde fica Maracangalha, de onde vem o baião, quem lê tanta notícia, a fórmula do amor e o que será que dá dentro da gente e não devia. Eu preciso saber por que, se o tempo não existe e só existe o passar do tempo, como diria o Millôr, por que a vida — que será da luz difusa do abajur lilás? — só faz música no contratempo?

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De Ricardo Chã: “O terreiro do Seu Sete da Lira não era no Encantado, mas em Santíssimo, subúrbio da Zona Oeste. Também acho que a grafia correta era Seu Sete da Lyra. Um dia, alguém da minha turma do ginásio do Colégio Ferreira Viana gritou ‘Viva Seu Sete’ no meio da aula, e fomos todos parar na coordenação.” • Ricardo, o subúrbio era de fato mais espiritualizado, não tinha a Carminha da Adriana Esteves infernizando a vida de inocentes como o Tufão. O grande perigo era o vento encanado. Um dia ele se aproveitou de uma janela aberta e, pegando por trás, nas costelas, matou uma prima minha depois de longa agonia e doloroso cacófato. Foi no tempo em que o emplastro Sabiá bastava para proteger o suburbano. Hoje, eu reforçaria a segurança do lar com espada de São Jorge na entrada e uma Papaiz de quatro voltas na porta principal.

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De Luiz Turiba: “Seu artigo ‘Bumbum de carnaval’ me deixou desarmado ao anunciar que nada te ‘impressiona mais do que o jeito como caminham, sem olhar para a frente, arrogantes e poderosas’. Meu pescoço sente a mesma coisa. Terminei o carnaval com torcicolo. Por onde elas andam quando não é carnaval?”

• Turiba, eu pego às nove e largo às dezenove. Tudo que eu sei publico num grande jornal da capital, sempre com sua imensa boca de papel pedindo que eu lhe enfie línguas e línguas de notícias goela adentro. Cumpro-lhes as ordens com Vigor ou CCPL, sempre dando uma lambida antes naquela nata presa na tampinha. De bundas no carnaval, não sei onde se escondem ou se revelam. Nada delas, para cunhar mais um cacófato, vi. Imagino-as. Em saudação a todas, deixo outra frase do Millôr. “Anatomia é coisa que os homens também têm, mas nas mulheres fica muito melhor.”

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