Do Flipipa e outros eventos literários

Por Sérgio Vilar
NO DIÁRIO DO TEMPO

Em Pipa desde ontem. Acompanhei as mesas e sobretudo a movimentação do público em torno da Pipinha Literária – um pequeno complexo de atividades relacionadas à literatura. Tento diagnosticar o proveito desses eventos literários. Quase todos dispendem grande montante de dinheiro e deixam muito pouco proveito.

Fialho detonou a rasgação de dinheiro da Fliporto. Concordei com os argumentos dele, que organizou há umas semanas um evento com R$ 20 mil reais. A UBE/RN, fez um também recente com R$ 5 mil, só com literatos locais. Cada qual com seu alcance. O do Jovens Escribas apresentou proposta interessante focada no livro. Enfim…

A Flipipa investiu diretamente R$ 100 mil. E conseguiu mais uns R$ 300 mil indiretos, em forma de publicidade, apoios como a biblioteca itinerante do Sesc, etc. É muito? Difícil afirmar. Ou concordar. Quando se vê muitas crianças circulando entre muitos livros, escritores e um ambiente literário contagiante, qual o valor do dinheiro?

É o que tenho visto por aqui, sobretudo nesta terceira edição do evento. Muitos jovens, estudantes e nativos. Claro, para algum fica uma imagem, um incentivo. Também gostei das temáticas levantadas. Perdi a primeira mesa em razão de entrevistas fora da tenda. Pelo que colhi de quem viu, a primeira sobre a obra de Lamartine foi decepcionante.

Assisti metade da segunda, com o português Miguel Sousa Tavares. O tema foi bem desvirtuado. Woden Madruga mediou vários assuntos. E dividiu a plateia que gostaria de se aprofundar no historicismo do livro Equador, e outra que gostou da variedade abordada. Gostaria que ele falasse da mãe, Sophia de Mello Andresen – uma senhora poeta do mar.

A palestra de Arnaldo Antunes foi legal. O esperado. Temia que descambasse muito para o lado musical. Chato mesmo foi o trato dele com a imprensa. Mais uma vez a “estrela” se isolou e não falou com ninguém. Ao contrário de Fernando Morais, que visitou o complexo mesmo antes do dia de sua palestra e cedeu entrevista a meio mundo de gente.

Hoje talvez seja o melhor dia. A primeira mesa traz o debate até manjado em torno das cartas de Cascudo e Mário de Andrade. Vamos ver se sai algo novo. O modernismo de Bandeira traz o crítico Davi Arriguci Jr. O cara é fera. E na terceira, Fernando Morais dá mais uma vez o ar da graça, provocado por Cassiano Arruda.

Volto aqui depois.

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Jóis Alberto 19 de novembro de 2011 19:45

    Ótimo, Marcos Silva! Considero que você tem inegável experiência e competência para abordar diversos temas culturais, afinal há muito você trabalha com isso – pelo menos desde a juventude, como poeta, e também como professor universitário.
    História cultural é uma atividade que me interessa. Já li alguns livros dessa área, como por exemplo um de Peter Burke, autor que não sei se você gosta, mas que eu achei interessante… Como você sabe, existem outros grandes autores nessa área, como Norbert Elias, Foucault, Roger Chartier… Que tal você escrever um texto sobre História cultural aqui para o SP? Ou já escreveu anteriormente?

  2. Marcos Silva 19 de novembro de 2011 17:00

    Sérgio:

    Então, sinto diferença entre tema e abordagem. Descartes é um tema pra lá de discutido há séculos, Aristóteles idem. Isso não impede que abordagens diferentes sobre um e outro sejam feitas.
    Não assisti à fala de Moacy no ano passado (é meu primeiro FLIPIPA), gosto muito do que Moacy escreve, sou um dos prefaciadores de seu iivro sobre a medonha edição do Dicionário do folclore brasileiro, de CC. Vc acha que eu repeti o que Moacy falou? Se isso ocorreu, junto com a vidência, tivemos um caso de transmissão de pensamento.
    Não sou cascudólogo, como as pessoas do ramo já falaram várias vezes. Sou historiador. Considero Cascudo um personagem importante, com muitos livros à espera de reedição e discussão.

    Jóis:

    Obrigado pelos comentários. Sim, tenho tratado de outros temas. No ano que vem, haverá um encontro do Núcleo de História Cultural da ANPUH em Teresina, PI, farei a conferência de encerramento, falarei sobre sertão e história a partir da literatura brasileira mas não abordarei Cascudo, pretendo ficar entre Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Deverei participar também de congresso em Sevilha, Espanha, discutindo ensino de História no Brasil ditatorial. Espero apresentar texto no congresso francês sobre o centenário de Jorge Amado. E publicar um ou dois livros sobre História e Cinema. Se a saúde o permitir (ela permitirá).

  3. Jóis Alberto 19 de novembro de 2011 11:55

    Professor Marcos Silva, reafirmo que sendo o evento patrocinado com recursos públicos, considero que é obrigação profissional e dever moral do escritor palestrante conceder entrevistas à imprensa, exceto em caso de doença, acidente ou outras situações extremas. Acho que isso – entrevistas, individuais ou até mesmo coletivas à imprensa – deveria ser uma contrapartida exigida pelos órgãos públicos que financiam o festival, como o Ministério do Turismo, etc, até mesmo em cláusula contratual, por que não? Turismo, mais do que qualquer outro setor, precisa de publicidade, e como haverá propaganda de Pipa e do festival literário, se o escritor, sendo celebridade ou não, se recusa a falar com a imprensa? De qualquer modo, evidentemente o critério para entrevistar ou deixar de entrevistar não deve ser exclusivamente o de fama, mas deve se priorizar igualmente o da qualidade da produção artística e intelectual do cidadão, certo? Então, sem dúvidas, Marcos Silva, como você tem um importante trabalho como poeta e historiador, será sempre um potencial entrevistado para qualquer bom repórter. O que não vale é o jornalista ficar decepcionado, frustrado, com a recusa de se conceder entrevistas, com esnobismos, ou, ao contrário, com assédio por matérias e publicidade, não só porque trata-se de coisas desagradáveis, deselegantes, porém especialmente porque frustram também a expectativa de maior intercâmbio cultural, de maior profissionalismo na área – isso sem contar que os veículos de comunicação tem despesas com a cobertura jornalística e não vão querer bancar viagens perdidas, frustrações… Mas intercâmbio cultural, maior profissionalismo, maior renovação dos temas em debate, formação de público leitor, etc, podem ser questões para outras edições do FliPipa e de outros comentários meus aqui.

  4. Sérgio Vilar 19 de novembro de 2011 10:55

    Marcos, mantenho minha posição de tema manjado. Aliás, eu e o público. Foi a palestra menos visitada. O assunto já foi muito discutido, inclusive este ano. No último Flipipa, Moacy Cirne passeou por esse assunto, também. Enfim. Mas assisti e gostei da palestra. Até escrevi agora há pouco em meu blog, antes de ler seu comentário, da mistura boa do seu discurso mais acadêmico e dos causos coloquiais de Diógenes. Mas acredito que sua pessoa, pelo conhecimento que possui, poderia ser convidada para comentar outros vários assuntos que julgo mais pertinentes.

    Abraço do vidente!

  5. Marcos Silva 19 de novembro de 2011 8:01

    PS – Jóis, muitos músicos e poetas (cineastas etc) conversam com qualquer um(a) que os aborde. Eventualmente, vc encontrará participantes menos estelares nos FLIPIPAS da vida. Mesmo que seja eu.
    PS do PS – Nem tudo é festival. Festival pode ser algo, até muito. Assisti à fala de Davi Arrigucci Jr., achei ótima, com naturais discordãncias. Além do brilho expositivo e analítico de Davi, considerei ouvi-lo uma oportunidade rara de pensar junto com outro, até para divergir em alguns pontos.

  6. Marcos Silva 19 de novembro de 2011 7:46

    Sérgio:

    Como vc sabia, antes de acontecer, que o debate sobre as cartas Mário/Cascudo seria o já manjado?
    Nasce um vidente!

    Marcos Silva (um dos debatedores)

  7. Jóis Alberto 18 de novembro de 2011 14:57

    Sérgio Vilar, sem dúvidas é lamentável o estrelismo de Arnaldo Antunes para com a imprensa local. Por mais talentoso e criativo que Arnaldo seja como compositor e poeta, o fato é que ele veio participar de um evento público e financiado em grande parte com recursos públicos, então se ele concedesse entrevista a jornalistas não seria favor nenhum, mas até uma obrigação, um dever moral… Agora, se Arnaldo Antunes fosse convidado de uma festinha privê, bancada exclusivamente com recursos particulares de um patrocinador ou empresa da iniciativa privada, eu até admitiria o direito dele de não querer falar com jornalistas… É por esse tipo de coisas que não me entusiasmo em viajar e vencer os mais de 80 km – 160 km, contando ida e volta – que separam Natal de Pipa para participar desse festival literário, evento, que, de qualquer modo, é louvável em vários outros aspectos.

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