Da tribo ao gueto

Por Bráulio Tavares
Continente Multicultural

O livro vermelho, de Mao Tsé-Tung, continha uma frase famosa: “A política para promover o progresso das Artes e das Ciências e o desabrochar de uma cultura socialista em nossa terra deve ser: deixar que floresçam as cem flores, deixar que debatam as cem escolas do pensamento”. Mao acenava com isso àqueles jovens que Jean-Luc Godard filmou em La chinoise (1967): um socialismo em que todas as formas de arte e todas as ideias estéticas e científicas seriam acessíveis a todos, e seriam debatidas livremente. A metáfora das “cem flores” virou um clichê no linguajar politizado. Depois, Mao passou o trator por cima das 99 que discordavam dele.

Essa utopia da abundância e da diversidade chegou, com a internet, à web; com a gigantesca memória prima que acabamos de criar. Em breve (dizem) não haverá informação que não esteja arquivada em algum lugar e acessível em toda parte. O capitalismo cibernético inventou e distribuiu a mancheias os hardwares e os softwares necessários para transformar em bits digitais qualquer texto, qualquer imagem, qualquer som. Realizou de forma involuntária e suicida o sonho de todos os comunistas: o povo sendo o proprietário dos meios de produção. Hoje, o capitalismo fonográfico está em ruínas, o capitalismo editorial está bambeando, o capitalismo cinematográfico e televisivo luta bravamente para prolongar a própria agonia. Viveremos, em breve, do ponto de vista das relações de produção cultural, um socialismo digital que nem mesmo a ficção científica foi capaz de antever.

Aqui entra um novo fator: cadê as cem flores? Já li hectares de textos profetizando que, no momento em que todas as tribos estivessem interligadas, isso iria apagar fronteiras, desinflar as xenofobias, favorecer o cosmopolitismo e a diversidade. Ironicamente, acontece o contrário. Como as quantidades de informações disponíveis são gigantescas, quem gosta de um tipo de informação se concentra nela, cada vez mais. Quando havia poucos discos de heavy metal ou de coco de embolada para vender, o fã desses estilos acabava comprando outras coisas por mera curiosidade. Hoje, a quantidade de informação sobre qualquer estilo esgota as 24 horas do dia de qualquer aficionado. Em vez da variedade, isso estimula a especialização.

Conheço fãs de ficção científica que nunca ouviram falar em Isaac Asimov (foto) ou Arthur C. Clarke, porque ficção científica, para eles, é somente Star trek, e existem terabytes de informação sobre isso, ao alcance de um clique. As tribos se fecham às novidades porque já existe informação demais sobre o deus pequenino de cada uma. Viram guetos – não por serem marginalizadas, mas porque se julgam autossuficientes e se desinteressam do resto do mundo. O adversário atual não é a desinformação, é a pornografia da especialização, o gozo fetichista em cima de dados irrelevantes, a multiplicação de novas versões, de reduxes, de director’s cuts, o repisar incessante e insensato de redundâncias dirigidas aos que querem sempre “um pouco mais daquilo mesmo”. Não adianta ter cem flores se cada uma está trancada em sua própria estufa.

Go to TOP