Da poética da insignificância e outros significantes

Por André Setaro
NO TERRA MAGAZINE

1.) No cinema brasileiro contemporâneo, há os filmes comerciais feitos para o mercado, embora não desprovidos (alguns) de qualidade (A suprema felicidade, de Arnaldo Jabor, O maior amor do mundo, de Carlos Diegues…), os filmes de invenção rodados em digital, que geralmente fogem à regra da gramática narrativa (O caminho de Ythaca, Pacific…), os filmes de autor (Bressane, Tonnacci…), os do filão espírita (Chico Xavier, de Daniel Filho, Bezerra de Menezes, Nosso lar…), e, de uns tempos para cá, filmes de expressão televisiva, mas nunca cinematográfica, que o crítico paulista Inácio Araújo, num momento de rara inspiração, chamou de poética da insignificância. Uma mixórdia típica dessa poética da insignificância é De pernas pro ar, que já tivemos, aqui, a oportunidade de comentar. Perto de De pernas pro ar qualquer chanchada da Atlântica se assemelha a uma Pietà.

2.) Produzidos pela Globo Filmes, os produtos audiovisuais da poética da insignificância – não sei se há as exceções de praxe – agridem o cinema enquanto expressão de fluidez e inteligência. É o caso, por exemplo, de O homem do futuro, de Cláudio Torres, com Wagner Moura (um bom ator que vem trabalhando em filmes que não ascendem o rés-do-chão). Em O homem do futuro, ele faz um cientista brilhante, mas infeliz, por causa de uma humilhação sofrida vinte anos atrás, quando a sua amada se escafedeu. Consegue voltar ao passado para tentar corrigir os erros de sua vida. O assunto já foi abordado por muitos outros filmes, mas seria um aspecto secundário se O homem do futuro tivesse graça, espirituosidade, um desenvolvimento inteligente do ponto de vista dos procedimentos cinematográficos. O que vem logo à mente é De volta para o futuro, de Robert Zemeckis. O que se passa no filme, ou por falha do roteiro, ou por falta de uma direção mais precisa, não tem eficiência dramática suficiente para o envolvimento do espectador. Não há aquele tão necessário poder de verdade capaz de tornar o espectador um cúmplice do espetáculo. Ele se demite no primeiro terço do filme. Há, nessa enxurrada de fitas oriundas da Globo, uma estética televisiva, “televisão para passar no cinema”, por assim dizer, como atesta o também péssimo Cilada e Cia. Mas a obra-prima da poética da insignificância é, sem dúvida, De pernas pro ar. Nunca se viu nada tão ruim desde que Affonso Segretto, em 1897, filmou as primeiras vistas da Baía da Guanabara.

3.) O cinema baiano tem, pelo menos, três filmes com boas perspectivas no ano em curso. Os filhos de João, de Henrique Dantas, documentário sobre a influência de João Gilberto nos Novos Baianos, vem dobrando as semanas na praça soteropolitana, ainda que colocado em sessões periféricas. O público gosta muito e, na verdade, o documentário de Dantas se vale dos carismas dos personagens retratados, assim como Samba Riachão, dez anos atrás, de Jorge Alfredo, outro baiano. O homem que não dormia, derradeiro filme de Edgard Navarro, teve avant-première durante o Cine Futuro na tela grande do majestoso Teatro Castro Alves. Seu autor está esperando o resultado em Brasília, a recepção que a obra possa suscitar para, então, providenciar o seu lançamento no circuito comercial. Mas para outubro, já está marcada a estréia de O jardim das folhas sagradas, de Pola Ribeiro. O importante é que os filmes possam circular nas duas fases fundamentais e imprescindíveis para que possam ser vistos: a distribuição e a exibição.

4.) Quem vive na Bahia (assim se chamava mesmo aqueles que viviam na capital, Salvador) e demais estados brasileiros fica completamente à margem das grandes retrospectivas que estão acontecendo no eixo Rio-São Paulo. Primeiro, há alguns anos, foi a mostra completa de Alain Resnais. Depois vieram a de John Ford, Alfred Hitchcock e, recentemente, a do grande estilista Vincente Minnelli. Se há três eventos por ano na capital da Bahia – o Panorama Coisa de Cinema, a Jornada Internacional de Cinema da Bahia, e o Cine Futuro (nome novo do Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual) – os filmes apresentados, com algumas exceções, ficam no terreno da mediocridade, salvando-se algumas palestras (caso do Seminário). Mas cinema bom mesmo (como o de Ford, Resnais, Hitch, Minnelli) somente para os privilegiados habitantes do eixo Rio-São Paulo. Por que as Secretarias de Cultura dos Estados (onde houver), principalmente a da Bahia, não providenciam para que as mostras cheguem a suas capitais? Sim, atualmente, a Bahia é uma metrópole engarrafada, mas, isto, outra história.

5.) Há quem ache Minnelli um cineasta superficial. No site da Mostra a ele dedicado, Luis Carlos de Oliveira Jr. explica, em texto primoroso, a grandeza do realizador. Quem quiser lê-lo integral, clique no link http://mostravincenteminnelli.com.br/curadoria

Não resisto à transcrição de um texto: “Minnelli, a priori, não distingue entre um assunto nobre e um assunto menor. Qualquer coisa lhe parece digna da mais alta representação artística. Ele não necessariamente dá ao público dito intelectual um tema rico e profundo para refletir após a sessão (embora filmes como Paixões sem Freios e Papai Precisa Casar possam render conversas densas e intermináveis). Se muita gente relutou em considerá-lo um grande cineasta e não apenas um embelezador de espaços, foi porque se prendeu a um caduco pressuposto de que a grande arte só se faz a partir de um grande assunto. Ora, isso relegaria a um segundo plano uma parcela considerável das obras-primas da pintura. As maçãs de Cézanne ou as bailarinas de Degas não são geniais porque representam maçãs ou bailarinas, mas antes por conta do traço peculiar que as vivifica na tela. As botas de um camponês, num quadro de Van Gogh, condensam um mundo. O que dá o tamanho de uma obra é menos o objeto escolhido pelo artista do que a forma como ele o representa. Os filmes de Minnelli, assim como as pinturas de Van Gogh, só fazem sentido pela cor, pela composição, pela textura dos materiais, pelo arranjo dos corpos e dos elementos plásticos no interior do quadro. O “touch” minnelliano é o motivo pelo qual vemos seus filmes. Se todo grande autor possui um tema recorrente, que ele explora sistematicamente no decorrer de sua obra, o de Minnelli foi a própria função da arte – e, mais especificamente, do cinema – enquanto transformação estética do mundo. Algo que ele deixa bastante claro em seus dois filmes plantados no universo do cinema: Assim Estava Escrito (1952) e A Cidade dos Desiludidos (1962). Neste último, que é certamente o precursor imediato de O Desprezo (Godard, 1963), Minnelli enfatiza alguns detalhes que, no set de filmagem, são responsáveis pelo sentido geral da obra. Uma mudança de ângulo da câmera, um objeto acrescido ou subtraído ao quadro, e a cena será outra – para melhor ou pior.”

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