Da família, de Deus

Por Elilson Batista

Cheguei hoje cedinho na bodega de Seu Zé Fonseca para comprar pão. Conhecer do gênio e do pavio curto dele, fui logo perguntando:
– E aí, Seu Zé, assistiu ontem a votação contra a presidente Dilma?
– Um pedaço, pois logo me deu um embrulho na barriga e mandei a minha mulher desligar a televisão.
– Por que, homem?
– Seu menino, era pra arrudiar aquele palco de circo fuleira com cerca elétrica, mas cerca elétrica do estrangeiro, para que nem bode passasse, imagine uma curriola de gente mal-empregada daquela.
Ponderei ainda:
– São poucos, mas ainda tem homem de bem lá.
– Homens de bens. De bens, isso sim. Se fosse homem de bem, não era para estar lá. Então prende todo mundo, que é melhor prevenir do que remediar.
– Mas Seu Zé, eles não votavam em nome da família?
E Seu Zé já brabo:
– Da família deles: do pai, da mãe, dos filhos, dos netos. Nepotismo puro. Da família dos outros, da família brasileira, não lembraram nem pro cheiro.
Para cutucar a onça ainda mais, lembrei:
– Também votaram em nome de Deus…
Ele respondeu resmungando, indo atender outro freguês:
– Do Deus Dinheiro.
Eu, me fazendo de desentendido:
– Tu deu dinheiro?
O homem se enfezou de vez:
– Você tá mouco, é? Do Deus Dinheiro. Do Deus Dinheiro, que é só nisso que eles creem.
Já tendo ouvido o que queria, fui tomar meu café da manhã, para aliviar a noite mal dormida.

Elilson José Batista, in Toda vã filosofia de Seu Zé da Bodega

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