Da solidão

Nunca fui tão solitário quanto na infância. Vivia sozinho sem brinquedos imitando os mais velhos ou passarinhando no juremal. Dessa relação ficou uma saudade indizível. Vez ou outra tento encontrar com essa parcela de mim para um diálogo dos que faz chorar. Mas essas lembranças não se constituem sozinhas. Elas estão carregadas de significados e outras imagens de avós, primos e irmãos que, àqueles dias, pareciam personagens do conto de fadas que era a minha meninice.

Naquele mundo rural de cantofas e aroeiras eu era apenas outro animal. Não sei, mas tinha a sensação monástica de que não havia diferença entre nós e o gado. Tínhamos os mesmos instintos e atitudes de ação e de cansaço. Éramos um só povo.

Embora da latada pudéssemos ver as cercas que limitavam a nossa vida, a rotina se fazia num ritmo desacelerado que deixava o mundo muito maior do que ele é hoje. Era o tempo das abelhas no tanque da cacimba e das ovelhas remoendo a sombra do marmeleiro. O silêncio entupia nossas cabeças e enchia nossos ouvidos de moscas tristes.

O horizonte era azul e tinha fim. Imaginava que caminhando toparia na parede do mundo e poderia cavar na areia vertical que circundava minha cabeça. Engraçado que essa certeza do que tinha no final das minhas vistas persegue-me ainda hoje, assim como a decisão de partir procrastinada para o dia em que me dedicarei a essa atividade com todas as minhas atenções.

Não sei bem quando esse mundo começou a fugir de meus pés. Ainda alcanço meus olhos pequenos se afastando na carroceria de um carro em busca da rua onde estava o meu futuro, este, cheio de recordações. Nunca soube direito o que vim buscar neste lugar aqui fora, sei apenas que nunca encontrei nada que me devolvesse aquela falsa impressão domesticável das vacas retornando aos currais fingindo que não pensavam em nada.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Gilvânia Araúo 9 de março de 2012 16:28

    Texto realmente inquietante, principalmente por perceber a nostalgia das palavras, escritas de uma maneira que remete o leitor diretamente ao local relatado, essa inquietação que o autor sente está além dos horizontes de nossas limitações, estão nas revelações de experiências vividas…horizontes sob a sabedoria e a lucidez de um aprendizado, é o consolo de experiências adquiridas….inicialmente com olhar infante…depois com um olhar maduro mais ainda em busca constante…traços e pedaços de uma história real e de olhos perdidos em um caminho …

  2. Patricia Lorena 6 de fevereiro de 2012 17:18

    Belo texto…Também sou admiradora desse tom nostalgico…
    E te douum outro texto,não meu,mas de Galeano que responde a sua inquietação,essa duvida de estar indo, mesmo q não se saiba porque e nem para onde,mas na bagagem a certeza de que havia,bem pulsante,uma alma que não se deixaria cercar ou aprisionar… Você é um ‘sem-limites’, José Paiva e é por isso q lhe admiro tanto…
    Abraços!!!
    “A utopia está lá no horizonte.
    Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
    Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
    Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
    Para que serve a utopia?
    Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

    Eduardo Galeano

  3. Regiane de Paiva 3 de fevereiro de 2012 20:17

    Não sei dizer o quanto este texto me emocionou. Aqui sinto a literatura e a vida. Cada metáfora ou descrição de um recorte da memória provoca uma sensação de nostalgia e de melancolia. Llosa afirma que nada ensina melhor que a literatura a ver a riqueza do patrimônio humano e a valorizá-la como uma manifestação da sua múltipla criatividade. Desta forma, entendo que este texto é literatura pura! Literariedade, primor e encanto! Beijos in….. marido!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo