Da vida, da rua e das palavras

“Me llaman Calle,/me llaman Calle…
calle sufrida/calle tristeza/de tanto amar.”
(Manu Chao)

– Se calhar, vou desdobrar palavras aos jurados. Pronto. Avisar, avisei. Ele não me quis ouvir. E daí, se eu sou mulher da vida? Se ele não queria pagar, não ia ter. Sem paga, só faço com gosto, com o gosto de quem quero. Prometi-lhe a ponta de uma faca afiada, ele não acreditou. Ele nem bêbado estava. Eu disse, vou arranjar uma faca para lhe sangrar. Não vou matar de tiro não, que agora você só está me pegando porque não tenho como me defender. Você vai ver só, vai virar defunto quando menos esperar.

Foi assim que ela começou a falar, aos soldados que a buscaram para o julgamento. O crime foi a morte a facadas o borracheiro daquele reino de ao pé do mar. Ou seria de ao pé do rio? Não importa a quantidade de água, importa agora é o sangue que foi derramado. E tinha sido muito. Poço das águas, era o nome da cidade. O nome do borracheiro, eu esqueci. O dela? Ah, o dela era rua, vida, dama, perdida, princesa. E otros más.

Ela fora estuprada. Antes, ele vivia olhando para ela, com olhar de melaço de cana, mas não queria pagar. Aquela lá, ele sabia, dava para um monte de gente sem receber dinheiro. Por que não para ele? Por que não? O borracheiro fazia do olhar esconderijo para sua raiva. Aquela pervertida! Por que não “havera” de ir com ele?

“Noite alta, céu risonho”, princesa desprevenida. Foi há muitos e muitos anos já. A cidade dormia e quem não dormisse não se importaria com os gritos de uma puta. Ele a estuprou em frente à borracharia, do lado da igreja. Mas o gozo e os dias do borracheiro, a partir dali, estavam contados. Uma faca-peixeira, dessas com que se corta carne no mercado. Peças enormes, lados inteiros de bois pendurados de manhã, para serem vendidos. Bois, carneiros, galinhas no mercado madrugador.

Ela também o pegou desprevenido, mas talvez nem precisasse. Ele era pequeno e era grande a força do ódio da mulher violada. Em pouco tempo, o homem ficou pronto. Não teve gozo de vingança, o assassinato foi um cumprimento. Desde que tinha sido estuprada, fora tomada por uma espécie de missão, a qual ela mesma se impusera. Esperara um tempo. E o tempo, o que é? Ela não sabia o que era tempo. Só conhecia do tempo as esperas. Então, cumprira.

– Foi ele quem quis, eu avisei. O corpo é meu e eu dou a quem quiser. Fui desonrada, sim, ou vocês acham que honra é uma palavra tão pequena que só cabe na moral de vocês? Estou desdobrando a palavra honra, mas não é porque devo explicação. Ele também matou o meu sim e o meu não, o meu querer. É pouco o querer de uma mulher?

Mas os bens em confronto não se podiam comparar. Eram a vida de um homem e o corpo de uma mulher, escudado apenas pelo querer dela mesma O querer de uma mulher-dama, um querer por si mesmo fragmentado. A sociedade, representada por sete jurados, todos homens, condenou-a. “Foi há muitos e muitos anos já. Num reino de ao pé do mar.”

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