Da minha virada cultural

Por Sérgio Vilar
NO DIÁRIO DO TEMPO

Achei desnecessário explicar o conteúdo de minha matéria a respeito da chamada Virada Multicultural de Recife. Mas a discussão – sadia – com a @casadaribeira no twitter rendeu repercussão. Ainda hoje comentam. E eis o problema: se muitos entenderam e concordaram com meu pensamento, outros não assimilaram bem e passaram a nutrir uma tese errada a meu respeito, inclusive ao meu histórico de jornalista. E em razão de um comentário que escutei ontem, tentarei ser mais claro. E para isso preciso escrever um texto provinciano, bairrista e voltar, aí sim, a uma realidade já batida. Mas tentarei contextualizar melhor a questão.

Primeiro: sempre defendi os talentos potiguares. E para ficar bem desenhadinho: acho tão bons ou melhores que os de Recife ou Manhatan. Durante o MPBeco, por exemplo, recebi uma coletânea do jurado paraibano, Patativa, chamada Música da Parahyba. São músicas de 19 bandas e artistas integrantes do Fórum de Música de João Pessoa. Claro, não é a representação da música paraibana. Mas é uma boa mostra. E dali, eu pinçaria cinco ótimas canções: Abirap (reggae com rap), Ubela Preta (instrumental de rock progressivo), Madalena Moog (regional), a melhor, a banda Nublado (indie rock, bem parecida com nossa Lunares) e Baluarte (MPB?).

Imaginei se essa coletânea fosse de Natal: nosso Fórum de Música é Potiguar (lá é da capital!) e talvez não conseguisse juntar esses 19 artistas para gravar, até por falta de apoio da fundação cultural, da capital ou do estado. Mas vamos além: a mesma falta de identidade da música potiguar também sinto na Paraíba. Ainda assim assistimos hoje na mídia nacional, nomes como Chico César, Elba Ramalho… Mas voltemos ao tema central: a identidade na música. O Pará exporta não só o Calypso, mas um estilo musical. No Rio Grande do Sul, no Maranhão, na Bahia, no Ceará, até em Roraima, há identificação musical. Aqui, indiscutivelmente, não.

“Ah, mas no Acre também não tem”. Foda-se. Sou natalense, da gema. Quero discutir meu chão e comparar com o que há de melhor. E Recife, na minha opinião, é esse lugar. Lá não só há identidade musical, há também uma cena pulsante, organizada, capaz de formar Movimentos musicais. Aqui há um “cada um por si”. Tentamos forçar uma tradição do côco, mas obrigamos Khrystal (FOTO) a cantar samba. Nem mesmo a americanização de Natal nos anos de guerra conseguiu incutir tradição nessa cidade, ou Simona Talma permaneceria no seu blues. Mas Khrystal e Simona precisam pagar suas contas e espalham seus talentos em outras vertentes musicais.

Deífilo Gurgel me disse sábado que o potencial da cultura potiguar está na cultura popular e provocou: “Não vemos nenhum desses nossos valorosos artistas na mídia nacional. Mas nossa Chegança, Fandango, são os únicos do Brasil e vem gente de fora documentá-los”. Então não adianta vendar os olhos à realidade: não temos identidade, não temos representatividade musical, não somos organizados em classe, não temos apoio do poder público, e não temos prestígio suficiente do público. Temos talentos individuais. Muitos. Repito: tão bons ou melhores do que qualquer estado. E temos quem tente substituir a ausência do poder público.

A Casa da Ribeira e o Dosol, representados no Circuito Ribeira, procuram mostrar uma cena articulada, procura articular. Promovem, organizam, substituem, como podem, a inércia na iniciativa das nossas fundações culturais. Mas são décadas ou séculos perdidos. Ou nossa referência é Chico Antônio? É o violoncelo de Aldo Parisot? Infelizmente não é. Não temos referência nem o contexto necessário à formação de uma identidade e, a partir daí, o surgimento de movimentos musicais (ou culturais). O natalense nutre estranha admiração pelo estrangeirismo ou o “de fora”. É herança dos norte-americanos quando debandaram daqui e deixaram um rastro de nostalgia no ar.

A Bahia exporta o axé porque vem da tradição dos afoxés. O Ceará exporta forró porque conseguiram organização nesse meio, e lembremos do movimento vanguardista na música, na década de 70, com Fagner, Belchior, Ednardo, Amelinha e outros. A bossa nova cresceu no clima de São Paulo. O samba, no Rio. A música paraense vem das raízes. De Roraima, da cultura indígena. No Maranhão, o reggae. Os gaúchos parecem até fora do Brasil tamanha a diferenciação cultural. Em Minas, o Clube da Esquina. Em Recife, o Manguebeat, segundo Menescal, o último movimento musical ocorrido no Brasil. Depois, disse ele, só lá pra 2018.

Então, espero ter deixado claro o meu pensamento a respeito do assunto. Claro, há contestações, discordâncias, etc. É normal. Deixei algumas brechas aí para o contrário (rs). Só não quero a pecha de alguém que menospreza os artistas potiguares. Durante anos tento divulgar, ajudar, promover nossa cultura. É injusto comigo. Vibro quando vejo resultados de muitos dos “nossos”. Quase diariamente elogio, mostro ou até teço críticas construtivas. Mas não sou cego. O pior cego é o que vê e nada faz, nada reclama. Júlio Lima fugiu da Cidade do Sol e procurou sol no céu embaçado de São Paulo… Ah, são muitos os exemplos.

Merecemos nossa virada cultural. E eis aí, a comprovação do que expliquei: teremos a primeira virada cultural particular do Brasil. Isso porque poucos produtores tentam suprir o papel do poder público. E encontram dificuldades para isso, é lógico. Mas queremos essa virada. E não só o evento. Merecemos uma virada de pensamento; uma virada na cultura do prestígio. Queremos muito mais do que as músicas do Dusouto no gosto do público, da Coisa de Preto de Khrystal, da Linda Baby de Pedro Mendes. Queremos muito mais uma identidade musical do que a representatividade de uma potiguar criada no Rio, ou a música comercial da gentil Marina Elali. Queremos e merecemos uma virada de conceito cultural.

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