Da nação potiguar

Amigos e amigas:

A apresentação musical minha e de Joel Carvalho na SBPC (nesta terça-feira, 27 de julho, 16 horas, Praça da Reitoria, campus da UFRN) abrangerá as seguintes canções, sob o signo dos comentários que as sucedem ou antecedem:

1 – OS RELÓGIOS.

Estas canções são de hoje (2010) e foram feitas desde um ontem prolongado – de 1968 para cá. Chega de saudade. Mas não existe um hoje sem um ontem nem sem a esperança de um amanhã.
A primeira canção foi “Os relógios”, de Joel Carvalho e Marcos Silva, 1968, antes do AI-5, tempo de revoltas estudantis no mundo, lutas contra a Guerra do Vietnã e contra diferentes ditaduras. Tempo do Tropicalismo nascendo, dos Beatles acabando, de Paulinho da Viola e Tom Zé se inventando, de Chico Buarque e Edu Lobo continuando.
A próxima música é “Palavras de amor”, também de Joel e Marcos, letra dos anos 70 e música de 1996 sobre a intensidade amorosa dos corpos humanos. Marcos estudava e trabalhava em São Paulo, Joel morava na Espanha. A letra foi no Brasil da ditadura, a música foi na Espanha pós-franquista.

2 – PALAVRAS DE AMOR.

Somos do contra com causas. Nossas causas são a alegria, a felicidade, o gozo e o luxo para todos: alegria, felicidade, gozo e luxo continuam muito escassos, distribuídos de forma injusta. O Capitalismo continua aí e se comporta como se não houvesse alteridade. Ser do contra, agora, é pensar que o mundo pode se tornar diferente: mais que cada um por si; nunca a homogeneidade imposta.
A canção seguinte, “Dip-dip”, de Joel e Marcos, surgiu no começo dos anos 70 e fala de corpos amorosos através do mundo da técnica, apesar desse mundo. Os autores ouviam blues e liam sobre teoria da informação na época.
3 – DIP-DIP.

A ligação com possibilidades técnicas do presente não significa cegueira em relação ao presente, que é mais que técnica. Estas canções existem num mundo que contém a capacidade de fazer beleza, através da Arte, misturada com a capacidade de estabelecer relações de poder melhores ou piores, através da Política. Queremos honrar a beleza da Música. Queremos enfrentar as feiúras das hierarquias sociais.
“Computador”, de Joel sozinho em 1969, decompõe e recompõe essa palavra para nos lembrar que a técnica existe num mundo povoado por moralismos e relações de poder muito opressivas, inclusive em nome de religiões. E nós podemos rir desses moralismos e poderes, destruindo-lhes o chão.
4 – COMPUTADOR.

Queremos a beleza e a liberdade como gêneros de primeira necessidade, sem esquecermos de outros gêneros prosaicos, belos à sua maneira: bebida, comida, moradia, vestimenta. Beleza e liberdade são faces de justiça e igualdade, podem se confundir com a Verdade que se inventa a cada dia sem renunciar à Ética.
“Minhas luas”, de Joel e Marcos, nasceu em 2004, passeando por mitologia grega e afro-brasileira (Afrodite e Iemanjá), encarando com Cândido das Neves e Cazuza – lirismos musicais brasileiros.
5 – MINHAS LUAS.

Nós dialogamos com tradições musicais brasileiras e internacionais: baião, bossa nova, mpb, tropicalismo, rock, jazz, rap, bolero. Como as canções incluem textualidades, o diálogo abrange também facetas de poesia e outros discursos verbais, passando por modernistas, concretistas, escrita jornalística e de publicidade, panfleto político e rascunho amoroso.
Ao enlaçar experiências culturais locais e regionais com outras que são nacionais e internacionais, interessa-nos explorar o que possuem ou podem vir a possuir em comum. A multiplicidade de formatos melódicos, harmônicos e textuais é valorizada neste conjunto. Encaramos a identidade da nação como um fazer em aberto, dotado de tensões e potencialidades.
“Manchetes” também é de Joel sozinho e surgiu em 1969. Reúne lemas de publicidade e manchetes de jornais no tempo em que a ditadura brasileira conseguia piorar o que já era muito ruim: a Publicidade gerava notícias e a Imprensa se vendia a preço baixo.
6 – MANCHETES.

Elis Regina e Cássia Eller são música brasileira. Tom Jobim e Jackson do Pandeiro são música brasileira. Paulinho da Viola e Cazuza são música brasileira. Pixinguinha e Tom Zé são música brasileira. João Gilberto e Clementina de Jesus são música brasileira. Arrigo Barnabé e Nação Zumbi são música brasileira. Villa Lobos e Egberto Gismonti são música brasileira.
“Maniac repression” foi escrita por Marcos, nos anos 70, exercício de portinglês explícito – palavras inglesas virando versos em português. Joel, em 1994, misturou Jimi Hendrix com lembranças do primeiro rock – Little Richard e Chuck Berry. “O toque” lembra passeatas, quando vitrines são rachadas, formando janelas para quem não pode consumir aqueles produtos caros, em paralelo com o desejo entre seres humanos – pobres e ricos podem desejar-se reciprocamente, corpos se tocam e se racham. Joel misturou aqueles gêneros de rock com uma citação de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, da valsa “Boneca”.
7 – MANIAC REPRESSION / O TOQUE.

Música brasileira é som que brasileiros fazem sem deixar de ouvir George Gershwin, Edith Piaff, Omara Portuondo, Miles Davis, Amália Rodrigues, Carlos Santana, Bob Marley, Astor Piazola e Billie Hollyday.
Relembramos os anos 60 a 90 do século XX a partir desta primeira década de nosso século XXI, com nossos projetos de agora. E sem idealizações: era bom e difícil, feliz e tenso – como é hoje, de um jeito diferente.
8 – PRESENTISMO.

Quem nasce no Rio Grande do Norte é conhecido como potiguar. Essa palavra designava uma nação indígena que existiu antes da colonização e foi exterminada, junto com outros povos pré-colombianos locais, no começo do século XIX. A culpa não é nossa. Mas também não pretendemos fechar os olhos para outros extermínios que estão em andamento, hoje, no Rio Grande do Norte e no resto do mundo: crianças pobres nas ruas, idosos sem dinheiro para comprar remédios, jovens sem escola nem emprego. Não queremos outros holocaustos. Queremos festa e pensamento crítico.
“Vamos, caboclo, p’ra nossa aldeia” é uma despedida de Cabocolinhos, recolhido por Mario de Andrade em 1928/1929, canto de conformismo e resistência: essa terra não é nossa, será que teremos outra terra? “Da nação potiguar”, de Joel e Marcos, letra de 2004 e música de 2009, é lamento e convite à luta: que fizemos, fazemos e faremos de nós, potiguares?
9 – VAMOS, CABOCLO, P’RA NOSSA ALDEIA / DA NAÇÃO POTIGUAR.

PARTICIPAM DESTA APRESENTAÇÃO:
Joel Carvalho (voz), Marcos Silva (voz), Sílvia Sol (voz)
Paulo Marcelino Cardoso (direção musical, arranjos, arregimentação, violão)
Isaque Gurgel (saxofone), Ivo Sousa (guitarra), Júlio Lima (baixo), Pablo Jorge (bateria).

IN GOLD WE DON’T TRUST

Abraços em todos e todas:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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