Da intenção ao livro

Anchella Monte

O SESI (RN) tem um projeto, denominado Indústria do Conhecimento que, entre várias ações, promove anualmente palestras voltadas para os trabalhadores da área em que atua. Fui convidada este ano, como palestrante, para falar de um tema solicitado pelo pessoal da Coteminas, que já me chegou assim, pronto, com todas as rimas (ou ecos):  Orientação e organização para publicação literária. Deveria falar sobre a minha experiência como autora, as etapas e/ ou dificuldades enfrentadas. Mas me ocorreu que relatar para eles apenas a minha experiência não seria interessante, haveria maior relevância em expor a trajetória de vários autores das nossas terras potiguares. Solicitei a doze escritores, de prosa e poesia (de quem eu conhecia o e-mail), que ampliassem o  título Da intenção ao livro. O que há entre o desejo de publicar um livro e a concretização desse desejo? Por que existe a intenção de compartilhar o que se escreve? Não coloquei as indagações, o que limitaria a escrita de cada um.  E assim os depoimentos surgiram diversos, mas igualmente importantes. Acrescentei o meu aos quatro recebidos. E a palestra foi muito produtiva, creio ter conseguido provocar no pessoal presente a vontade de conhecer nossos autores, os nossos livros, já que alguns deles me perguntaram, ao final, onde poderiam encontrar a literatura do Rio Grande do Norte (e eram todos operários!).

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Depoimento sucinto sobre a luta para publicar meus livros

Por Rizolete Fernandes

Escrevi meu primeiro livro, “A história oficial omite, eu conto: Mulheres em Luta no Rio Grande do Norte – de 1980 a 2000” em 3 anos e o publiquei em 2004. Foi uma trabalheira juntar o material desses 20 anos de militância no movimento feminista, disperso em várias pastas e locais diferentes e em alguns casos tendo que pesquisar, procurar informações e dados noutros lugares e com diferentes pessoas.

Mas nada disso se compara ao trabalho que tive para publicar. Sem experiência e orientação, corri às gráficas locais, que me apresentavam orçamentos impraticáveis, sem falar que até aí não me dava conta do trabalho editorial que precede ao gráfico. Queria que meu livro tivesse boa apresentação e passasse a figurar, mediante os trâmites legais, entre as publicações nacionais.

Nesse meio tempo, ocorreu um encontro de editoras feministas em Florianópolis-SC e uma amiga me convenceu de que minha presença poderia resultar na almejada publicação. Fui, mostrei ao livro a algumas editoras, mas saí dali sem nada garantido. A proprietária da Editora Mulheres, que ficara com o cd dos originais, me escreveu tempos depois, informando que naquele momento não tinha verba disponível para a linha do meu livro, mas deu uma dica que foi fundamental para a resolução do problema: o livro certamente interessaria à Editora da UFRN. Criei coragem, fui lá e não é que deu certo?  O editor propôs uma co-edição, sistema em que o autor entra com a metade e a Editora com a outra metade dos custos. Enfim, o livro saiu.

Quanto ao livro de poesia – “Luas Nuas”, 2006 – a correria foi menor, embora a dúvida sobre a publicação multiplicasse. Explico, o primeiro livro tinha sido de interesse do movimento feminista, de quem contei sempre com o aval. Já com um livro de poesia era diferente. Natal tem muitos/as e bons/as poetas e a minha dúvida sobre a qualidade do meu trabalho era freqüente e desanimadora. Por intermédio de uma amiga comum, mostrei os originais a um professor e poeta, cuja opinião, encorajadora, foi decisiva para que procurasse a proprietária (e também poeta) de uma editora local, a Una, que topou publicar, sem cobrar pelo trabalho editorial. Arquei, claro, com as despesas de registro e diagramação. Então eu dispunha do valor da impressão cobrado pela gráfica e, assim, lancei meu livro sem patrocínios, mas também sem maiores tormentos.

Já tenho pelo menos mais dois livros de poesia prontos. Vai começar tudo de novo, pois não disponho de verba alguma para custeá-los. Apresentei o projeto ao Programa BNB de Cultura e outras instituições da área, mas não logrei êxito na busca do patrocínio.

Vale lembrar que não procurei submeter os dois livros às leis locais Djalma Maranhão e Câmara Cascudo, de incentivo à cultura, por entender que humilham o artista, ao obrigá-lo a bater às portas do empresariado em busca de patrocínio. Ora, o empresário nem sempre está interessado em patrocinar uma atividade artística que não lhe dê retorno, a exemplo da poesia, nem o Estado ou a Prefeitura deveriam deixar a seu cargo o destino de uma verba que, em se tratando de renúncia fiscal, é pública.

Por fim, lembro Borges quando dizia que “Publicar não é parte essencial do destino de um escritor”, tarefa  de que deveria se incumbir outros entes da cadeia cultural..

Publicar um livro

Por Lisbeth Lima

Escrevo há muito tempo. E como o objetivo de quem escreve é ser lido por mais pessoas do que a própria família, havia um desejo de publicar um livro. Juntei os poemas que considerava de melhor qualidade e liguei para um editor conhecido aqui em Natal: Abimael Silva, do Sebo Vermelho. Expliquei que sabia que ele editava livros e  queria publicar. Marquei para mostrar os poemas e saber sobre a possibilidade de publicá-los. Dois dias depois, li num jornal local que as inscrições estavam abertas para o concurso de Poesia Otoniel Meneses. Telefonei de volta para o editor, dizendo que gostaria de desmarcar com ele porque eu queria participar do concurso. Fiz minha inscrição e submeti 40 poemas e esperei o resultado. Qual não foi a minha surpresa quando soube que havia ganhado o primeiro prêmio. Fiquei feliz da vida porque o prêmio contava com uma quantia em dinheiro que era equivalente ao valor de uma publicação. Sim, porque publicar todo mundo quer, mas é muito caro. Telefonei de volta para o editor, dizendo que havia ganho o concurso e que gostaria de mostrar meus poemas. Acrescentei mais 20 e levei numa pasta para o Sebo Vermelho. Publiquei, assim, Dormência(2002). O segundo livro, Felice (2004),  publiquei com o Sebo Vermelho e a Editora Bagagem, de Campina Grande. São 50 poemas de amor. O terceiro, Romã, publicado no ano passado, fiz também pelo Sebo Vermelho. São 70 poemas.

Depois dos três livros, percebo que publicar  é caro e o retorno é pequeno. E o retorno é pequeno não porque o conteúdo seja ruim, mas porque além de publicar é preciso que haja uma boa divulgação e distribuição. A internet hoje em dia facilita um bocado a divulgação, mas a distribuição é mínima. Claro que as editoras de grande porte fazem um caminho diferente porque a distribuição é garantida e a divulgação vem junto, tudo num “pacote”.  Publicar em Natal é muito bom, mas poderia ser ainda melhor caso houvesse uma maior distribuição. Mas aposto no Sebo Vermelho e acredito que em breve a distribuição possa melhorar…

Minha vida de escritor e editor

Por Clauder Arcanjo

“Não quero somente um bom livro, quero um livro belo.”
(Clauder Arcanjo)

De início, a paixão pela leitura, desde criança. Lá, no chão sagrado da minha terra natal: Santana do Acaraú, Ceará. Entre as prateleiras da biblioteca do ginásio, a descoberta do engenho e da arte de Jorge Amado, Machado de Assis, José de Alencar, Monteiro Lobato, e de tantos outros. Com pouco mais, o fetiche pelo livro, como objeto de desejo e volúpia. Muito tempo depois, a decisão de ser escritor. Algo sempre adiado, mas finalmente enfrentado. Dá-se, desde então, a batalha diária, e de certa forma cruel, com as letras; na busca insana e desesperada pelo vocábulo certo, pelo ritmo adequado, pelo corte exato. Além da sanha contra as imperfeições. Era novembro de 2002.

Foram brotando resenhas, crônicas, contos, poemas, romances, e ensaios esparsos. Tudo de roldão, como se fruto de águas literárias represadas. Cinco anos de batalha… o primeiro fruto: Licânia (contos). No entanto, logo percebi: se escrever era difícil, publicar caía na conta do intransponível. Da intenção ao lançamento… um fosso, um grande fosso. O asco às descuidadas edições do autor, forçou-me a ocupar o posto de editor. Surge a Sarau das Letras.

Escrevinhador menor, flagrei-me na condição de exigente — de rabugento, diria até —, quanto ao tema publicação. Projeto gráfico, revisão, orelhas, marcador, desenho de capa, diagramação, ISBN, ficha catalográfica, papel, prefácio, sumário… Tudo me era novo, porém com a meta da excelência. Utopia que nos arrasta a melhorias inimagináveis.

Escritor provinciano com padrão editorial de grande centro?!… Quem há de entender os desígnios presentes nas páginas de um tomo? Ou na cabeça de um livreiro.

Após quatorze obras, a Sarau permanece eivada de falhas, todavia sonhando, sempre. Cada coleção interessante que vejo, ou singular obra publicada, mundo em fora, o mesmo sentimento, misto de cobiça e de desafio: podemos, e devemos, sonhar e fazer mais.

Prestes ao debute do meu segundo ‘filho’ — Lápis nas veias —, reforço, sobremaneira, o meu credo de ledor, escritor, e pretenso livreiro: “Não quero somente um bom livro, quero um livro belo.”

Da intenção ao Livro

Por Alexandre Abrantes

Iniciei as primeiras linhas aos nove anos. Lembro-me como se ainda hoje: os cadernos anotados com palavras cheias de garranchos, erros gramaticais, de sintaxe, mas todas repletas de um coração ávido pelas descobertas – a principal era a própria poesia, a linguagem sussurrada por uma música vinda de longe (ou de bem perto, ao pé do ouvido). Depois a preferência pelas folhas soltas, de caderno ou sem pautas, espaço para a imaginação, para a vontade de expressar a vida, sua totalidade feita de espantos, surpresas, alegrias e angústias. O menino escrevia e largava os versos no chão. A mãe, para que aquelas primeiras peripécias lingüísticas não se perdessem, guardava os papéis num lata de sorvete. (Quando li o poema “Metáfora”, de Gilberto Gil, senti que a imagem era uma realidade, que tudo cabia na lata do poeta, ou nada, se assim for preciso para a sua plenitude).

Continuei, pela adolescência, os meus exercícios poéticos, sem nenhuma pretensão, salvo o prazer de encontrar um par para certa palavra, ou uma combinação de palavras para certa sonoridade. A poesia vinha sem hora marcada e me marcou para sempre, para nunca mais me deixar sem versos.  E estive sempre aberto para ouvir o eco de coisas invisíveis, como se tivéssemos que refletir – espelhos – objetos reais, ainda que intocáveis.

Aos dezessete anos, já no curso de Engenharia Civil, deparei-me com o mundo do cálculo, com as fórmulas geométricas das ciências exatas. E embora a sobrecarga de aulas tenha me absorvido o tempo, nos intervalos das horas de dever, a poesia surgia, renascia no meio das cinzas. Mais tarde, descobriria que os estudos para o engenheiro que jamais fui, do ponto de vista técnico-profissional, me ofertou o raciocínio lógico, a amplidão nas combinações matemáticas para o equilíbrio das forças da linguagem, a abstração e a síntese necessárias à concisão nos conceitos, à economia de palavras para exprimir sentimentos, pensamentos, sensações. E se um dia a engenharia de versos me fizer construir infindáveis edifícios artísticos, devo a esse quadra de anos uma boa parcela da aprendizagem.

Já no curso de Direito, aos vinte e dois anos, a busca da verdade pelas leituras filosóficas e, em geral, humanísticas, me fez ter mais consciência do poema como veículo de pensamento. Nesse tempo, comecei a compilar escritos como modo de organizar minha produção literária até aquela fase. Mas era algo incipiente, pois não esboçava ansiedade para publicar. A paciência sempre andou ao lado da minha necessidade de equilíbrio para extrair fragmentos da linguagem. E muito antes de ler o conselho de Borges de que não se deve ter pressa em divulgar qualquer produção estética, e a lição de Rilke de que se deve buscar dentro de si mesmo a verdade da necessidade de escrever, eu já exercitava a moderação para melhor esperar o momento certo, e a observação interior que me fazia descobrir a minha essência, minha sede de busca.

Então, veio o que posso chamar de caminho aberto para uma melhor apreensão do que seja a Literatura. Aos 30 anos, entrei no curso de Letras. E no contato com os grandes escritores e suas almas impressas nos clássicos, somado à crítica literária de obras imortais, minha paixão pela expressão poética ganho relevância, e pude aliar com mais consciência o conteúdo com a forma. Poesia é forma, é dizer de um modo novo coisas que já foram ditas há muito tempo, infindas vezes.

Aos 34 anos, com o Prêmio de Poesia Luís Carlos Guimarães, pude desfrutar de um reconhecimento, não tanto ao que eu havia criado esteticamente, mas a essa luta com as palavras (e aí me vem à mente Drummond) que já completava um quarto de século. E se de um lado, o poeta Carlos nos adverte que a luta é vã, de outro, é ela que nos dá o sabor para continuar buscando o poema perfeito, quem sabe. Ainda que ele jamais seja escrito neste mundo.

Bem, com o prêmio senti que a hora havia chegado. Havia chegado o momento de escolher os poemas que, ao lado dos premiados (que foram 10), poderiam representar um pouco da minha trajetória poética até então. Daí, organizei meu livro com 78 poemas, em homenagem ao ano que ganhei meu primeiro verso: “Eu, caminhando pela estrada.”. Mas a maior surpresa, para mim, foi o título do livro, que só me veio há menos de seis meses da publicação. Eu tinha em mente alguns títulos, dentre os quais “Fragmentos de nós”. Mas fui sussurrado com o nome “No coração das palavras”. E disse para mim: é esse! Sintetiza todo o meu pensamento do que seja a força da poesia. Enfim, todo o sentimento da vida, do homem se encontra no coração das palavras. Meu primeiro livro foi publicado em agosto de 2003.

Posso dizer que esse foi um longo caminho para chegar ao livro. De outra parte, para efetivamente publicá-lo foi um outro caminho, obviamente menor no tempo, mas com uma demanda que nos exige paciência. Com os poemas reunidos, ousei em contatar o poeta Nei Leandro de Castro para o prefácio, uma vez que ele participara do júri do Concurso Luís Carlos Guimarães. Como se não bastasse, consegui a apresentação, na orelha, com o poeta Diógenes da Cunha Lima. Mas eu sonhara com alguns poemas ilustrados e criei coragem para chegar ao artista plástico e poeta Dorian Gray Caldas. Depois de feito o projeto gráfico, diagramação, etc., fui atrás da editora. Nei Leandro me sugeriu uma boa empresa do Rio de Janeiro: Lidador. Com o orçamento em mãos, fui atrás de alguns patrocínios, apenas para abater parte das despesas com a edição, o convite, a festa de lançamento. Digamos que auferi uns 25% do custo total. No entanto, penso que vale a pena fazer economia para focar num trabalho digno do seu sonho em partilhar com os familiares, amigos e amantes da poesia o seu amor pela palavra.

Minha primeira noite de autógrafos foi no dia 8 de agosto de 2003, numa sexta-feira de muita alegria e calor humano. A poesia agradeceu!

A exposição, para não dizer sucesso do livro (isso não é o principal, o que vale é a consciência da arte), me fez ser convidado para falar, principalmente em escolas, sobre poesia, literatura, ato criador. (A poeta Anchella Monte foi uma das incentivadoras – a participação no seu inestimável projeto foi bastante proveitosa).

Mas a poesia, como o tempo, tem a sua hora, a sua autonomia. Depois de “No coração…” ela me deu um exílio de quase sete anos. Sem pressa, sem ansiedade e com a paciência de sempre, eu já estou preparado para, em 2010, partilhar “Exílio sem Canção.” E para terminar em poesia, quero me irmanar com os leitores com o poema “Irmandade”:

“Vivo de palavras,

(e palavras vivas)

onde vivem mortos

entre homens que

[sofrem

e um choro que ainda

[não nasceu.

Vivo a mesma espera

de mundos que gritam

sem que o céu se abale

ou a terra acorde.

Vivo sonhando minas

de ouro invisíveis,

sonhos distantes,

[possíveis,

o vôo do anseio humano.

Vivo de povo, rosas,

de mãos que se enlaçam,

olhos que se entregam

e corações que explodem.”

Abraços abrantinos (Nov/2009)

Da intenção ao livro

Por Anchella Monte

A primeira publicação foi quase que sem querer. Ainda estava no ensino médio (naquele tempo chamado de 2º grau, 1976), mas já escrevia bastante, aliás, escrevia com mais frequência e de forma mais apaixonada que hoje, porque me tornei cautelosa e menos disponível. Conheci, em uma fase de encontros maravilhosos, várias pessoas que também escreviam avidamente, dois deles eram também  desenhistas e pintores, e outro um fotógrafo autodidata fantástico. Um deles, não me lembro qual, era sobrinho de um senhor que trabalhava na gráfica da então ETFRN. Pagamos o material, e o senhor tio do amigo realizou a impressão por um custo mínimo. Como sou uma pessoa cuja memória se esvai com a maior facilidade, não me lembro também se houve lançamento (Vicente? Estêvão? Fernandes? Vocês se lembram?), mas cada um ficou com uma parte dos livros e vendeu como quis ou pode. O livro de poemas chamou-se Passagem, e embora fôssemos muito jovens (eu com 19 anos), não o desdenho, tinha seus méritos. O livro seguinte possuía um título que era uma frase (queríamos ser diferentes) e também foi coletivo.  A última palavra da “frase” terminou por ser o verdadeiro título, Ato. Desse não gosto, éramos vários autores e o conjunto, em termos de qualidade, ficou muito irregular. Porém foi escrito e distribuído em uma época marcante, quando a “geração mimeógrafo” fazia às vezes dos editores, inacessíveis e caros. Ou seja, rodamos nosso livro em um mimeógrafo, custeamos uma capa dura (não muito) e “grampeamos”. O livro foi lançado em um evento no diretório acadêmico da nossa área (Letras), e todos nós, sem exceção, fomos “crucificados” como alienados e coisas assim, afinal o ano era 1978 e o país estava imerso em cruciais acontecimentos políticos. Não era época para se falar em amor, ou estados de espírito pessoais. Dois livros, portanto, que custaram pouco e as despesas  foram divididas.

Muitos anos depois, filhos depois, escolas e mais escolas depois (às vezes três expedientes), escrevendo sempre, mas guardando apenas o que escapava das minhas faxinas de fim de ano, reencontrei um amigo dos tempos de diretório acadêmico, dos corredores do setor 1 e 2, e que estava bem ligado à vida cultural do nosso estado. Falou-me do Sebo Vermelho e fomos juntos conversar com Abimael Silva. Pouco depois publicávamos A Trama da Aranha, 2001, em regime de co-participação. Na época eu trabalhava na Coeduc,  escola cooperativa, e dávamos vida ao projeto Poesia em Cena,  no qual alunos e professores, juntos nos estudos e no palco, declamavam poemas de poetas potiguares. O grupo promoveu um recital lindo na noite de lançamento, na A. S. Book – depois A.S. Livros). O dinheiro para pagar a minha parte saiu dos bolsos familiares. E o que recebi  em vendas não chegou nem perto de pagar o que gastei. O que tenho lucrado com livros são as alegrias ofertadas por leitores. Uma escola certa vez convidou-me para uma “homenagem”, e vi crianças em torno de cinco anos interpretando alguns poemas meus, como o Família de Pano. É muito.

O segundo livro solo, Temas Roubados, 2006, também fiz com Abimael; entrei igualmente com uma parte das despesas, fiquei com o apurado do lançamento e uma porcentagem em livros para que eu vendesse (invariavelmente, termino presenteando, sou péssima em vendas, e muito envergonhada). Mas tanto eu quanto Abimael nos descuidamos de um aspecto que tem se mostrado relevante, a falta de registro na Biblioteca Nacional. Eu não tenho ISBN! Os meus dois livros editados pelo Sebo Vermelho já foram adotados por uma escola por dois anos consecutivos, e A Trama da Aranha novamente o será em 2010. A escola me cobrou muito esse registro! E uma grande instituição recentemente solicitou-me 30 exemplares (contando com os dois títulos) para sua biblioteca, e me pediu o ISBN. Que não tenho! Com o  próximo, preciso (precisamos) ter mais cuidado.

Da venda de livros para escolas, recebo em exemplares, a despesa de reimpressão tem ficado com o editor, assim como o retorno em dinheiro. Penso em fazer um terceiro livro em 2010, mas para isso preciso novamente dos bolsos familiares, ou de um empréstimo bancário. Conseguir patrocínio, mesmo que parcial, apenas poucos autores conseguem (somente os acadêmicos, ou de largo prestígio). Mesmo mediante aprovação em leis de incentivo cultural, é muito difícil encontrar uma empresa que se interesse na publicação de livros, notadamente de poesia. Mas tem autores que são mais ousados, procuram e insistem e insistem e procuram. Não é de meu feitio. Acho que as instituições governamentais ligadas à cultura deveriam sistematicamente publicar (mediante critérios transparentes) os autores potiguares. Havendo publicação e distribuição, há leitor.

Da intenção ao livro são muitas as dificuldades. Criar é difícil, é um processo exigente e responsável. Publicar idem, pois o livro é texto, mas é qualidade do papel, da impressão, da capa, da ilustração, da distribuição, do registro na Biblioteca Nacional. Sorte do livro é quando depois de todos esses enfrentamos consegue chegar às mãos do leitor.

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