Da natureza dos muros

Oscar Wilde e Chico Buarque perceberam o muro. Para Oscar Wilde, o muro fora erguido pelo “Gigante Egoísta”, para que as crianças não fossem brincar no seu jardim. Só que, sem crianças, o jardim do gigante também não era mais visitado pela primavera e, entrava ano, saía ano, a única estação que por ali pousava era o inverno: neve, geada e granizo. Um dia, o gigante percebeu a natureza do muro, derrubou-o e chamou as crianças de volta. A partir daí, seu jardim se encheu de flores.

O muro que Chico Buarque cantou era um e eram dois: um cercava o bosque junto à rua, onde a felicidade morava, mas o dono do bosque não via. O outro muro separava o eu lírico da música “Até Pensei” e a sua amada. Ambos os muros proibiam a aventura.

O Conto “O Gigante Egoísta” e a canção “Até Pensei” falam de impossibilidades e impedimentos que estão além das vontades do eu lírico da música e das crianças do conto. Já Fernando Pessoa nos aconselha: “Cerca de grandes muros quem te sonhas.” No poema “Conselho” é o próprio eu lírico que impede que lhe vejam como é. Diz o Pessoa que somente onde ninguém nos vê, podemos deixar “as ervas naturais medrar”.

E é assim: erguemos muros entre nós e os outros, por egoísmo, por auto-suficiência ou por medo. Ou porque chega um tempo de pensar que não vale a pena nos mostrarmos como realmente somos.

Quando erguemos muros por egoísmo ou por auto-suficiência, somos como o gigante de Oscar Wilde, que não entende porque a primavera não visita o seu jardim. Ficamos nessa inconsciência de não saber que, com o ruído alheio, vem também a floração de nós mesmos. Mas quando nossos muros são erguidos por medo ou desencanto, aí nós já compreendemos o significado dessa floração. Sabemos o motivo pelo qual estamos nos cercando de “grandes muros”. Então, dissociamos ser e aparência. No entanto, se essa dissociação se aprofunda, a aparência vira caricatura. Não é difícil nos defrontarmos com pessoas tão artificiais, tão artificiais, que sequer sua aparência é crível. O ser fica tão dissolvido que essas pessoas acabam por acreditar que só a sua aparência existe. Existe, mas não convence. Sabem a sensação de conversar com uma mentira?

Falei outro dia de partes de nós que para sempre permanecerão secretas para os outros, isso é da nossa natureza, pois algo de nós até para nós permanecerá segredo. Porém, esconder por inteiro é da natureza dos muros, não da nossa. Mesmo que nos protejamos de vez em quando, mesmo que cultivemos a cautela, não pendamos aos radicalismos. Também é preciso deixar que os outros vejam “as flores que vêm do chão crescer”, tão mais reais do que os canteiros cuidadosamente podados.

Seria maravilhoso intuir sempre quais são os outros a quem nos podemos mostrar, quais são os outros que podem chafurdar nos nossos jardins, bosques e ternuras. Mas não é assim. A intuição nem sempre é exata e sem dúvida nos machucaremos de vez em quando pela falta do muro. Mas, e a primavera?

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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