Da natureza dos versos

Como um poema muitas vezes fustigado, e todo poema sofre de açoites, também eu limei as unhas e os sentidos, aparei as arestas de mim, arranquei adornos e rompi com a segurança de ser correta. Também eu fui à intempérie com gosto e gás, desidratei, finquei amor em pedra.

Como um poema à procura do extravio, e todo poema busca extravio (qualquer que seja), também eu escapei da melodia, também eu fui delituosa com o ritmo. La Traviata. Um poema transviado escrevi.

Como um poema que não é paliativo, e nenhum poema palia, eu também esconjurei mentiras, desnudei verdades. A coisa veio nua e crua, exposta, nervo puro, o poema com versos em pulsação.
Fui como um poema: espiando-me por dentro, expiando-me. Fui como um poema, sim. Poemas são ex-votos. Imitei a minha alma em gesso. Imitei sua forma com palavras: poema, promessa, penitência, redenção.

Como um poema andante eu caminhei por veredas santas: Jesus alegria dos homens, caminho de Santiago, encruzilhadas dos deuses trapaceiros, Cronos: o poema engolindo a si mesmo, engolindo-me.

Que fazer para tornar-me distinta e sem angústia como um poema cerebral? Não sei fazer sequer um desses poemas, que dirá… Tornar-me um deles. Andei noites de água terra fogo e ar para chegar-me… Ao poema. Distinta e sem angústia… Hum, hum. Quem me diria uma dama? Ora, vamos. Vamos?

Como um poema cantante voando em bando, fugi de baladeiras, de espingardas. Aqui, acolá, fui atingida e caí, pronta para ser dissecada. Pronta para ser consumida. Mas fui revolvida na terra, e só. A morte bastava aos matadores, mas não a mim. Só a ressurreição me interessava, como as palavras virando versos.

Esquivei-me, todo poema é esquivo. Todo homem, toda mulher tem um dia na vida para esquivar-se de si mesmo, diz um poema não escrito. Jurei escrever esse poema esquivo, esse poema com versos de fuga, e o farei um dia. Como todo poema, faço promessas vãs, porque a vida, que é a vida, também é vã.

A natureza dos versos, qual é a natureza dos versos? A suavidade? A parca permeabilidade das palavras em estado de soltura? A fúria? O fervor? A doçura? A morte? Nada disso é da natureza dos versos e tudo isso o é. A natureza dos versos é a natureza do mundo, as naturezas do mundo, pois não? A minha e a tua naturezas.

Luz e sombra, morte e vida. Todo poema é contradição. Perjuro, todo poema é perjuro como os homens o são quase sempre. Todo poema peca, como eu e tu. Todo poema é pecado, quando cometido, escrito.

Todo poema é desmanche, eu também me desmanchei em palavras para ser verso. E reverso.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezoito − quatro =

ao topo