Da fortaleza de Nei Leandro


É sempre um alento ler as críticas literárias de Carlão. Devorei cada palavra da resenha de hoje. A bola da vez foi A Fortaleza dos Vencidos. O último romance de Nei Leandro de Castro despertou poucas opiniões. Além de Carlão só li uma tecitura menos opiniosa de Nelson Patriota.

Por coincidência terminei hoje, às 0h20, o último capítulo do livro. Li outros dois de Nei: As Pelejas de Ojuara e Dunas Vermelhas. Este último achei o melhor dos três. Não me lembro de outro livro capaz de traçar com tamanha profundidade a alma do natalense. E tudo a partir de faltos históricos romanceados.

A Fortaleza dos Vencidos ratifica a linguagem moderníssima empregada nos outros livros do autor. Para quem admira a poética empregada no romance ou pelo menos as frases curtas e certeiras, a narrativa de Nei parece descuidada, cheio de vírgulas. Ainda assim há resumos geniais de pensamentos mesmo de forma coloquial.

Essa forma linguística me parece uma singularidade marcante e até simbólica na obra de Nei Leandro; a mostra mais evidente de seu talento ficcional, embora passe despercebido por alguns e recebe até críticas pelo estilo.

Talvez existam, de fato, “gorduras” no livro passivas de corte, como o preciosismo na descrição das excitações da gorda perturbada. Me pareceu impulso do autor na descrição destas veleidades de que tanto gosta e sabiamente sabe escrever.

A carreira de militante comunista de Esmeraldino – o outro protagonista que intercala os capítulos com a gorda – soou “chatíssima” a Carlão. Não uso o superlativo, mas também preferi as “securas” e desmantelos da gorda. Mais pela originalidade. Novelas a respeito dos tempos ditatoriais me enchem tanto o saco quanto filme sobre holocausto.

A última parte do livro, esta sim, bem mais enxuta (mesmo com a mesma característica linguística) é genial. Com pouquíssimas palavras descritivas e em linguagem de batepapo de bar, Nei cria uma aura fantasmagórica na Fortaleza dos Reis Magos impressionante.

Também economiza de forma genial as palavras finais para escancarar de vez a demência da gorda Marionália e mostra, como afirmou François Silvestre (adepto de estilo narrativo quase que radicalmente oposto ao de Nei), que Nei Leandro é dos grandes ficcionistas do Brasil, mesmo misturando putaria e ditadura.

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