Da jangada eu olho a cidade

“Dia pleno. Céu claro. A atrevida jangada/Corta ao vento marinho a água salsuginosa…” (Ferreira Itajubá, versos do soneto “A Jangada”)

Num tempo obscuro, busco enxergar. Esforço-me para perceber a luz que teima em não reaparecer, apesar do sol posto e estendido diante dos edifícios e casas e ruas e bairros desta cidade, deste país. A luminosidade solar possui obstáculos de muitas ordens por aqui. Ordens…progressos…não sei de nenhum marciano que tenha invadido o nosso planeta para imprimir isso, o nosso sonho perdido nos dias que se sucederam e se sucedem. Sucessões são sempre muito perigosas, arriscadas, débeis, doentes, se não planejadas e aceitas. Mudanças para o nada. Para o mesmo corrompido esforço. Um corredor escuro? Nada vejo adiante, se não vierem outras mudanças, mudanças de perspectiva, de olhar, de gesto, de exemplo, de práxis. O golpe: só aceito o do olhar.

Foi um olhar diferente e pausado que busquei ao embarcar numa pequena jangada, para um passeio que margeou o Morro de Ponta Negra e seguiu um pouco além, no Atlântico morno, a convite do meu generoso amigo e colega de aulas de Karatê, interlocutor filosófico e culto, Alberto Criscuolo, italiano de nascimento e brasileiro por envolvimento cultural e sentimental intenso, apaixonado e decidido.

Conosco, conduzindo a jangada, o pescador Edilson, parceiro de Alberto no mar (desde 1999), trazendo suas sapiências e demonstrando destreza nas manobras e manuseio dos apetrechos da jangada. É o nosso comandante a bordo. Não vacila e não trai o sentido da viagem marítima. Sabe que o mar é sagrado, como o povo é. Como o povo sabe. Edilson nos conduz de maneira segura, percorrendo itinerário que já compreende como se pudesse ver tudo o que há abaixo da linha d’água, como se visse o que há abaixo, acima no céu azul, também nas circunvizinhanças de areias claras e rochas escuras.

Dizem que os pescadores mentem, contam causos sobre os seus feitos. Não há como mentir diante de vidas tão ricas, esses homens que cultivam a natureza que se espraia no tempo e na existência dura, mas cheia de belezas. Cascudo afirmava: “Os nossos pescadores sabem falar dos peixes, vida, costumes, predileções e manias.” (Jangada, 2ª ed., Letras & Artes,  Rio de Janeiro/Guanabara, 1964). O caldo salgado respingando a cada ventania e movimento da embarcação, que enfrenta a onda que surge molhando o rosto aquecido pelo sol e pelo deslumbramento estético diante dos olhos.

Os olhos…volto a pensar neles. O olhar da gente que está dentro do mar e que vê a cidade lá longe, como ela é. Tudo como é, de verdade: cores, brilhos, sentimentos, pensamentos, cada coisa desenhada no horizonte que dá para a cidade e horizonte que dá para os continentes e caminhos do outro lado.

É preciso não dar as costas para a cidade, para o país. E sabemos da obrigação do retorno. Às vezes dói ter que retornar. E deixar o mar e os seus encantos? Quase inaceitável isso, mas tem que ser. E as responsabilidades em meio a trânsitos e trabalhos. Em meio à luta, à labuta frenética e muitas vezes sem sentido. Aqui no mar, o pescador sabe o sentido, o norte e o rumo. Sabe encontrar os peixes, observando os astros e sentido os ventos e as cores das águas. E na cidade? O que nos aguarda? Tanta insensatez e insanidade, enganos, trapaças mentais e jogos absurdos do poder. Trocas falsas. Mudanças falsas. Farsas. A gente sobrevive se for diferente? É necessário. Preciso. Navegar é. Viver não é.

Viver mesmo é sentir o gosto do sal que escapole da onda em que a jangada desliza. Lá, de onde jogo o meu olhar para a cidade que me assusta e para o país que não sei ainda qual é ou será.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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