Da música e seus contraditórios

Escandalizou-se comigo um conhecido quando lhe disse que não tenho hábito de ouvir música estrangeira e que nem gosto muito. Embora ele não saiba outra língua a não ser essa nossa variação do português potiguar, me chamou de antiquado, alertando-me que a música, pela própria expressão, é universal. Não tenho dúvida disso e respeito o seu ponto de vista. O fato é que eu, como sujeito de poucos experimentos musicais, só empresto os ouvidos a umas poucas canções de fora, em sua maioria, balada e folk. De outra, só a música clássica da qual me alimento diariamente, sobretudo, quando se trata da fase mais dramática do intocável Richard Wagner. Afora isso e ao Chico Buarque, disse a ele, o Nordeste me basta. Então parece que o afrontei. Não satisfazia ser eu um tolo nacionalista, agora parecia a ele um estúpido regionalista, posto que, em breve, não me restaria outra saída a não ser me assumir como xenófobo, cuspiu-me.
Já fui um extremista e, quem sabe, isso tenha contribuído para o meu atual civismo, entretanto é preciso considerar que a minha região se completa em termos de arte a ponto de eu não ter tanta necessidade externa. Expliquei-lhe.
Mas o amigo não se convenceu e acabou me enchendo de perguntas, prontamente respondidas, assim, na ponta da língua, ou a palo seco, como diz Belchior. Aliás, foi esse o primeiro nome que lhe dei quando questionado sobre obras imortais. Falei ainda do Caetano e do Chico Cesar, que tenho como um dos maiores compositores românticos deste mundo. O amigo só conhecia Mama África e riu por isso. Perguntou-me das mulheres, quis dizer Khrystal, mas para não parecer arrogante, arrisquei Maria Bethânia para ver se o abalava. Achou brega. Maria Bethânia brega, eu disse, tem o que ver! E tinha mesmo: ele só lembrava-se dela cantando É o amor.
Sugeri Elba, Rejane Luna, Valéria Oliveira, Hermelinda, Amelinha, Simone, Rita Ribeiro, Clã Brasil, Rosa de Pedra, Roberta Sá… Mas ele confundiu algumas e desconhecia a maioria. Reclamou que no Brasil só sabem fazer bem o samba, o que concordei em parte, porque também gosto de samba. Mas ele disse ainda que eram os estadunidenses quem mais produziam coisas novas para o mercado fonográfico. Isso me forçou a uma reflexão. Perguntei-lhe, então, o que estavam produzindo Lenine, Elomá, Xangai e os muitos outros que fazem e fizeram da música verdadeiras poesias, como o velho Alceu, Fágner, Ednardo e Tom Zé que exportou a musicalidade artístico-brasileira. Ele não “curtia nem conhecia”.
Achou-me ainda mais careta e sem graça e me veio falar de nomes que nem saberia escrever. Falei de Luiz Gonzaga, mas ele achou o “cúmulo da breguice e da antiguidade”, assim, com essas palavras. Perguntei então o que achava de Raul Seixas, completando que tinha todos os seus álbuns, ainda que num MP3. Aí desse ele gostou. Tentou fazer alguns sons e tal, mas eu o interrompi, lembrando que a música de Raul é originária do baião de Luiz, influenciada por Elvis que tinha tudo para ser um nordestino. Ele riu da minha cara como se fosse impossível um bêbado gordo com costeletas ridículas parecer brasileiro.
Tentei falar um pouco mais sobre Gonzagão, puxando para Zé Dantas, o pernambucano potiguar, Jackson do Pandeiro e até Elino Julião, mas já era tarde. Ele colocou um fone de ouvido numa orelha e estendeu-me o outro me oferecendo um tal de Black Eyed Peas.
Não, obrigado, eu disse, e saí.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 20 comentários para esta postagem
  1. Thalysse Viana 15 de novembro de 2011 16:13

    Convenhamos, música é uma coisa boa em todos os aspectos e em – quase – todas as suas formas. O estilo que agrada a um, pode não agradar ao outro, mas que devemos respeitar as opiniões e opções, isso é indiscutível.
    Mas também vamos pensar, trocar Chico Buarque de Holanda, que massageia nossos ouvidos, por Will.I.Am (do B.E.P), que faz com que nosso cérebro vire uma boate neural, ao meu ver, é meio que loucura, embora eu goste de música internacional também, inclusive Black Eyed Peas.
    A música brasileira já me basta. Não costumo procurar fora de casa o que já me faz tão bem servida aqui.

    Viva a música nacional. Viva a música regional.

  2. Eliana Klas 29 de agosto de 2011 16:55

    Meu amigo Jota Paiva, ou José de Paiva Rebouças, bom demais te ler! Sempre!
    Por textos como este que eu entendo o motivo de nossa “amizade” virtual!
    Concordo em gênero, número e grau contigo, e francamente, nossa musica nos basta.
    Sou sudestina,mas quase posso gritar: O nordeste me basta!
    Mas me permito ir além: no quesito música o Brasil me basta!

    Parabéns por sua sempre aguda percepção e capacidade de expor, afrontando sem ferir.

    SDDS.
    xeros sudestinos.

  3. Artur Sá 27 de agosto de 2011 15:49

    Concordo plenamente Marcos!
    Afinal nossas idéias são convergentes =D
    Pois é Nina vamos encher a cara! Ow, perdão…Vamos encher a net de coisas boas…rsrs
    Ratificando, bom texto Paiva! Você é o cara!

  4. Marcos Silva 20 de agosto de 2011 12:51

    Artur:

    Nosso diálogo é produtivo porque vai além de meras discordâncias ou seu avesso, favorece a argumentação.
    Obrigado pela indicação do site.
    A preguiça de pensar é pacientemente alimentada. A questão já mereceu a atenção de Kant – Resposta à questão: O que é Esclarecimento? É tão confortável ser menor, deixar que os outros pensem por nós, escolham por nós…
    Quem são os outro, quem somos nós?
    Penso que artistas e público se formam reciprocamente, se escolhem reciprocamente.

  5. Nina Rizzi 19 de agosto de 2011 21:34

    Artur,

    de fato, há preguiça de pensar, mas há outras dimensões aí, camarada… essa ‘democratização’ é ainda algo muito recente diante de anos de lixo cultural arraigado. Então ‘bora lotar a net do que presta, né 😉

    Putz, Mahler é um Santo. Já tou indo me ajoelhar, valeu!

  6. Nina Rizzi 19 de agosto de 2011 21:30

    Seja bem-vindo, querido Jota! É bom te ter aqui também. E a roda vai crescendo… é só sambar 😉

    Beijão e até loguinho!

  7. Cefas Carvalho 19 de agosto de 2011 21:05

    Ótimo texto, amigo, com uma postura bem definida e um tema palpitante (e passional). Abraço!

  8. Artur Sá 19 de agosto de 2011 18:43

    Marcos Silva:
    Acho certa sua colocação. Inclusive até anotei o nome do filme. =D
    Mas o artista escolhe quem vai lhe escultar, ou o ouvinte é quem escolhe o artista?
    Se Elomar cantasse, talvez ele escultasse e gostasse, talvez não. Não cabe somente ao artista estender seu público alvo, mas também se espera que o público alvo esteja inclinado a gostar do que ele produz. Senão seria perda de tempo, como diria o grande Salomão, “anel de ouro em focinho de porco”.
    Hoje, temos acesso a tudo, inclusive a Gustav Mahler, no qual o 4shared não o deixa ficar trancafiado nas Salas de São Paulo.
    Está ai o link, caso lhe enteresse o dowload: http://search.4shared.com/q/30/Mahler%20-%20Sinfonia
    Os artistas independetes se esforçam, os hipertextos e hiperlinks estão aí. Não é que falta música boa e acessível! É que ta sobrando preguiça de pensar…

  9. Marcos Silva 19 de agosto de 2011 12:26

    Artur:

    Gosto muito da música de Elomar. Sei da casa aberta. Os sons que ele inventa ensinam muito. Ele perdeu aquela oportunidade a mais porém isso não o diminui. Penso que Cultura se promove a toda hora, em todo lugar, pra qualquer um – inclusive, ouvintes de Michael, que são maioria da população. No caso da música erudita mais formal (e Elomar possui uma erudição específica, assim como João do Vale e a Banda de Pífaros de Caruaru), não adianta reclamar dos ouvintes da Egüinha Pocotó se os concertos de Mahler continuarem fechados nas Salas São Paulo da vida. Os artistas devem formar seus públicos, de preferência ampliá-los. Até para a melhor música não se transformar apenas em pano de fundo para paqueras e negócios – o filme “O inocente”, de Luchino Visconti, é muito didático em relação a isso.

  10. Artur Sá 19 de agosto de 2011 11:48

    Marcos Silva:
    Elomar deixa sua casa aberta para visitantes. Todos os dias ele promove mini-shows gratuitos no seu sítio. Pessoas os visitam aos montes e são bem recebidas. Não custa nada ouvi-lo, quando se quer…
    É a forma mais pura de promoção da cultura.

  11. Marcos Silva 18 de agosto de 2011 21:10

    Artur:

    E Elomar perdeu a oportunidade de mostrar música boa para uma pessoa que talvez conhecesse somente Michael.

  12. Artur Sá 18 de agosto de 2011 18:54

    Você falando me lembrou de Elomar Figueira Melo, que entrevistado por Saulo Laranjeira, no programa Arrumação, contou um causo, onde ao dar uma “bonga” a um camarada todo maltrapilho, pensou ser reconhecido, claro que sem vaidade. Pra puxar assunto, repara num LP na mão, sofrida de roçar, do companheiro e pergunta se o mesmo gosta de música. Empolgado o companheiro de viagem responde:
    – Gosto sim Amigo! – E estende a mão com um LP de M-i-c-h-a-el J-a-c-k-s-o-n na ponta.
    Elomar não trocou mais nenhuma palavra com o caroneiro…

    Não que Michael Jackson fosse ruim, mas ele perdeu a chance que escultar algo, ao vivo, que realmente tocasse seu coração.

  13. Regiane de Paiva 18 de agosto de 2011 13:10

    Gosto não se discute. Frase conhecida desde os primórdios, mas na sua fala- enquanto cronista- você revela o seu lado nacionalista e, diga-se de passagem, um produto nacional de qualidade, que não deforma, mas aprimora e informa o intelecto. Felizmente, tenho a felicidade de poder compartilhar com vc todos estes gostos, seus e meus, e temos descoberto que a nossa música ainda é uma caixinha de surpresas, por vezes ótima, por vezes deprimente, a depender do ponto de vista. Sutilmente, você norteia para novas possibilidades da música popular brasileira, sem ser chato e moralista.
    Texto maravilhoso e que faz juz a qualidade deste site. Parabéns e cada vez mais orgulhosa de vc!

  14. Irisney Bosco 18 de agosto de 2011 13:08

    Perfeito! Só me entristece de ver nossa música esquecida depois de tudo que vivemos com Chico, Gil, Guilherme Arantes, Gonzaguinha, Caetano, Chico Cesar, Luiz Tati, e hoje temos que comtemplar tudo desabando, com a falsa música convencendo jovens desorientados.

  15. Bethânia Lima 17 de agosto de 2011 20:30

    só de ler, já dá vontade de ouvir música, e esses diversos mirabolantes-cantantes…sem esquecer de tantos outros… gilberto gil, antônio nóbrega, rita ribeiro, zeca baleiro e tantos outros…

  16. Aridiana Dantas 17 de agosto de 2011 20:14

    Parabéns Jota, muito boa essa sua concepção a respeito da música. Parabéns pelo sucesso amigo, te desejo tudo de bom!

  17. Carol Gurgel 17 de agosto de 2011 20:04

    Passando para te desejar sucesso em todo o caminho que você trilhar. Pois, eu confio e sei que você tem capacidade para o que exerce e muito mais.
    Deus te abençõe!

  18. Marcos Silva 17 de agosto de 2011 17:13

    Zé Paiva:

    Gosto muito de Gonzagão (tenho 60 anos, Najara), Jackson, Marinês e tanta coisa boa mais do nordeste – Elomar etc. Mas eles são nordeste e mundo, Elomar conversa muito com Europa medieval. Devemos ouvir e valorizar o que é bom e vem de perto, sem preconceito. Mas prefiro também ouvir e valorizar o que é bom e talvez venha de longe/tão perto. Nem aprecio tanto Elvis mas sua evocação de gordura bêbada com costeletas ridículas me deliciou – uma ponte com Waldick Soriano e similares, sem esquecer que Raul aprendeu tanto com ele quanto com Gonzagão. Acho legal pensarmos que nossas nação e região dialogam desde sempre com o resto do planeta, Canto Gregoriano, Wagner e tanta coisa mais. Diálogo é sempre bom. Previnem contra o ensurdecimento.

  19. Anchieta Rolim 17 de agosto de 2011 11:03

    Perfeito grande J. Paiva e pra piorar a situação, esse tipo de ouvinte ou seja lá o que danado for, só faz crescer no Brasil. E agora?

  20. Najara 17 de agosto de 2011 10:18

    Bem, Música, religião e politica, como sabemos, há uma diversidade de opnioes, gostos, entretanto devemos respeitar o gosto musical, assim como achar que ‘aquele’ estilo seja o dominador de uma época. A meu ver, essa pessoa que vos fala, realmente é sábia, pois conhece e valoriza bem a musica brasileira, que considero a de melhor qualidade para os meus ouvidos. Obviamente, que como o mix é grande de estilos, realmente tem algumas ”musicas” que assim consideradas, são baboseiras. Falando em Luiz Gonzaga, puts, esse cara é o CARA, e olha que tenho apenas 26 anos, mas cresci ouvindo-o, foi dele que originou tantos outros bons.

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