Da nostalgia do Bonde

A nostalgia do bonde é recorrente mesmo para aqueles que como eu nunca andei de bonde, em Natal. Só naquele de Santa Tereza no RJ, a passeio.

Desde Machado de Assis a Jorge Fernandes com o seu Bonde Novo que só devia sair aos domingos, existe uma saudade daquele meio de transporte puxados por animais ( coitados) e depois, eletrificados.

Mesmo quem não tem uma memória quer uma para inventar um passado. Uma vida. Um amigo meu voce conta uma história e logo ele incorpora na sua biografia.

Li com muita dor e alegria ao livro “Dos Bondes ao Hippie Drive-in” do Carlos e Fred Sizenando Rossiter Pinheiro. Um livro de uma memória coletiva. De fragmentos de um cotidiano vivido por mim que não estou na foto.
E aí fico pensando, como a história é ingrata comigo e com você. Como a história é criada e ficcionada. Fracionada. Inventada, mesmo.

Viajo, enfim, no bonde da literatura. Da música. Viajo no bonde São Januário do sambista, eu também um otário, viajando para trabalhar e escrever essa croniqueta de sexta feira.

Perdi o bonde da história. Atrasei e o patrão não quis conversa: demitiu-me. E quando eu cheguei em casa a mulher tinha ido embora.

Para aqueles que desejam viajar, favor comprar o bilhete.
E preste atenção como comportar-se como na Crônica Machadiana.

Como comportar-se no bonde / Machado de Assis

Ocorreu-me compor umas certas regras para uso dos que freqüentam bondes. O desenvolvimento que tem sido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.

Art. I – Dos encatarroados

Os encatarroados podem entrar nos bondes com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro.

Quando a tosse for tão teimosa, que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue.

Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bond, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.

Art. II – Da posição das pernas

As pernas devem trazer-se de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.

Art. III – Da leitura dos jornais

Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.

Art. IV – Dos quebra-queixos

É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: a primeira quando não for ninguém no bond, e a segunda ao descer.

Art. V – Dos amoladores

Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-se-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repelindo os ditos, .pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.

Art. VI – Dos perdigotos

Reserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo nas ocasiões em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Também podem emitir-se na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua.

Art. VII – Das conversas

Quando duas pessoas, sentadas a distância; quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.

Art. VIII – Das pessoas com morrinha

As pessoas com morrinha podem participar do bonds indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-lo mesmo da janela.

Art. IX – Da passagem às senhoras

Quando alguma senhora entrar o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, não só porque é incômodo para ele ficar sentado, apertando as pernas como porque é uma grande má-criação.

04 de Julho de 1883

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

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